Fotógrafo ucraniano radicado em Faro mostra «Vozes fora da Guerra»

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Serhiy Stakhnyk, 46 anos, 23 dos quais a viver no Algarve, foi à procura de compatriotas que a guerra empurrou para Portugal para mostrar as suas histórias em «Vozes fora de Guerra».

São retratos e histórias de famílias ucranianas que a guerra empurrou para Portugal, que têm como pano de fundo, a destruição provocada pela guerra nas suas cidades de origem.

A mostra, que está patente até 6 de dezembro, no Jardim Manuel Bivar, inaugurou na terça-feira, 6 de setembro, na véspera do Dia do Município de Faro e incluída no programa da efeméride.

O projeto demorou cerca de quatro meses a preparar, segundo conta o autor Serhiy Stakhnyk, que tem um estúdio de fotografia perto do Mercado Municipal, onde algumas das imagens foram captadas.

O fotógrafo não conhecia ninguém. «Fiz várias publicações nas redes sociais, em ucraniano e também em português, a explicar o que queria fazer. Escrevia: fotógrafo em Portugal quer fazer um projeto sobre os nossos refugiados. Procuro quem queira participar. Houve alturas em que recebi muitas respostas, mas a maioria dos refugiados da Ucrânia vão para Lisboa e Porto», onde são acolhidas por associações de apoio.

«Para o Algarve só vem quem já cá tem família a residir. Consegui, no entanto, encontrar famílias em Lagos, Burgau, Moncarapacho e Olhão. Algumas acabaram por mudar de ideias». Na verdade, a maior dificuldade não foi geográfica mas humana.

«Nem todas as pessoas que fugiram querem dar a cara. Não querem que sintam pena deles. Mas as famílias que vieram com crianças pequenas querem mostrar e partilhar as suas emoções e sentimentos e contar o que lhes aconteceu» relata Serhiy Stakhnyk, que acabou por contar com a ajuda de voluntários em Lisboa e da Associação de Apoio à Comunidade Ucraniana em Portugal. Fez, pelo menos, duas viagens com o estúdio às costas. Por outro lado, a exposição não se esgota nas fotografias. Cada uma tem um QR Code, para ser lido com o telemóvel, que remete para uma página com a história por detrás das imagens, em três idiomas, português, inglês e ucraniano.

Olhares tristes, mas cheios de dignidade é talvez o denominador comum do conjunto. «Mas cada pessoa que veja a exposição, decidirá. Com os meus conhecimentos, quis mostrar o que está a acontecer na Ucrânia. Em Portugal temos ideias muito calmas e não nos passa pela cabeça aquela realidade. Imagine estar aqui na rua ou no centro comercial e, de repente, começarem a chover bombas por cima de si. O que pretendo mostrar é o que pode acontecer a qualquer pessoa» apanhada numa agressão militar. E mostra. Os retratados têm em mãos uma imagem da destruição das suas cidades de origem. Obtê-las foi outra dificuldade.

«Algumas zonas são hoje campos de batalha. Tentei contactar as autoridades municipais mas, por vezes, não estava lá ninguém. Contactei várias agências de notícias e fotojornalistas. Foi difícil conseguir fotografias em boa resolução. Houve alguma desconfiança, porque as imagens podem dar informações sobre a guerra e podem ser interpretadas de outra forma. Mas à exceção de duas ou três, a maioria foi-me cedida».
E como é que alguém que já viveu metade da vida em Portugal, vê a invasão russa em larga escala, de um país soberano livre e democrático?

«Para mim é inacreditável. Tenho primos na Rússia que visitava. Conheço a mentalidade deles. Agora o que sinto é ódio. Cerca de 80 por cento dos russos apoiam o que está a acontecer. O sistema consegue fazer uma lavagem cerebral de tal forma que até os jovens acreditam. Até hoje estou ainda a digerir tudo isto».

No dia 24 de fevereiro, «levantei-me às 06h00 da manhã e recebi uma mensagem da minha irmã que morava a 60 quilómetros de Kyiv. Enviou-me um vídeo, filmado com o telemóvel na sua varanda, que mostrava aos helicópteros a sobrevoar a casa e a lançar foguetes para um campo militar próximo. Disse-me: Serhiy ,estamos a ser bombardeados! Nos dois dias seguintes, não sabia o que fazer da minha vida. Depois acalmei e pensei como começar a viver com isto».

A família acabou por deixar tudo para trás e aproveitou uma oportunidade para imigrar para os Estado Unidos da América. Já tinha visitado Portugal, mas preferiu outro destino mais próspero. «Não tenho queixas. Temos aqui tudo para uma boa vida: o mar, sítios bonitos para visitar e amigos. A única coisa é que aqui é difícil sobreviver materialmente. Mas isso não é só para mim. É também para vocês todos», conclui.

Serhiy Stakhnyk nasceu a 11 de maio de 1976 na Ucrânia. É fotografo comercial freelance, com áreas direcionadas para fotografia de imóveis, arquitetura e interiores, produto e vídeos promocionais. Reside em Portugal desde 1999. Formou-se em Economia no país de origem. Veio para o Algarve há 23 anos e mais recentemente começou a interessar-se pela fotografia.

Depois de uma formação inicial na ALFA, completou o curso profissional da ETIC_Algarve. Já ganhou vários prémios em concursos de fotografia sobre renovação urbana e património cultural. A título pessoal, interessa-se por recuperar o encanto perdido e as antigas técnicas de retrato.

A exposição de rua conta com a curadoria da ALFA – Associação Livre Fotógrafos do Algarve.