Bióloga artista fabrica as cores do Algarve natural em aguarela

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Sarita Camacho cria tintas de aguarela com sedimentos rochosos e conchas marinhas recolhidas do Algarve. Praia da Luz é o principal fornecedor de matéria-prima. Cores do Algarve natural são perfeitas para comunicar ciência.

Unir a ciência com a arte pareceu ser a escolha certa para Sarita Camacho, de 46 anos, portuguesa, natural de Angola. Ao terminar o ensino secundário, apesar de ter escolhido o curso de Biologia Marinha, na Universidade do Algarve (UAlg), as suas aptidões artísticas, que começaram a destacar-se desde cedo, eram aprimoradas quando tinha que organizar os seres que estudava ao microscópio , criando catálogos ou ilustrando-os.

Mais tarde, após o doutoramento, em 2013, «quando ainda estávamos a sofrer os efeitos da crise, onde não existiam bolsas nem projetos, tive de pensar numa alternativa à Biologia. Tinha se ser algo que eu também gostasse, que achasse interessante e que, sobretudo, fosse necessário. Sempre tive gosto e apetência natural para o desenho e o design de comunicação é onde o posso aplicar.

Foi assim que escolhi tirar uma nova licenciatura, terminada no ano passado», conta ao barlavento. Com o conhecimento adquirido em duas áreas, começou a ser procurada para comunicar ciência através de ilustrações, brochuras e até personagens infantis.

«Os meus clientes são sobretudo universidades, que querem trabalhos de divulgação científica. Têm insistido muito em narrativas, estórias contadas através de personagens, nas quais utilizo muito as aguarelas para fazer as ilustrações» que, muitas vezes, são digitalizadas para pós-produção no computador.

«Faço montagens, edito as pinturas e faço animações com os meus desenhos de aguarelas. Atualmente todos os projetos de vanguarda tentam incluir animações na divulgação de ciência e esta é a minha ligação entre os dois mundos», explica.

Mas foi em plena pandemia, que surgiu o mais recente projeto de Sarita: a criação artesanal das suas próprias aguarelas, através de sedimentos de rochas e até de conchas recolhidas nas praias.

Segundo conta, «sem querer, ao explorar a área da caligrafia comecei a tomar conhecimento e a interessar-me pela manufatura de pigmentos e tintas. Estudei essa arte e aproveitei o confinamento, durante o qual passei algum tempo em casa, e fiz as minhas experiências. Recolhi rochas e sedimentos e fui adquirindo material. Penso que este tipo de atividade que não é muito comum em Portugal».

Autodidata, Sarita diz que não foi difícil criar as primeiras cores. «Já sabia onde encontrar as fontes e quais o pigmentos certos».

Por coincidência, quando se dedicava à biologia, «processava sedimentos para chegar aos microrganismos. Tinha que conhecer os fatores físico-químicos e tinha de analisá-los de uma forma bastante exaustiva. Muitas vezes, por exemplo, se quisesse organizar a matéria orgânica tinha que a reduzir a amostra a um pó muito fino e tinha acesso, no laboratório, a todos os instrumentos necessários. Esse background de como processar as amostras, já tinha adquirido ao longo dos anos», conta.

Portanto, só precisou de «estudar bastante os outros ingredientes» a acrescentar para materializar as tintas. As matérias-primas não podiam ser mais algarvias.

«As rochas sedimentares [cuja origem são outras rochas que se fragmentam e com o tempo vão-se acumulando, consolidando e formam outras rochas] são as ideais para fazer aguarelas porque são muito mais fáceis de fragmentar. Como se formam em condições ambientais diferentes, muitas vezes têm estratos de cores diversas. E cada cor corresponde a um período histórico diferente.

No Algarve temos algumas arribas onde conseguimos ver a olho nu essas diferentes camadas», explica.

A Praia da Luz, em Lagos, por exemplo, é «um sítio excecional. Tem arribas lindíssimas de estratos desde o violeta, a passar para o amarelo mostarda, verde, bege, rosas, vermelhos, que são os chamados ocres da terra. Como a arriba sofre os efeitos erosivos do ambiente, está a desfazer-se e há calhaus e partes de rocha em que as amostras são de fácil acesso. Não é preciso escavacar para conseguir uma quantidade suficiente de amostra, nem é isso que se pretende», detalha.

O xisto, por exemplo, «também é uma rocha interessante. No Algarve temos uma variedade mais acinzentada e outra mais rosada. Ou seja, tudo o que tenha uma cor com algum potencial, podemos sempre tentar e fazer a experiência».

Sarita Camacho também usa conchas da praia para criar cores, neste caso, a espécie Anomia ephippium, muito comum no Algarve. «Existem dois tons, amarelo e rosa. Apanhei de ambos e tentei purificar a cor ao máximo porque não são muito pigmentadas. Consegui fazer um tom amarelo e outro rosa. O resultado é uma cor muito ténue perlescente. Se movimentarmos o papel em direção à luz vemos o brilho nacarado típico dessas conchas», revela.

Além de oito qualidades de aguarelas, bem algarvias, Sarita criou ainda uma paleta de oito cores fluorescentes, através de pigmentos que comprou. E como a arte está enraizada na família, juntou os trabalhos de costura da mãe e os projetos digitais da filha às suas aguarelas e pinturas e criou uma marca, a Tpot Design, que já está disponível nas redes sociais e na loja online Etsy.

