«Madalena» assinala o Dia Mundial do Teatro em Faro

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Elenco feminino que pisa pela primeira vez o palco do Teatro das Figuras desconstrói o tema da morte, numa catarse aos dias que correm na peça «Madalena».

Maria Madalena, a figura-mor da Bíblia, a cuidadora lacrimosa que se encarregou de preparar o corpo de Cristo para o funeral, é o ponto de partida. É verdade que a Páscoa está próxima, mas que premissa é esta num tempo tão conturbado? Responde a atriz Sara de Castro, que assina direção artística de «Madalena», a peça que o Teatro das Figuras, em Faro, escolheu para celebrar o Dia Mundial do Teatro, no domingo, 27 de março às 21h30.

«Por norma, quando se fala sobre a morte batemos logo com os dedos na madeira e as pessoas preferem evitar o assunto. É tabu. No espetáculo havia a ideia de que não falarmos sobre as coisas, torna-as mais assustadoras, mais difíceis de enfrentar porque as guardamos para nós. Existia esse desafio. Como é que abordamos o tema sem fazermos um espetáculo pesado, e sem que as pessoas saiam deprimidas? Sou suspeita, mas acho que o conseguimos».

«É claro que uma perda é uma perda. Há sempre um sentimento de tristeza, de solidão e de vazio associado, mas sabemos que estas coisas, muitas vezes, também envolvem um quotidiano que tem de seguir em frente. Há um paradoxo entre algo muito dramático e a vida quotidiana que segue, que tem de seguir, porque temos de continuar a comer, a dormir, a trabalhar, a viver. À vezes, isso cria situações muito insólitas, até absurdas. Todos passámos por isso. Nos funerais, há momentos em que, por vezes, temos vontade de rir porque somos humanos e porque é tudo muito paradoxal. Este espetáculo vive desse desacerto entre a dor da perda e, ao mesmo tempo, da vida ter de continuar. Há momentos duros e outro cómicos. O público chora e ri, tem acontecido. Achamos que isto faz uma ligação ao tempo que estamos a viver. Precisamos de chorar, porque o mundo está um bocadinho desorganizado. Temos de rir para a vida poder continuar e para podermos ultrapassar as coisas difíceis. Portanto, acho que é uma ótima metáfora para o que temos vivido nos últimos dois anos e agora, em particular, ainda mais», descreve.

«Madalena» é a primeira proposta a chegar a Faro no âmbito da Rede Eunice Ageas, de circulação de espetáculos dinamizada pelo Teatro Nacional D. Maria II, de Lisboa, até 2024, e que junta ainda os teatros de Bragança, Cartaxo e Portalegre. É também a última paragem para «Madalena» e uma estreia para a maioria do elenco, diz Sara de Castro que durante 15 anos fez parte do Teatro O Bando, de Palmela.

A atriz esteve em Querença, em 2005, durante a programação de Faro, Capital Nacional da Cultura, mas nunca no palco farense.

«Estamos todas entusiasmadas. Vai ser um momento muito especial porque é o primeiro espetáculo que se apresenta no Teatro das Figuras dentro da Rede Eunice, e é o último que fecha a nossa digressão».

Para o ano, «estamos a magicar algo que parte das mesmas premissas. Somos um grupo de mulheres e há uma assinatura e uma voz que marcará bastante o que se seguirá. Queremos continuar a pegar em temas difíceis, sob o ponto de vista feminino e perceber como os podemos trabalhar, sem fazer espetáculos pesados, maçadores, e que possam dar outras perspectivas», antevê.

O espetáculo surge pela mão de Dentro do Covil – Produção e Criação Artística em coprodução com o Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Viriato e Centro de Arte de Ovar. Os bilhetes custam 10 euros (cinco euros para menores de 30 anos) e podem ser reservados por telefone (289 888 110) de terça-feira a sábado das 13h00 às 19h30.

Fotos: © Filipe Ferreira.