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Ana Medeira, cineasta independente e profissional de vídeo, realizou o documentário «Um Olhar entre redes» para mostrar uma das últimas comunidades piscatórias de praia do Algarve… em vias de extinção.

Armação de Pêra, no concelho de Silves, tem uma das últimas comunidades de pescadores artesanais de praia que restam no Algarve.

«Sim, foi esse o motivo pelo qual decidi fazer este documentário. Falando com eles, apercebi-me que existe muito a ideia de fim. Acham que esta sua realidade não vai durar. Em termos de estrutura, o filme é uma viagem pelas suas opiniões», numa perspectiva individual e coletiva, explicou ao barlavento a realizadora Ana Medeira, 48 anos, residente em Armação de Pêra, que não esconde um certo fascínio por estes homens do mar.

«Um Olhar entre redes» era para ter sido terminado no verão de 2020, mas a pandemia veio trocar as voltas à autora que resolveu esperar.

Sobre o guião, «começo com um questionário comum a todos. Pergunto-lhes quais as suas origens? Quase todos são descendentes de famílias de pescadores e abraçaram esta profissão ainda muito novos. Feita esta breve introdução biográfica, falamos sobre o contexto atual. Quais as suas dificuldades? Penso que é um documentário bastante pragmático porque aborda o quotidiano e também o que acham que poderia ter sido diferente nas suas vidas».

Ana Medeira.

«Pergunto-lhes, porque resistiram tanto tempo? A verdade é que o filme converge para um final em que alguns descrevem a sua enorme paixão pelo mar, de uma forma até poética», descreve a realizadora.

«E também falo com os pescadores mais jovens, que têm entre 20 a 30 anos e estão agora na atividade. São muito poucos e partilham do pessimismo dos mais velhos. Encaram a pesca como um trabalho temporário numa altura em que não havia oferta, por exemplo, no turismo devido à situação da pandemia. Ou seja, não queriam estar nesta situação, mas a força das circunstâncias faz com que vejam a pesca como um (último) recurso», acrescenta.

O filme tem menos de uma hora de duração. «Gostava que fosse mais curto, mas havia tanto por dizer e para mostrar. Como gosto do material, espero que quem assistir ao documentário goste também», afirma com carinho.

A estreia teve lugar no dia 13 de agosto.

Ana Medeira pensou «porque não fazer algo em jeito de homenagem? O filme toca em alguns assuntos que são polémicos, mas não pretende ser uma peça jornalística porque senão teria de ouvir as várias partes. Também não pretende trazer para a ribalta os problemas da comunidade. No entanto, é mesmo verdade que eles enfrentam dificuldades. E algumas que são mesmo estranhas», aponta.

Tais como? «Sentem que esta comunidade tem os dias contados. São raros os que acham que não. E os que discordam é apenas porque consideram uma aberração Armação de Pêra perder a sua comunidade piscatória. Uma vez que se perca, dificilmente voltará», um pouco à semelhança do que aconteceu por todo o Algarve.

Nas traseiras dos apoios e arrumos dos pescadores está a ser construída uma grande urbanização, cujos promotores argumentam ter comprado também o areal, embora seja inédito no regime jurídico português as praias serem propriedade privada.

O impacto que esse eventual negócio terá no dia a dia de quem vive da faina é uma incógnita.

«Sim, mas é o que se está a passar. Vimos o embargo que tentaram fazer ao barracão de abrigo ao trator que a Câmara Municipal de Silves ofereceu aos pescadores», sublinha.

«Penso que isso é um assunto que deveria ser discutido» na esfera pública.

A imobiliária, especulativa ou não, não é a principal razão para a falta de confiança dos pescadores no futuro.

«O que mais os preocupa é a falta de rentabilidade da atividade. É tudo muito burocrático e as despesas são maiores que as receitas. Independentemente de esta comunidade estar em vias de extinção, acho que é tempo de se olhar para ela. Já houve outras reflexões, esta é só mais uma. E se abrir o debate, melhor».

