Maria da Graça Ventura ganha prémio da Fundação Calouste Gulbenkian

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Livro «Por Este Mar Adentro», de Maria da Graça Ventura, foi distinguido com o Prémio da Fundação Gulbenkian, História da Presença de Portugal no Mundo.

A historiadora algarvia Maria da Graça Ventura vai receber o prémio da Fundação Calouste Gulbenkian, no dia 7 de dezembro, às 15h00, na Academia Portuguesa de História, em Lisboa.  O prémio monetário, no valor de 2000 euros será entregue após uma cerimónia que contará com a participação do cardeal José Tolentino de Mendonça.

Em «Por Este Mar Adentro», a autora escreve sobre a Carreira das Índias Ocidentais entre os séculos XVI e XVII, quando as gentes do mar do Algarve forneceram barcos, apetrechos e mão de obra qualificada ou abrigo para as Armadas da Guarda, sobretudo no porto de Portimão, contribuindo para a interdependência económica e estratégica da região relativamente àquela rota.

Alguns dos muitos algarvios que se aventuraram mar adentro rumo à América do Sul nessa época são resgatados da memória, ilustrando a teia de afetos que esse fluxo migratório originou a partir das principais vilas e portos do Algarve, com destaque para Portimão, Lagos, Faro, Loulé e Tavira.

Maria da Graça Ventura é investigadora integrada no Centro de História da Universidade de Lisboa, investigadora associada no CHAM, membro da Asociación Española de Americanistas e da Associação de Historiadores Latino-americanistas Europeus, sendo cofundadora e atual presidente do Instituto de Cultura Ibero-Atlântica (ICIA), criado em 1995 na cidade de Portimão.

Tem sete livros publicados, a maioria dos quais sobre a Ibero-América, participando regularmente em numerosas obras coletivas, com capítulos de livros e artigos em revistas portuguesas e internacionais, sendo também avaliadora externa de diversas revistas nacionais e ibero-americanas.

Dirige também a coleção «Travessias» e a «Meridional: Revista de estudos do Mediterrâneo».

Segundo contou em entrevista ao barlavento, um capítulo do livro «Por Este Mar Adentro» vai revela o essencial da história do negreiro Jorge Fernandes Gramaxo, natural de Vila Nova de Portimão, que em 1620 se tornou o mais rico e influente comerciante em Cartagena das Índias, na atual Colômbia.

«De 1585 até 1635, a família Gramaxo teve um papel preponderante no domínio do tráfico negreiro. Dessa família, o elemento nuclear era o portimonense Jorge Fernandes Gramaxo, cristão-novo. A sua família em Portimão foi quase toda presa pelo Tribunal da Inquisição de Évora, alguns condenados à fogueira por alegadas práticas judaizantes, outros reconciliados», recorda.

«Jorge tinha dois irmãos mercadores em Lisboa, dois sobrinhos em Cabo Verde e nos Rios da Guiné. Então, criaram uma rede de negócios em torno do tráfico negreiro. E embora fosse cristão-novo, ele e os irmãos nunca foram perseguidos pelo Santo Ofício, o que não deixa de nos surpreender. Vários cristãos-novos fugiram para as Índias de Castela, talvez por isso existisse em Portimão uma Rua do Peru. Jorge Fernandes Gramaxo tornou-se um homem muito rico e poderoso. Desempenhou cargos municipais em Cartagena, e além de mordomo do Hospital dos Espanhóis, foi patrono e fundador do Convento de São Diogo dos Recolhidos Descalços da Ordem de São Francisco, pois isso fazia parte da estratégia de integração social na sociedade, onde fez questão de ser sepultado», acrescenta.

«Tenho vindo a estudar a sua biografia que é altamente complexa, pois é preciso recolher elementos nos mais diversos arquivos. O que é curioso, é que ele, apesar de ser cristão-novo tem uma costela de cristão-velho, porque o bisavô era cónego da Sé de Silves. Os Gramaxo cristãos-velhos tinham um brasão idêntico ao que ele mandou colocar na sua lápide sepulcral, em 1626, no referido Convento que fundou em Cartagena. E ainda hoje lá está».

Para este livro, a investigadora e presidente do ICIA reuniu «os dados resultantes de uma investigação no Archivo General de Índias em Sevilha sobre os portugueses na América espanhola. Uma base de dados de 1.400 pessoas de todo ao país, incluindo mareantes de Lagos, Portimão, Faro e Tavira no século XVI (até 1640). Desses, escolhi os naturais do Algarve. Quase todos morreram por lá e remeteram a herança à família que cá ficou. Um caso excecional foi Francisco Barreto que era capitão-mor de Faro e senhor de Quarteira e primo irmão do vice-rei do Peru, o Príncipe de Esquilache, que o nomeou General da Armada do mar do sul, entre 1615 e 1621. Regressou e morreu em Faro. Deixou um filho natural que foi governador no Brasil no século XVII, o qual determinou, em testamento, que deveria ser sepultado junto aos seus antepassados, os Barreto, fundadores do Convento de Santo António de Loulé».