Apesar de só ter colocado as suas aguarelas à venda há no final de agosto, a verdade é que as tonalidades criadas por Sarita já viajam por todo o mundo.

«Começámos a marca sem as aguarelas. Tínhamos visualizações, mas nada de vendas. A partir do momento em que pusemos as aguarelas à venda, começaram a chover encomendas do mundo inteiro. Já vendemos para vários países europeus, Austrália, algumas cidades dos Estados Unidos da América. Nem conseguia acreditar no que me estava a acontecer. A paleta das oito cores fluorescentes foi o best seller, mas as aguarelas da terra também têm muitos favoritos. Aqui na comunidade próxima, por exemplo, tenho vendido muito a paleta da Praia da Luz», tanto a artistas locais, como a pessoas que querem oferecer.

Os preços de cada godé com dois mililitros variam entre os 4,5 e os sete euros, mas para Sarita, poder pintar, por exemplo, uma praia ou uma paisagem e poder usar as tonalidades do próprio ambiente é algo que «não tem preço». Para o futuro, a próxima coleção já está a ser preparada.

«Comprei pigmentos naturais inorgânicos portugueses a pensar numa paleta de cores que será temática, os tons do Egito. Vou reproduzir as cores que os antigos egípcios usavam para representar as suas passagens do quotidiano e para fazer a sua escrita dos hieróglifos. De resto, a minha ideia é continuar a explorar, criar o máximo de pigmentos possíveis, uns mais para a pintura e ilustração e outros mais a pensar na caligrafia, que são muito diferentes», conclui.

Ilustração científica ruma a Timor

Sarita Camacho começou este ano a fabricar as suas próprias aguarelas. Agora utiliza-as sempre que precisa de representar ambientes de natureza em brochuras científicas, ilustrações e livros infantis. Um dos trabalhos mais recente é uma brochura sobre o património cultural e os recursos faunísticos da Ria de Aveiro.

«A paleta da Praia da Luz ajudou-me a caracterizar ambientes de lodo, praia e linhas de areia», conta ao barlavento. O projeto que agora tem em mãos vai cruzar fronteiras. Como a maior parte dos seus clientes são universidades, surgiu por parte da Universidade de Camberra, na Austrália, um trabalho que muito está a enriquecer a designer, bióloga, docente e artista.

«É sobre Timor e sobre a ciência que por lá está a ser feita nos sedimentos lacustres. A equipa da universidade está a trabalhar com timorenses para fazer um livro dedicado à população de Timor, a explicar todo o processo que os investigadores estão a fazer nos lagos. Será tudo através de desenhos, feitos por mim e o texto será em português, inglês e tétum [língua oficial de Timor]», explica. Nos desenhos do livro estão assim a ser utilizadas as aguarelas criadas com sedimentos das praias algarvias, criadas à mão por Sarita. «Estão a percorrer o mundo!», exclama.

Como se fazem aguarelas a partir de rochas ou conchas?

Este ano letivo, Sarita Camacho foi convidada para dar aulas na licenciatura em Design de Comunicação da Universidade do Algarve (UAlg), uma oportunidade, quem sabe, para ensinar como se fazem tintas de aguarela com sedimentos e conchas marinhas.

«Primeiro recolhemos a quantidade de amostra que precisamos e identificamos a rocha, se possível. Em casa, no estúdio ou no laboratório reduzimos a pedra. Se for sedimentar já vem limpa de impurezas. Se não for, temos de, primeiro, processá-la para retirar toda a matéria orgânica que não interessa. O processo é esse: trazer a amostra, fragmentar com um almofariz e quando já se tem uma quantidade suficiente, moer até ao grão mais fino possível. Se quisermos uniformizar, porque o almofariz não nos garante que a amostra esteja toda uniforme, usamos um peneiro de abertura conhecida para homogenizar a amostra. Pesamos essa quantidade de sedimento que vamos utilizar porque a quantidade dos outros ingredientes depende do peso do pigmento. No final é juntar tudo».

Todas as tintas têm um meio aglutinante. No caso da aguarela, a preferida da bióloga artista, é a goma arábica, uma resina que existe numa árvore, a Acácia. Quando a goma é vendida em bruto, apresenta-se em pedras de resina, que podem depois também ser reduzidas a pó.

Na preparação da goma, junta-se água destilada, glicerina líquida e óleo de cravo como fungicida.

De acordo com a bióloga artista, «é a mistura desses quatro ingredientes que faz o aglutinante. Quando trabalhamos com pigmentos da terra, que são muito diferentes uns dos outros e não há uma fórmula química exata, o que se faz normalmente é começar por 50 por cento de pigmento e 50 por cento de aglutinante. Por fim acrescenta-se o ingrediente secreto, o mel algarvio».

«Vamos testando e vendo como o pigmento reage. Primeiro fazemos a mistura com uma espátula e depois usamos um pilão de vidro para trabalhar o pigmento contra outra base plana. Essa fricção contínua faz com que os grãos consigam desagregar-se ainda mais. Aí vamos testando a textura no papel para ver como está a proporção de aglutinante versus pigmento. Depois é encher os godés. Esperar uma ou duas semanas e voltar a encher. Às vezes temos de repetir esse processo três vezes», até o godé poder ser utilizado.