Algarvios impulsionaram Seleção Nacional de Optimist em Itália

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Equipa portuguesa conquistou, em Riva del Garda, Itália, a melhor classificação de sempre em vela, na classe Optimist, no final da passada semana. Algarvios deram um forte contributo.

Foi um terceiro lugar e subida ao pódio, na competição por equipas (team racing), no campeonato do mundo 2021, disputado na cidade à beira do maior lago de Itália, no final da última semana, de 7 a 9 de julho.

A equipa portuguesa contou com dois algarvios, o selecionador Frederico Coutinho Rato, conhecido por «Fred» no meio da vela, e o velejador Miguel Sousa. São, respetivamente, treinador e atleta no Clube Naval de Portimão.

Miguel Sousa foi o português melhor classificado na competição individual. Fred é filho de algarvios, pai lacobrigense e mãe louletana, embora tenha nascido em Lisboa há 43 anos.

«Sou um algarvio. Iniciei-me na vela com cinco ou seis anos, através de um amigo do meu pai que já tinha os filhos na vela. Fomos eu e o meu irmão e, a partir daí, nunca mais parei. Andava de BMX e de skate, mas também praticava vela. Desde que mantivesse as boas notas na escola, podia despender os fins de semana na vela, em treinos ou em prova», conta ao barlavento.

Frederico Coutinho Rato e Miguel Sousa no Clube Naval de Portimão.

Participou, como velejador, em dois campeonatos europeus, um em Optimist e outro na classe Europe, «noutros tempos, em que as equipas mais fortes eram do centro e norte do país. Desde que me tornei treinador, isso inverteu- se um bocadinho», diz com satisfação.

Aliás, a vontade de se dedicar à vela levou-o a interromper os estudos na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, já no 3º ano, em Faro, «por ter tido o azar de ser convidado para experimentar ser treinador, durante o verão, no Clube de Vela de Lagos. Como gostava de ganhar algum dinheiro em férias, fui. Não queria, porque sempre pensei que não tinha jeito para lidar com as crianças. Mas, passado uma hora, comecei a apaixonar-me, porque consegui ver logo resultados. Foi até hoje. E desisti da faculdade. O que gosto mesmo de fazer é ensinar, motivar e ver os miúdos a ultrapassar os obstáculos e a atingir os objetivos. Essa é a minha paixão», admite.

Na sua opinião, um treinador da classe Optimist é uma espécie de professor do primeiro ciclo do ensino básico, que recebe os alunos que nada sabem, prepara-os, ensina-lhes a teoria e a prática e, depois, aos 15 anos, vê-os partir para as mãos de outros treinadores, noutras classes de embarcações.

E quando isso acontece «é um misto de sensações. Na balança da vida, sinto uma certa nostalgia e uma sensação de perda».

Mas, «ao mesmo tempo, é um sentimento de dever cumprido, porque, ao longo dos seus trajetos, lidaram com várias situações, desde dominar todos os elementos que envolvem a vela, a parte científica e a sensorial, aprenderam a dominar os ventos, a trabalhar em equipa, e também o trabalho individual».

«Aprenderam que o esforço recompensa e toda essa aprendizagem é uma ferramenta para a vida. E sei, através dos atletas que treinei, que isso os ajudou imenso, tanto ao nível do desporto, como no relacionamento com a família, pois trabalho a gestão relacional, a lidar com os pontos menos bons na vida e também com os melhores, porque também é necessário controlar alguma euforia, quando estamos em modo vencedor», detalha.

Sem depreciar os outros desportos, Fred considera a vela uma melhor escola de vida, porque um treino dura cerca de 10 horas, passando o atleta todo o dia com o treinador e a desafiar-se no mar, enquanto um treino de muitas outras modalidades dura uma ou duas horas. Frederico Coutinho Rato é um treinador respeitado internacionalmente, que, pontualmente, treina alguns dos 20 velejadores de topo em Optimist, a nível mundial.

Como conseguiu esse reconhecimento? «Os nossos atletas são fortes e juntam as condições excecionais que temos em Portimão, não só para os treinos, mas para os pais, que entregam os filhos a uma equipa em quem confiam e aproveitam para fazer praia ou outras atividades», explica.

Fred já foi convidado para ser treinador nacional em projetos olímpicos na classe Laser, «mas sempre recusei, porque a minha paixão são as classes mais jovens, a curiosidade, o primeiro despertar, levando-os ao mais alto nível, como um campeonato do mundo. Algo que hoje obriga a um desempenho muito profissional, que envolve grandes valores financeiros e grande empenho pessoal dos atletas, treinadores, famílias, clubes, federações. Mas é a classe que mais me atrai», sublinha. Este ano, foi nomeado selecionador nacional para o campeonato mundial.

