BoCA, a Bienal de Artes Contemporâneas começa hoje em Faro

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A BoCA – Biennal of Contemporary Arts escolheu pela primeira vez uma cidade algarvia para colocar as artes visuais, as artes cénicas, a performance e a música em diálogo.

As estreias nacionais e até mundiais são mais que muitas nesta terceira edição da Bienal de Artes Contemporâneas, que une três cidades portuguesas, Almada, Faro e Lisboa, a diversos formatos artísticos, entre hoje, sexta-feira, dia 3 de setembro e 17 de outubro.

No total, são mais de 40 artistas nacionais e internacionais, que durante 45 dias se vão dedicar às linguagens artísticas transdisciplinares em Faro.

O mote para este ano é o «Prove You Are Human» (prova que és humano), uma referência direta ao mundo do digital que pretende que se expanda para outros territórios, não só artísticos, e que ganhe uma amplitude maior.

«Por um lado, a necessidade de uma reescrita da História tal como a conhecemos, em que não é uma coisa fixa, mas que está sempre em permanente construção. Em que o presente pode sempre reescrever essa História com novos pontos de vista. É esse exercício por um lado, e por outro é um gesto de provar a humanidade, a discussão entre pessoas, o reconhecimento e a aceitação da diversidade como algo fundamental do novo mundo contemporâneo em crise. Depois é levarmos as práticas artísticas para esse cuidar diariamente, esse afeto que é preciso manter. Isso é algo inovador no âmbito artístico», começa por revelar John Romão, o diretor executivo e artístico do evento, ao barlavento.

Mas e qual é a génese da BoCA? É o também encenador que responde: «são vários focos e formatos diferentes. Ou seja, uma confluência de territórios artísticos, espetáculos mais transdisciplinares, instalações artísticas e concertos. São cruzamentos artísticos entre espaços culturais, cidades e entre públicos».

Em todas as edições a organização convida duas cidades para integrarem a programação, além de Lisboa, que é comum a todas. Este ano, a escolha recaiu, pela primeira vez, num município algarvio.

«Escolhemos Faro porque queríamos trabalhar mais a sul por diversos motivos. O primeiro foi o facto de a maior parte da oferta cultural incidir muito em Lisboa e da capital para norte. Há sempre qualquer coisa que retrai a cultura de Lisboa para baixo. Apesar de no Algarve existirem vários municípios com programação cultural forte, não há tanta relação com Lisboa. O que nos interessa é tecer relações entre cidades que, à partida, nada têm a ver umas com as outras. É sempre um exercício testarmos novas relações entre cidades e projetos ou diálogos, que circulam entre elas», explica Romão.

Em Faro, o programa está a ser planeado desde 2019 entre a BoCA, o produtor local, José Jesus, e a Câmara Municipal e vai passar por diversos espaços: Museu Municipal; Teatro Municipal; Teatro Lethes; Fábrica da Cerveja; Parque Ribeirinho, Ilha Deserta; Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) e alguns locais públicos.

Gus Van Sant. Foto: Bruno Simão,

O primeiro destaque desta edição da Bienal, em Faro, nas palavras do diretor executivo, começa logo pela relação criada com a água e, neste caso, com a Ria Formosa.

O projeto «Musa Paradisíaca – Monumento para Amadores – Solar Boat» (19 de setembro) é um desses exemplos.

Trata-se de um percurso de barco até à Ilha Deserta, onde serão reveladas, ao longo de todo os dia, várias intervenções artísticas no espaço natural.

A artista e escultora Dayana Lucas, no terraço da Fábrica da Cerveja (10 de outubro) no projeto «Cair para o Alto» propõe-se a fazer uma performance em que a própria pensa a escultura, mas feita com água.

E como a representatividade cultural e de género está tão patente também na BoCA, Romão menciona a criação de António Poppe, um poeta performer, que após encomenda da própria direção, se junta ao grupo musical La Família Gitana (dia 1 de outubro), na Fábrica da Cerveja, intitulado «Música Cigana Camões Yanomami / A Soma dos Seus», para responder à questão: como é que a música cigana dialoga com Camões e com a poesia dos índios Yananomi?

Ainda na música e dentro da diversidade, os Papillons d’Éternité, composto pela coreógrafa Tânica Carvalho e o saxofonista francês Matthier Ehrlacher, criaram um concerto com o Grupo Folclórico de Faro, a ser apresentado no Teatro Lethes (7 de outubro).

Tânia Carvalho e Matthieu Ehracher.

Destaque também para as sessões de cinema, no auditório do IPDJ, com dois filmes muito experimentais. O «Movidas Raras» (15 de outubro), por exemplo, do encenador argentino Rodrigo García, trata-se de uma longa-metragem desenvolvida pelo próprio durante a pandemia, em que os atores nunca se encontraram fisicamente.

As propostas do encenador eram enviadas e os atores gravavam-se a si próprios. O material foi, mais tarde, todo editado e montado em casa do argentino.

E talvez um dos pontos altos do programa seja a estreia mundial da peça de teatro «Andy», do realizador de cinema norte-americano Gus Van Sant, que a pedido da direção, pela primeira vez, escreveu uma dramaturgia, com a direção musical de Paulo Furtado (The Legendary Tigerman).

O espetáculo irá encerrar toda a programação, no Teatro das Figuras (16 de outubro), e de acordo com Romão «é, sem dúvida, um dos nossos maiores projetos de sempre pelos parceiros nacionais e internacionais desenvolvidos».

Uma novidade na história da BoCA está relacionada com o projeto «A Defesa da Natureza», que nasce de uma celebração do 100º aniversário do artista Joseph Beuys, que em 1982 plantou 7 mil carvalhos, seguindo o mote: «todos podemos ser artistas».

Nesse sentido, a Bienal traz também a plantação de sete mil árvores autóctones diferentes aos três municípios.

Em Faro, serão plantadas 2333 espécies, em diversos locais públicos, pelos artistas e por qualquer cidadão que se queira inscrever, com um propósito bem definido.

«O que propomos é olhar para o gesto de plantar, de dar vida a algo natural, como um gesto artístico. Cada pessoa terá de atribuir um título à sua plantação, como uma obra de arte. Essas plantações são um projeto pensado a 10 anos e a ideia é que sejam criados espaços que possam, no futuro, albergar ou acolher atividades artísticas, à medida que as árvores forem crescendo», explicita o diretor artístico.

A todas estas atividades juntam-se mais concertos, como o de Capicua (9 de outubro), no anfiteatro do Parque Ribeirinho, diálogos com os artistas, performances, instalações, projetos para jovens entre os 16 e os 21 anos, workshops e festas.

Para amanhã, sábado, dia 4 de setembro, as inaugurações que decorrem às 17 horas, na Fábrica da Cerveja, para descobrir UNE VAGUE JOYEUSE/UMA ONDA FELIZ de Luís Lázaro Matos e WHEN ALL THIS IS OVER, LET’S MEET UP! + AGENTS de Anastasia Sosunova.

O momento conta com a presença de John Romão, diretor artístico da bienal, e do artista Luís Lázaro Matos.

O bar está garantido pela Sociedade Recreativa Artistas de Faro e o DJ set fica a cargo de Pedro Mesquita.

Todo o programa pode ser consultado na aqui.