Depois da recente tournée de exibição no concelho de Silves, Ana Medeira considera exibir o filme em festivais de cinema, ou noutros locais em que haja interesse pela temática.

Questionada sobre o orçamento, a cineasta revela que «em 2019, consegui mil euros para arrancar, por parte da Direção Regional de Cultura do Algarve. Com a loucura da pandemia vi todos os apoios institucionais que tinha em vista caírem porque havia outras prioridades. Entretanto, abriu o programa Garantir Cultura. Foi fácil fazer uma candidatura e consegui 10 mil euros para avançar».

O dinheiro serviu para pagar todas as despesas de produção e os vários colaboradores. A realizadora guardou ainda uma parte da verba para a divulgação do filme e para a exibição. «Sim, estou a pensar mais numa lógica de cinema ao ar livre».

Ana Medeira já fez outros documentários, um dos quais sobre a comunidade da Guiné-Bissau residente em Barcelona. «O engraçado de fazer estes filmes são os universos e as pessoas que se conhecem».

Quanto tempo demorou a edição? «Tenho horas e horas de filmagens. Adoro filmar e criar fotografia através do vídeo. A edição é sempre mais difícil porque há um momento em que tudo parece um puzzle onde não se sabe bem onde começa. Mas quando começa a tomar forma, é um gozo muito grande. Outra coisa que talvez possa ter contribuído é que trabalho muito para clientes e tento sempre ir ao encontro das expetativas de cada um, tento satisfazer um pedido. Neste caso, trabalhei ao meu ritmo e à minha vontade. Criei um filme muito contemplativo, com várias pausas na narrativa… se calhar é um pouco clássico para este mundo em que anda tudo a correr. Fiz como gostei e até foi um processo bom. Estou satisfeita», conclui.

Tribunal rejeitou «praia privada»

O município de Silves congratulou-se com a decisão do Tribunal de Portimão, proferida a 1 de agosto, que anulou o embargo que a Praia da Cova – Realizações Turísticas, SA, empresa com ligação ao grupo Vila Vita Parc, efetuou, a 9 de maio último, à obra que estava ser realizada pela autarquia na Praia dos Pescadores, em Armação de Pêra, e que consiste na instalação de um abrigo para o trator oferecido pela edilidade silvense à comunidade de pesca local, para ajudar no reboque das embarcações para terra.

Entendeu o tribunal que a parcela de terreno onde incide a obra promovida pelo município de Silves, integra o Domínio Público Marítimo do Estado Português e que a Praia da Cova, SA, não tem legitimidade para intervir no terreno, nem para embargar qualquer obra nessa parcela com o fundamento no facto de ser «propriedade privada».

Em paralelo a este processo judicial, decorre outro no Tribunal de Portimão, intentado pelo Ministério Público em representação do Estado Português, no qual está em causa a anulação de uma escritura pública de compra e venda de um terreno que integraria o areal da Praia dos Pescadores de Armação de Pêra, celebrada em dezembro de 2012, e o reconhecimento de que essa praia integra o Domínio Público Marítimo de Portugal.

A Câmara de Silves considera que a Praia dos Pescadores de Armação de Pêra, que «constitui o berço e as raízes desta vila piscatória, onde se localizam o corredor de pesca e mais de 40 apoios de pesca para recolha dos aprestos dos pescadores, a lota, balneários públicos, o posto da Cruz Vermelha e vários estabelecimentos comerciais e concessões, integra o domínio público do Estado».

Com a decisão agora tomada pelo Tribunal de Portimão, e no pressuposto de não ser apresentado recurso da mesma, estão reunidas as condições para a conclusão da obra do abrigo do novo trator no valor de 95 mil euros, oferecido pelo município de Silves à Associação de Pescadores de Armação de Pêra, investimento esse enquadrado no âmbito do processo em curso que visa a criação da Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário que incide na baía de Armação de Pêra, futuro Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado.

O executivo de Rosa Palma vai continuar «a zelar pela defesa da legalidade e da prossecução do interesse público, no âmbito da tutela do património imobiliário público e da proteção dos direitos e interesses legítimos da comunidade de pesca local».