«Portugal geopolítico» de Virgílio Machado apresentado hoje em Faro

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Recém-lançado «Portugal geopolítico – História de uma identidade», novo livro do docente e investigador da Universidade do Algarve (UAlg), Virgílio Machado, vai ser apresentado hoje, às 17h30 na Biblioteca António Rosa Mendes, no campus de Gambelas, em Faro.

O livro é um contributo de ciência política para o conhecimento de como as instituições condicionam e projetam a nossa vida organizativa, segundo explica o autor em entrevista ao barlavento.

barlavento – o que o levou a ensaiar sobre a identidade geopolítica de Portugal?
O seu novo livro é uma retrospetiva histórica ou toca em aspetos da contemporaneidade?

Virgílio Machado – A obra insere-se na continuidade da minha investigação sobre territórios e poder, desde 2009, com a minha tese de Doutoramento em Turismo e a minha formação de base em Direito. A geopolítica, na sua essência, associa duas palavras de origem grega, «geo» e «polis », ou seja, terra e organização política da cidade, ou seja, do Estado de então. Procurei verificar se este termo tinha densidade de investigação científica e literatura de não ficção aplicada a Portugal e verifiquei que não. Os temas versam sobre relações internacionais, guerra e paz, diplomacia. Não é esse o enfoque pretendido neste ensaio porque o mesmo incide sobre as formas e evoluções de organização política que existiram no território português desde milénios. Aproveitando metodologias desenvolvidas por politólogos internacionais, como Tim Marshall e Jared Diamond em obras de topo internacional como «Prisioneiros da Geografia» ou «Como se renovam as nações», as mesmas detetam pautas, ritmos, trajetórias ao longo da História que manifestaram uma forma de perceber, entender e de agir politicamente sobre o território. Isso é identidade geopolítica portuguesa. Como tal, não é uma obra meramente histórica, no sentido de descritiva ou explicativa, mas tem projeções de significativo valor político para a atualidade.

Pode revelar uma das suas principais conclusões?
Não posso revelar muito porque também desejo, evidentemente, que o livro seja lido. Mas posso dizer que há surpresas antropológicas, geográficas, institucionais sobre o que somos: Portugal. Vou apenas revelar algumas conclusões do foro jurídico- -político: que a nossa autonomia geopolítica depende de um valor reconhecido por outras ordens geopolíticas, mais do que valores intrínsecos; que o instituto jurídico da propriedade privada anda a par da formação da organização política do Estado e não o seu contrário e que o sucesso no desenvolvimento das organizações políticas depende não só de exercício de justiça transversal na governação, mas também de tratados, acordos e criação de contextos divisíveis favoráveis com aliados estrangeiros.

Como vê Portugal hoje no enquadramento da geopolítica europeia e até mesmo mundial. Continuamos na periferia?
Essa é uma questão fundamental para a atualidade que a História da nossa identidade geopolítica ajuda a entender. Sempre fomos ponto de contacto para termos importância. No comércio, no transporte marítimo, nas comunicações, seja antigamente no eixo de ligações entre o norte europeu e o sul do Mediterrâneo ou hoje entre a Europa, o oriente e o Brasil. Pois geograficamente procurámos sempre esses horizontes pelo mar. Dentro da geopolítica europeia e mundial, temos sempre que fazer o mesmo que antigamente fizemos: essencialmente, valorizar o mar para o comércio internacional, a mobilidade das comunicações, a promoção da paz ambiental, em especial, nos recursos marítimos, o uso inteligente da diplomacia para contrariar políticas de reforço centrípeto de grandes eixos continentais e dar força às relações entre ordens políticas centrífugas que valorizam o mar, enquanto recurso geopolítico.

Quem convidou para prefaciar a obra e porquê?
A obra tem o prefácio de Claudio Monteiro, um amigo. Antigo colega dos bancos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É juiz conselheiro no Supremo Tribunal Administrativo e professor de Direito na referida Faculdade. Estudioso e publicador de obras no Direito do Urbanismo. Um apaixonado do estudo do território, tal como eu. Nascido brasileiro, muito cedo se radicou em Portugal e se adaptou ao seu novo contexto geográfico e cultural tendo, naturalmente, sem renegar o seu legado de origem, assumindo no prefácio, ser mais produto do seu país de acolhimento. Qualificando o seu território como o «herói desta narrativa» referindo- se à minha obra, foi a pessoa certíssima para fazer este prefácio, porque compreende, como poucos, que a identidade geopolítica, mais do que uma distinção étnica, é mais uma qualidade que pode ser adquirida, mais do que um ser se caracteriza como saber-fazer, como um processo evolutivo que a História vai construindo.

Este é um trabalho que vem na linha do anterior livro «Turismo, Direito e Democracia» de 2015? Há pontos de contacto? Quais?
Não. Tem alguns pontos de contacto, mas poucos. Por exemplo, a importância de um território inclusivo e de justiça para a democracia ou de respeito pelo território enquanto estratégia fundamental a seguir pelas organizações de planeamento e desenvolvimento turístico. Ou ainda a importância do território no estudo da História dessas organizações.

Que mais tem na calha?
É necessário fazermos um balanço daquilo que produzimos. Junto do mercado, neste caso, pelos leitores do livro. Junto de quem trabalhamos. Ouvirmos, ponderarmos, reagirmos. Desenvolvimentos podem ocorrer nas ligações ao Algarve e quiçá ao turismo, minha área científica de estudo e de gestão de ensino na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve, onde sou docente e investigador. Mas o futuro é sempre uma equação em aberto.

Sobre o autor

Virgílio Miguel Rodrigues Machado, 55 anos, natural de Portimão, cidade onde reside, é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1988 e Doutor em Turismo pela Universidade de Aveiro, em 2009.

É atualmente professor adjunto da Escola de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve.

Tem experiência diversificada de trabalho em assessoria jurídica na administração pública, governo, empresas e tribunais. É docente no ensino superior há cerca de 28 anos e investigador de estudos superiores em Direito, Turismo e Governação, com ênfase em temas como poder e território, história de sistemas e desenvolvimento institucional.

Já publicou duas obras, a primeira intitulada «Direito e Turismo como instrumentos de poder – os Territórios Turísticos», em 2010, e em 2015 «Turismo, Direito e Democracia», ambas com prefácios dos seus orientadores de Doutoramento, Carlos Costa e Marcelo Rebelo de Sousa.

Tem cerca de 20 artigos, em exclusivo ou como coautor, publicados em revistas científicas nacionais e internacionais, como, recentemente, nas prestigiadas revistas Tourism Planning and Development, em 2018, e Journal of Place Management and Development, em 2019.

O seu registo científico pode ser consultado com acessibilidade ao sistema de dados Sapientia da Universidade do Algarve aqui.

Depois de Faro, Portimão

Após uma primeira apresentação no campus de Gambelas da Universidade do Algarve, em Faro, esta quarta-feira, dia 13 outubro, «Portugal geopolítico – História de uma identidade» será apresentado pelo autor na Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, na quarta-feira, dia 20 de outubro às 18h00 com a presença de Mário Ferro. A obra, de 184 páginas (ISBN: 978-989-37-0753-1) tem chancela da Lisbon International Press e custa 13 euros (em suporte papel) ou cinco euros (versão digital/ ebook) e pode ser adquirido aqui.

Fotos: José Garrancho.