Carob World mostra como criar valor a um recurso endógeno

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Carob World é uma marca alimentar algarvia que aposta na alfarroba para conquistar os mais exigentes mercados internacionais.

Em entrevista, João Currito, fundador da Carob World, diz que os fundos europeus do CRESC Algarve 2020 foram «absolutamente decisivos». Dá ainda uma perspectiva pragmática sobre o futuro desta fileira.

barlavento: Já passaram quase seis meses desde a inauguração da vossa unidade industrial. Como tem evoluído o negócio?
João Currito: Uma empresa como a nossa precisa de mercados predispostos e com capacidade de olhar para coisas novas. Estamos a apresentar um produto inovador e os nossos parceiros ou potenciais parceiros têm de estar em condições de trabalhar esse produto e essa ideia. O mercado, estando fechado, trabalha com o portfólio que existe dentro de portas. Essa foi a nossa realidade no início do ano. A partir de julho, contudo, sentimos que começou a haver alguma abertura com o abrandar do cenário pandémico. Para se ter uma ideia, no segundo semestre de 2021, vamos mais do que triplicar o total de vendas de 2020.

Está a falar do mercado interno ou do internacional?
Ambos. Em termos de mercado internacional, estamos a focar-nos nos Estados Unidos da América (EUA), que tem estado muito fechado, e no Japão, para onde já fizemos alguns negócios. A Europa ainda está muito fechada, um pouco à semelhança da realidade portuguesa. Nos últimos meses, conseguimos também concretizar vendas para a Coreia do Sul. No segundo semestre deste ano, temos notado o Médio Oriente e a Ásia mais receptivos. Mas temos visto o mercado nacional a abrir um pouco, contamos agora com mais pontos de venda, arranjámos novas parcerias e conseguimos efetivar alguns contactos europeus.

Isso é uma boa estimativa para o futuro, certo?
Exato. A diferença é que o ponto de partida foi muito pequeno. Não podemos esquecer que a Carob World começou a comercializar online em abril de 2019. E depois parámos por causa da pandemia. Agora estamos de novo a descolar para novos horizontes.

O vosso projeto, no entanto, remonta a 2014…
Exatamente. A empresa esteve cinco anos a trabalhar só para poder abrir portas. Houve todo um processo de desenvolvimento das receitas, de branding e de pré-industrialização dos nossos produtos.

Durante esse período, como é que se consegue financiar todo esse processo?
A Carob World é uma empresa portuguesa, com capitais 100 por cento nacionais, e com sede no Algarve. Quem anda nestas iniciativas empresariais sabe que o capital de risco para start-ups em Portugal não existe, sobretudo no ramo alimentar. É uma triste realidade. Tivemos uma ajuda que foi absolutamente decisiva, depois de ultrapassada a primeira fase, através do CRESC Algarve 2020. O restante financiamento foi com recursos a capitais próprios do acionista. Tentámos, ainda antes de lançarmos a empresa, envolver parceiros. Mas, como dizem os especialistas, era demasiado novo e demasiado cedo para algum investidor entrar com capital. Estamos a falar de um investimento industrial pesado, na ordem de 1,5 milhões de euros. O Programa Operacional (PO) do Algarve apoiou-nos em meio milhão entre fundo perdido e reembolsável e isso foi fundamental.

Apesar da ligação milenar do Algarve com a alfarroba, esta era uma empresa e um produto que fazia falta, pelo menos nesta escala de produção…
Sim, concordo a 100 por cento com essa afirmação. Enquanto fundador, promotor e empreendedor, houve dois ou três fatores que fizeram com que valesse a pena investir. Primeiro, a proximidade à matéria-prima. A esmagadora maioria da produção nacional está no Algarve, somos um dos maiores produtores mundiais de alfarroba. Segundo, é um produto altamente versátil em termos das utilizações que se lhe pode dar, através de diferentes processos e diferentes aplicações e transformações industriais. Outro componente que fez com que merecesse a pena e acreditássemos em termos de inovação é o potencial de escalabilidade. Veja-se os cremes de barrar, as tabletes de chocolate, as farinhas. Quase todo o planeta consome produtos equivalentes. Ou seja, uma vez ultrapassada a primeira barreira do desconhecimento, os nossos produtos são passíveis de ser vendidos em qualquer mercado do mundo. Neste momento temos quatro gamas de produtos e outras em calha para fazer.

