Paulo Penisga – Barlavento https://barlavento.sapo.pt Notícias do Algarve Thu, 29 Oct 2020 17:28:43 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=5.4.2 Faro 2027: Horizonte ou miragem? https://barlavento.sapo.pt/opiniao/faro-2027-horizonte-ou-miragem Thu, 29 Oct 2020 17:28:43 +0000 https://www.barlavento.pt/?p=202802 Faro, 16h05, tarde solar de outubro. Sentado numa esplanada de café na Rua de Santo António, observo o muito pouco movimento. Os empregados dessa instituição de luxo, que são as lojas António Manuel, vestidos de preto, vão e vêm num vaivém entre lojas. Alguns turistas e um grupo de jovens asiáticos, dois deles de turbante, […]

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Faro, 16h05, tarde solar de outubro. Sentado numa esplanada de café na Rua de Santo António, observo o muito pouco movimento. Os empregados dessa instituição de luxo, que são as lojas António Manuel, vestidos de preto, vão e vêm num vaivém entre lojas.

Alguns turistas e um grupo de jovens asiáticos, dois deles de turbante, dão um toque de cosmopolitismo ao cenário. Um ou outro transeunte de passagem, alguns clientes à porta da farmácia.

A tarde está amena, estou na artéria mais comercial da cidade que é capital da região mais turística do país. Imagino-me um viajante que aqui chega, tento colher impressões, apreciar o lugar. Ao sol, desfruto do gostoso calor desta agradável tarde de outono.

Ao lado, vejo anunciado um recital de piano no clube Farense, à noite. Aqui está a possibilidade de um momento bem passado. E o vetusto Lethes, um pouco acima, do qual tenho o programa, tem uma programação regular de teatro e música. Imagino-me aqui, depois de ter estado noutras cidades, as duas últimas Cádiz e Sevilha, na vizinha Andaluzia, e pergunto-me onde estão as pessoas.

Assisti, via Facebook, à apresentação do Plano Estratégico para a Cultura do município, bem elaborado, bom design, ambicioso, sabendo envolver, como é uso atual, as questões do território, da inclusão, das comunidades.

Acredito que os responsáveis políticos estão sinceramente empenhados em criar novas dinâmicas culturais na cidade, tendo em vista a candidatura Faro, capital europeia da cultura.

Mas será possível insuflar vontades de modo institucional, de cima para baixo?…

Em vez das muitas setas e esquemas do Plano, do bonitinho que o documento é, mais valia sair para a rua, passear a pé por ruas e pracetas, interpretar e interpelar a cidade fora dos gabinetes.

Lembro-me de quando estive ligado à direção dos Artistas, andar pela Baixa, onde por vezes jantava, fazendo tempo para a reunião, por volta das 10 horas da noite; era triste a desolação humana, a vida tão recolhida.

No café Aliança, de então, na pequena sala lateral, alguns velhotes adormeciam a solidão frente à televisão. O Aliança é uma triste metáfora da Baixa. Fechou, abriu, fechou, abriu e voltou a fechar.

Aliás, a cidade cometeu o erro fatal de deixar morrer o St. António, renovado teria sido uma excelente sala de espetáculos no coração da cidade.

Batalha perdida do Cineclube de Faro, que tanto se bateu pela sua conservação, face ao poder da especulação imobiliária e à inércia da gestão autárquica.

Mas Faro é burguesa e vive bem acomodada em casa. Encontro uma amiga. Irrequieta, mãe mas não totalmente domesticada, fala-me de algumas coisas que vão acontecendo na cidade. Gosta de sair, dos concertos na Associação de Músicos e está inscrita num curso de formação de atores no JAT: Janela Aberta Teatro. (O que me faz pensar em desistir deste artigo).

Mas Faro culturalmente sempre teve o que as associações generosamente tornaram possível. Pequenos oásis no deserto urbano. Ativistas das artes e da vida cívica no meio do imobilismo político gestor.

Observo agora o gerente da Palloram, ora assumando à porta ora recolhendo, com o seu casaco azul claro, lencinho no bolso. Recordo-o de miúdo, quando até do Barlavento algarvio se vinha às compras à Rua de St. António.

Impecavelmente vestido, agora de máscara, mãos cruzadas atrás das costas. A mesma postura enfática, perscrutando eventuais clientes.

Mas a rua permanece pouco movimentada, monótona, e apenas a alegria de alguns jovens estudantes em trânsito a anima. Qual a relação entre estas impressões e a política cultural? Muitas.

A área de expansão urbana alarga-se, novos prédios preenchem antigos arrabaldes, há mais trânsito. A cidade por vezes é tão mais cidade naquilo que menos interessa: ruído, carros a mais, prédios de volumetria e escala desadequada, alteração de enquadramentos e perspetivas urbanas antes harmoniosas, árvores a menos.

Aliás, a palavra cultura, só por si, soa para a grande maioria das pessoas como mundo à parte e privilégio de uns poucos. Quase não a devíamos pronunciar se queremos fazer passar a mensagem a muitos mais.

Fundamental é ter uma visão estratégica que tenha em conta uma rigorosa noção de planeamento ao serviço dos cidadãos e contra os interesses de grupo. Não fazer para turista ver, pois ao desenvolver para quem cá está proporcionamos também o melhor a quem nos visita.