E não esconde que «foi excelente, pois trabalhamos o ano inteiro para que os nossos miúdos sejam os melhores. O processo seletivo tem a ver com os atletas que temos à frente no campeonato, mas é sempre uma incógnita, pois todos trabalhamos para o mesmo: para formá-los com o melhor nível possível. Muitos treinadores têm uma equipa reduzida e tratam apenas dela. Eu ajudo em todo o lado. Faço vela para adultos, ajudo no clube e dou um apoio em iniciação, pois também sou formador. Em suma, invisto tempo noutras vertentes para que a escola tenha uma linha bem definida. Mas nunca sabemos, quando chegamos às regatas, se o treino foi suficiente», admite.

Este ano, tal como o ano passado, os atletas estiveram parados durante muito tempo, mais do que noutros países.

Logo, tiveram que treinar mais, no pouco tempo entre os nacionais e o mundial. Além de que muitos dos 48 países em competição têm muito mais verbas e condições para treinar.

«Estamos a falar de realidades completamente diferentes. Defrontámos os países mais fortes, que são multicampeões do mundo, tanto na vertente em que alcançámos o pódio, como nos campeonatos de frota, que são individuais. Neste mundial, notei que alguns adversários treinaram imenso no local. Um dos treinadores disse-me que já lá tinha estado oito vezes, este ano».

Na competição por equipas, tal não é fundamental, porque é um campo de regatas muito pequeno e intensivo, onde é valorizado o espírito de equipa, mas conta muito na regata de frota, pois as provas foram efetuadas num lago, com montanhas ao redor, o que fazia variar bastante a direção dos ventos.

A seleção portuguesa treinou, em Itália, com a brasileira, que é muito boa na modalidade, praticando e fixando cinco ou seis armadilhas, contra as muitas que eles têm e usam.

E usaram-nas contra as equipas mais fortes, concentrando- se a cem por cento, «porque, só através do erro que obrigássemos os adversários a cometer, poderíamos passar, regata a regata. E foi o que aconteceu. As mais difíceis foram a primeira e a última, contra os poderosos Estados Unidos da América, que estudam isto diariamente, têm tudo na ponta da língua, mas que ficaram nervosos quando nos viram na linha de largada, cem metros à sua frente, a chamar por eles, quando habitualmente a equipa mais fraca é a última a chegar. Foi uma mensagem muito clara do que íamos ali fazer. Cometeram logo um erro na largada, com um velejador a largar fora, e não conseguiram recuperar», conclui.

Miguel Sousa entre os melhores do mundo

Portugal deve apostar no team racing Miguel Sousa, portimonense de 14 anos, foi o melhor português na competição individual, terminando no 47º lugar, entre 259 competidores. No final do primeiro dia, contudo, estava em 140º. No segundo dia, subiu para 71º e no terceiro dia para 38º. O cansaço pelo esforço na competição por equipas fê-lo descer uns lugares, no último dia.

«Na primeira regata, com os nervos e menos experiência do que os outros naquele campo, cometi um erro tático na segunda bolina, já perto do final, e passei da posição que ocupava entre os 20 primeiros para o fim do grupo, a cinco do último. Aquilo é um campo em constante movimento, rodeado por montanhas, com o vento sempre a saltar à direita e à esquerda. Mas tínhamos a noção de que, na segunda bolina, poderia estar à esquerda. Mas eu confiei mais no que tínhamos visto, cerca de uma hora antes, do que nos meus olhos. Vi que na direita estava muito melhor, mas fui pela esquerda. Mas melhorei logo na segunda regata », recorda o jovem atleta. Participar no mundial «dá um certo nervosismo, porque estamos a representar Portugal», admite.

Este é o seu último ano em Optimist e Miguel Sousa está a pensar mudar para a classe 420, em 2022, se encontrar o parceiro certo, porque é uma embarcação com dois tripulantes.

Portugal deve apostar no team racing

As crianças entram na vela, muito jovens, e começam a treinar para serem os melhores. É um desporto individual e, durante anos, são focados em si próprios. Em Portugal, não se pratica team racing. Segundo o selecionador Frederico Coutinho Rato, «deu muito trabalho reverter os ideais que os miúdos praticam desde tenra idade, tentar mudar o chip, para quem não treina o team racing».

Neste momento, há uma proposta verbal em cima da mesa e esperamos que possamos impulsionar, através do nosso resultado, essa mudança. Temos uma Federação de Vela muito empenhada e a Associação Portuguesa da Classe Optimist também. Talvez o resultado obtido sirva para catapultar a obtenção de apoios, para agilizar este formato, que é muito importante. Estes valores são muito valiosos para a vida, porque em tempos difíceis, quanto mais unidos estivermos, melhor podemos passar obstáculos. Trabalho muito o espírito de equipa no meu clube e na minha vida pessoal e transferi essa atitude para a equipa nacional, conseguindo motivar os miúdos, pelo menos para aguentar o máximo possível no primeiro dia, contra equipas poderosíssimas. Quase todas as que defrontámos já foram campeãs do mundo, várias vezes, nesta modalidade. Foi quase como pedir a estes miúdos que vestissem a capa do Batman e acreditassem, como se fossem crianças de quatro anos».