Há cerca de dois meses lançaram um xarope de alfarroba. Como é que o mercado está a reagir à novidade?
Curiosamente, está a surpreender pela positiva e a razão é muito simples. Lançámos o xarope para o mercado global. Hoje em dia é consumido principalmente no Médio Oriente. Em Portugal e em Espanha não temos muita tradição, digamos, de consumir xaropes. Quem os consome mais são os americanos e os árabes, sobretudo com a alfarroba. Isto é um pouco à experiência, uma vez que é algo novo, e nunca temos a certeza absoluta de como será aceite. Mas essa é também um pouco a lógica do portfólio de produto alargado da Carob World. Ou seja, a partir do momento em que conseguimos um parceiro, em qualquer mercado, seja no nacional ou fora, se a aceitação correr bem e se acreditarem na nossa capacidade de fazer bons produtos, continuarão a consumir e esse portfólio vai acabar por se expandir.

Há novidades para 2022?
Sim. Não gostaria de revelar muito, porque na indústria alimentar, qualquer coisa que vamos fazer ou lançar, tem sempre todo um processo de desenvolvimento inerente que pode ser longo. Ser longo é também resultante de correr bem ou correr mal. Temos alguns objetivos para o próximo ano. Um deles é a alternativa à gordura de palma, que é um projeto no qual estamos a trabalhar há ano e meio. Apesar de o óleo de palma com que trabalhamos ser certificado e sustentável, o mercado europeu tem uma percepção negativa por questões ambientais, porque em alguns países asiáticos a floresta tropical está a ser substituída para essa produção. Por outro lado, queremos alargar a gama de formatos para, eventualmente, entrarmos em mais uma categoria de produtos. O nosso objetivo imediato e mais primordial é levar o que já temos e afirmar a Carob World em mais mercados e de forma mais consistente.

Este ano o preço da alfarroba atingiu novos máximos. Isso teve impacto nos vossos custos de produção?
Somos apenas um player e estamos no final da cadeia. Que bom para o Algarve e para a produção de alfarroba que o preço tenha aumentado! O que mais gostaríamos era de contribuir para a sustentabilidade desse valor. Quanto mais a Carob World vender, mais alfarroba vai consumir e mais vai poder sustentar o preço, através da produção de produtos de valor acrescentado. Acredito que, neste momento, esse aumento de valor ao produtor tem acontecido muito pela cadeia de valor da semente. Portanto, a goma de alfarroba e a semente nos mercados internacionais têm sofrido uma valorização muito grande. Gostaria muito que isso se tornasse sustentável porque fará aumentar o investimento em pomares de alfarroba. Fará com que as pessoas acreditem mais nesta cultura, até porque precisamos muito de matéria-prima. Este projeto baseia-se na alfarroba, mas também gostaria que outros empresários olhassem para produtos semelhantes. Em Portugal e no Algarve temos inúmeros produtos negligenciados que podem ser aplicados e desenvolvidos, e que podem vir a deixar o seu valor acrescentado no nosso país.

