Lavrar o Mar revisita território de Aljezur em novas Caminhadas com Arte

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Depois de Monchique é a vez de Aljezur receber a segunda edição das Caminhadas com Arte organizadas pelo projeto Lavrar o Mar, no domingo, dia 6 de junho, com início às 9h30.

Apesar de nunca ter parado durante o último ano e meio de pandemia e confinamentos, o Lavrar o Mar estava «desejoso de voltar» a receber o público.

Quem o diz é Madalena Victorino, coreógrafa e corresponsável pela direção artística e programação do projeto, em conjunto com Giacomo Scalisi.

Em Aljezur, a iniciativa surge em colaboração com a Associação Rota Vicentina, «que nos ajuda a encontrar os trilhos» em conjunto com a equipa da casa.

Em conversa com o barlavento, Victorino explica que há oito percursos diferentes à escolha do público. Cada um será guiado por um convidado especial.

Cada pessoa deverá, no ato da compra do bilhete, escolher o orador/caminho que pretende realizar, tendo em conta as particularidades de cada um: tema, grau de dificuldade, distância, duração e idioma.

«Serão três horas de caminhada, de seis a oito quilómetros. Haverá a possibilidade de as pessoas também irem descansando, conversando, sentindo a natureza. Aquilo que nos interessa é que neste caminhar haja uma escuta, a possibilidade de tirar partido de estar perto de pessoas que consideramos tão ricas porque unem o seu saber à sua própria vida. Não veem fronteiras entre o seu trabalho e a sua vida e são apaixonados por aquilo que fazem e sabem muito», explica.

«Aquilo que vai acontecer será uma caminhada, como um ritual de escuta, de audição, de aproximação a uma pessoa muito especial, onde a conversa e as perguntas serão possíveis em momentos de descanso».

Cada nome foi escolhido a dedo e com um propósito.

David Marçal é um bioquímico «nos diz que os sais que circulam no nosso sangue são os mesmos que circulam no oceano. Será uma caminhada muitíssimo interessante na sua companhia, não só para falar do pensamento mais antigo, das questões da alquimia, mas também sobre este mundo de hoje, que nos faz aproximar da ciência para podermos enfrentar e olhar o planeta, o nosso corpo e a nossa relação com a natureza», começa por dizer.

Outro convidado é Pedro Miguel Santos, «um dos jornalistas do coletivo Fumaça, que é um grupo de jovens jornalistas que fazem um jornalismo lento e autossustentável. Não vivem da publicidade, mas daquilo que os seus leitores veem de valor no seu trabalho e que pagam para ler. Trabalham em conjunto, agarram um tema, um assunto, e vão desbravá-lo até aos seus limites. Portanto, trabalham dois ou três anos num só tema, num só assunto, e vão olhar para ele de todas as perspetivas e pontos de vista», acrescenta.

O escritor Afonso Cruz, que dispensa apresentações, «vem falar-nos também da sua relação com esta terra, através do programa Lavrar o Mar e do projeto Medronho, vem falar de alquimias e de muitas outras coisas» da sua obra e forma de trabalhar a literatura.

Esta edição elenca também José Reis, um economista da Universidade de Coimbra que tentará desmontar um conceito. «Desde que nos levantamos até que nos deitamos, estamos ligados a atos económicos, estamos sempre a fazer economia. Falará da ideia de que a economia está ligada à intrinsecamente ligada à vida, e não é só uma matéria de especialistas que comandam o mundo».

Nesta linha de pensamento surge o nome de Ângela Ferreira, «uma artista plástica com quem contactámos. Gostamos imenso do seu trabalho, realizado a partir de um olhar político sobre o mundo».

«Está muito ligada à arte africana, mas sobretudo à condição africana. O seu trabalho por vezes é uma instalação, obras tridimensionais, a apontar para a escultura e ela escolheu um trilho. Há muitos anos que percorre aqui na zona das Alfambras, a caminho do mar, um determinado percurso que usa para trabalhar e para refletir a sua arte. É por esse trilho que lhe é tão familiar que ela vai levar o grupo de 15 pessoas para lhes falar da sua forma de criar e do seu olhar preocupado com a ética, a justiça, e a questão política com que o mundo, no fundo, está sempre a braços», revela Madalena Victorino.

Outra possibilidade é caminhar com Henrique Schreck, «um arquiteto, inicialmente arquiteto das cidades, urbano, e que se especializou na arquitetura rural, na chamada tão conhecida taipa. Vamos estar num monte agrícola, todo construído em taipa, muito antigo e em ruína e vamos ter aí uma lição magistral sobre a arquitetura em terra crua, que é milenar, e vamos ter este especialista a olhar para as paredes, a interpretá-las, mas não só, a explicar como é que a vida rural se organizava, se fazia, através do testemunho da própria arquitetura».

Em tempos conturbados, Madalena Victorino, a coreógrafa mentora do projeto Lavrar o Mar e convidados, estreiam «Quando», um espetáculo de movimento, imagem e som no Lugar da Rocha, no coração de Marmelete.
Madalena Victorino. Foto: Nuno de Santos Loureiro.

Ainda sobre esta temática, os caminhantes poderão acompanhar Luísa Veloso, socióloga e investigadora.

Falará sobre a «economia rural, assente em relações de confiança, em negociações, e nos paradoxos que enformam territórios onde coexistem senhores e seus funcionários, trabalhadores rurais e trabalhadores móveis, opulência e natureza, montado e muita seca».

Estão também disponíveis também duas pessoas locais.

Nicolau da Costa «um arquiteto paisagista, agricultor, apicultor, mariscador e surfista. É uma pessoa extraordinária que vai fazer aqui uma caminhada memorável», em língua inglesa.

E Maria João Neto «filha de uma família importante de Aljezur, historiadora, vem falar-nos da história deste território. Será uma caminhada a olhar para a história e para o passado deste território, a partir também da sua vivência pessoal».

Segundo Madalena Victorino ninguém perderá nada com a escolha que fizer.

«Vamos fazer gravações integrais das caminhadas para que depois todos possam possam usufruir de do que foi dito nos percursos onde não puderam estar».

É obrigatório o uso de máscara. O evento conta com o selo «Clean & Safe» do Turismo de Portugal.

Haverá também espaço para tomar uma merenda. «Pedimos às pessoas para trazerem qualquer coisa consigo, uma vez que não é possível oferecer-lhes» devido às regras de contenção da pandemia de COVID-19.

A organização recomenda o uso de calçado confortável e roupa apropriada para o caso de chuva ou sol, e de cantil de água.

A idade mínima permitida é de 16 anos. Os bilhetes custam 10 euros (preço único) e estão à na BOL.

Fotos: © João Mariano/ 1000 olhos.