Explorações sonoras na Culatra vão dar origem a disco e espetáculo

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Teatro das Figuras convidou Luís Fernandes e Pierce Warnecke a passarem uma semana criativa na Culatra. Município de Faro vai criar um estúdio permanente para estas residências artísticas acontecerem ao longo do ano.

A brisa marinha faz cantar uma chapa de metal, mesmo ao lado da escola do núcleo da Culatra, num tom sustenido e constante, um acorde da natureza que não passou despercebido aos músicos multidisciplinares Luís Fernandes e Pierce Warnecke, que o Teatro das Figuras convidou para uma residência artística na ilha.

Durante uma semana, de 9 a 15 de maio, os músicos embarcaram numa viagem exploratória de sons que vão servir de matéria-prima para a edição de um disco e para um espetáculo a apresentar em palco.

«O desafio foi desenvolver um trabalho de criação na Culatra para o qual nos propusemos a utilizar apenas sons subaquáticos captados a partir de hidrofone [microfone para escuta de sons debaixo de água] ou então ao ar livre. Conseguimos cumprir esse pressuposto. Tudo o que fizemos baseou-se numa escuta ativa. Pensámos também em registar o lado humano, as conversas de pescadores, mas acabámos por não o fazer. Claro, captámos elementos que não são naturais, como a vibração do cais ou o ruído submerso dos motores dos barcos», explicou Luís Fernandes aos jornalistas, na sexta-feira, 14 de maio.

As gravações acompanharam os ritmos da natureza, da alvorada ao crepúsculo, da preia-mar à maré vazante. Captaram as pinças dos caranguejos na areia e até os silêncios que fizeram os artistas desconfiar que o material tinha avariado.

A amostragem sonora será processada pela dupla que apesar de se conhecer há anos, nunca teve oportunidade de se juntar num projeto comum.

«O Pierce vive em França e já há muito tempo que queríamos trabalhar juntos. Pensámos em fazer um disco e também transformar isto num espetáculo ao vivo. Pensámos produzir uma espécie de partitura gráfica a partir da informação gerada pelas gravações. Vamos tentar fazer uma análise do áudio que possa ser usada para criar elementos visuais e improvisações », responde Luís Fernandes que utiliza sobretudo hardware, sintetizadores modelares que não têm um sinal pré-definido, para a construção da obra.

«É como se fizéssemos uma escultura sonora. Esculpimos os sons, tirámos as frequências que não achámos interessantes e adicionámos outras. Às vezes esticamos fragmentos de milissegundos. Fazemos ritmos a partir dos sons em bruto e criamos, sobretudo, texturas tímbricas. Isto terá um desdobramento visual, com uma dimensão de improvisação em palco, a partir da tal partitura gráfica que nos dará indicações de amplitude e dinâmica. É um processo um pouco abstrato, de intuição e gosto pessoal» mas que será indissociável da Culatra, quando estiver concluído.

Para Gil Silva, diretor-delegado do Teatro das Figuras, o objetivo destas residências no núcleo da Culatra é puxar os artistas a sul. «Sim é uma solução ideal, aqui há tempo para pensar, para criar e acabam por levar consigo este território», explicou. O critério de escolha para os convites têm sido fazer um match entre a arte que fazem e o potencial da ilha.

Culatra vai ter estúdio permanente para residências artísticas

Silvia Pérez Cruz, cantora, compositora e atriz espanhola deveria ter vindo à Culatra em 2020, mas a sua residência foi cancelada por causa da pandemia de COVID-19. Teria sido a segunda a realizar naquela ilha-barreira da Ria Formosa.

Segundo Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, este é um programa para ter continuidade. Para já, a intenção é fazer duas residências por ano, uma na primavera e outra no outono, ambas fora da época alta do verão, «até porque são períodos mais calmos e propícios à introspeção e à criação. E é também quando os artistas podem encontrar a genuinidade da comunidade piscatória que aqui vive todo o ano».

No presente, «conseguimos, em parceria com Associação de Moradores da Ilha da Culatra, (alugar uma casa, mas a ideia é que no futuro, a autarquia de Faro possa ter aqui uma estrutura de criação, não só para a área da música, mas também vocacionada para a dança e para o teatro, para podermos trazer aqui projetos de criação durante todo o ano», revelou Paulo Santos.

«Vamos ter uma estrutura permanente com todas as condições em termos de preparação de trabalhos a apresentar. E como é óbvio, já que os culatrenses têm um contacto com os artistas que vem à ilha inspirar- se durante uma semana, possam depois perceber qual foi o resultado dessa inspiração».

Segundo o barlavento apurou, a autarquia está em vias de ficar com um imóvel da Marinha que está atualmente sem uso no núcleo da Culatra e também com outras instalações