A marca Portugal ou Algarve ajudam, de alguma forma, a alavancar os vossos produtos ou o que conta é apenas o ingrediente alfarroba?
É uma boa pergunta. Quase toda a minha carreira tem sido internacional. Noto que hoje existe uma muito maior perceção da marca Portugal. Isso é inegável. Mas acho que é possível fazer muito mais. Quando vamos a uma feira internacional, e comparamos o pavilhão português com outros pavilhões europeus, por exemplo, dos nossos vizinhos espanhóis ou italianos, sobretudo na área alimentar, vemos que ainda há muito por fazer. Somos bons no que produzimos. Sabemos fazer e fazemos bem. Tenho clientes que dizem que a alfarroba portuguesa é a melhor do mundo. Aliás, isso é um desafio que temos internamente: tentar descobrir porquê e alavancar essa percepção em valor. Mas no que toca a criar valor, criar marca e inovar para fora, temos tudo por fazer. E não estou a falar da Carob World nem do Algarve. Estou a falar de Portugal. Basta olhar no sector alimentar, quantas marcas temos? Vinho do Porto e pouco mais. Acho que há um longo caminho de valorização que tem de ser feito, quer na alfarroba ou em muitos outros produtos portugueses. Em vez de vendermos laranja, temos de passar a vender sumo de laranja, ou transformados de laranja, que têm um valor acrescentado em cima daquilo que já existe. Acho que esse deveria ser o nosso caminho.

Porque acha que ainda não demos esse passo?
Acho que já demos vários passos. Mas temos de ter essa visão, a capacidade de o fazer e a vontade de ir para o mundo. Ou seja, aquilo que falei há pouco, para conseguirmos levar as nossas marcas lá para fora temos de ter produtos de qualidade e escaláveis. Temos de ter capacidade de produzir em quantidade para fornecer os mercados. Existe potencial no país. Hoje há a percepção que a qualidade dos produtos portugueses é muito boa e por isso, temos de posicionar o nosso sector alimentar mais para a exportação.

Estamos agora num período de transição. O próximo quadro de fundos europeus estará mais alinhado com a descarbonização e a digitalização. Planeia elaborar novas candidaturas no futuro próximo?
A resposta é sim. Na fileira do agroalimentar, a descarbonizarão é um facto e não há dúvida de que estamos a trabalhar nessa parte. Costumo dizer que a nossa fábrica quase não gasta água, trabalhamos e processamos um produto endógeno e a única coisa que consumimos é eletricidade. Estamos a contribuir para a reduzir pegada ambiental também em todas as nossas matérias subsidiárias, como por exemplo as embalagens. Também temos em atenção a economia circular. Enquanto start-up, todas essas preocupações estão no nosso cerne. Seremos, por isso, candidatos naturais a novos financiamentos para continuar a fazer crescer esta ideia, este conceito e esta empresa. Só espero que os imponderáveis e aquilo que não controlamos não aconteçam, que os mercados não voltem a fechar-se, e que possamos continuar a fazer um percurso natural.

Carob World nasceu em Faro para inovar com a alfarroba

A Carob World nasceu para desenvolver, produzir e comercializar produtos gourmet à base de alfarroba, como farinha, tabletes e cremes para barrar, com o objetivo de os exportar para mercados de alta qualidade interessados na alimentação mediterrânica. Os primeiros passos começaram a ser dados em 2015 através de um protocolo com a Universidade do Algarve (UAlg) e o curso de Engenharia Alimentar para o desenvolvimento das receitas.

De acordo com o CEO João Currito, «falámos com o Centro Regional para a Inovação do Algarve (CRIA) em 2017, e candidatámo-nos aos fundos europeus do Portugal 2020. Mais tarde, encontrámos instalações industriais devolutas no Rio Seco, em Faro, para implementar a unidade industrial. A candidatura foi aprovada e fizemos todo o processo».

«O conceito é pegar em algo que é tradicional e endógeno, e criar-lhe valor através de novas aplicações. É um projeto inovador, que pega num fruto que tem sido historicamente negligenciado, e que tem como compromisso transformá-lo e e comercializá-lo. Isso é a Carob World», descreve.

Os produtos da marca algarvia «não contêm glúten, nem estimulantes, são uma boa fonte de minerais, ricos em fibras e antioxidantes». Para já, a fábrica tem a capacidade de fazer três toneladas de produtos por dia.

Publireportagem | Programa Operacional CRESC Algarve 2020