Importa requalificar ruas e praças, reabilitar e renovar casas, plantar árvores nas ruas e cuidar de quem habita. E o município de Faro tem reabilitado, há novos projetos: tais como o Quilómetro Cultural, que visa a requalificação da zona ribeirinha frente ao tecido urbano mais antigo e histórico; avança a ciclovia na avenida Calouste Gulbenkian; o Largo do Pé da Cruz também será requalificado; foi comprado e será recuperado o Celeiro de S. Francisco, etc. A cidade evoluiu.

O investimento privado tem ajudado a recuperar e criar novos negócios. E tudo alicerça o futuro. Mas ainda é pouco, e talvez tarde de mais, para uma cidade que ambiciona ser Capital da Cultura. Há mais oferta cultural, sem dúvida, o Teatro das Figuras está ao nível dos bons exemplos de outras capitais de distrito.

Mas o que é isso sem uma vida sustentada na rua, prolongando as emoções das artes de palco numa vida quotidiana de cafés, praças e jardins, numa Baixa palpitante de vida…

Faltam espaços verdes na cidade e os mesmos devem ser definidos em função das necessidades dos cidadãos e não a reboque dos interesses da especulação imobiliária, como parece ser o caso do Parque das Amoreiras, na entrada norte da cidade.

Falta, sobretudo, o gesto largo e ousado de quem define novos horizontes.

Bilbau, cidade industrial, durante décadas marcada pela decadência e revolta, soube renovar-se de modo harmonioso como um todo, ruas, edifícios, praças, (conseguindo até acalmar a conflitualidade social e política aí existente), guiada por esse farol de modernidade e cintilante arquitetura que foi o museu Guggenheim, sabendo afirmar-se como cidade icónica nas rotas culturais da península.

A nossa Viana do Castelo, com o seu magnífico centro histórico, muito bem preservado, soube também convidar arquitetos portugueses para projetar a contemporaneidade nalguns equipamentos públicos.

Siza Vieira desenhou a biblioteca municipal e Eduardo Souto Moura o Centro Cultural. Ambos os edifícios integrados no plano da marginal de Viana, da autoria de Fernando Távora. Há mais edifícios dignos de atenção e o município resolveu criar a rota da arquitetura contemporânea na cidade.

Kassel, na Alemanha, cidade dos encontros de arte Documenta, viu serem plantados 7000 carvalhos, numa intervenção de Josef Beuys, artista com preocupações ambientais.

De novo, o viajante. Faro com a Formosa Ria aos seus pés é muito bela vista de cima.

Mas a expetativa, ao aterrar, vai-se esvaindo ao percorrer ruas e avenidas, ao sabor do acaso.

Pergunto-me que cidade é esta?… Pergunto: Uma cidade que se ambiciona mais cidade, que se quer uma smartcity, é compatível com um comboiozinho turístico a circular pelas suas artérias principais, como se Faro fosse a Praia de Carvoeiro…

Levanto-me, desço a rua, a outrora entrada do cinema/ centro comercial é agora um luxuoso restaurante italiano, mais abaixo corto numa transversal, passo frente à desaparecida livraria Europa-América, agora uma imobiliária.

Cansa-me este Algarve povoado de imobiliárias, ocupando os centros de vilas e cidades. Avisto um bistrot, nome muito em voga para agradar à nova invasão francesa. Maldita subserviência turística.

As cidades podem ser mais ou menos estimulantes, provocam-nos estímulos diferentes conforme os movimentos das pessoas nos espaços públicos, as montras das lojas e a moda, os seus jardins e parques, restaurantes e livrarias, os transportes públicos, o património e os museus, etc.

Estímulos de ordem afetiva e intelectual. De simpatia e repulsa. Estão na corrida à organização da Capital Europeia da Cultura 2027, juntamente com Faro, Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Guarda, Leiria, Oeiras, Viana do Castelo e o Funchal também já manifestou a intenção de se candidatar.

Esta última apresenta como argumento ter sido a primeira cidade construída por europeus fora do continente, o comissário é o artista plástico Rigo e tem como lema «Ir mais além» procurando capitalizar caraterísticas diferenciadoras.

Como algarvio ficaria satisfeito com a vitória de Faro. Acredito num horizonte digno de novos e mais belos anseios citadinos, mas para o alcançar não podemos iludir-nos com a miragem.

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A esses de dentro de Portugal https://barlavento.sapo.pt/opiniao/a-esses-de-dentro-de-portugal Thu, 23 May 2019 07:00:52 +0000 https://www.barlavento.pt/?p=179342 O meu país fica situado no extremo sudoeste da Europa e é pequeno e periférico. O meu país tem uma longa História, deu novos mundos ao mundo e fez o 25 de Abril, essa revolução espontânea de alegria e esperança em nome de uma sociedade mais livre, justa e igual. Vivemos em democracia, adquirimos direitos […]

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O meu país fica situado no extremo sudoeste da Europa e é pequeno e periférico. O meu país tem uma longa História, deu novos mundos ao mundo e fez o 25 de Abril, essa revolução espontânea de alegria e esperança em nome de uma sociedade mais livre, justa e igual.

Vivemos em democracia, adquirimos direitos e deveres, podemos votar e manifestar-nos em liberdade. Temos problemas comuns a muitos outros países da União Europeia.

Mas o meu país, Portugal, poderia ser muito mais do que aquilo que é, poderia ser mais orgulhoso e menos subalterno, mais determinado e menos ultrapassado.

O que quero dizer com isto? Que podemos ou devíamos aliar objetivos individuais (de vontade e realização pessoal) a objetivos sociais (de vivermos todos melhor e mais satisfeitos com o país que somos). Somos muito críticos, temos muitas desculpas para a nossa inércia coletiva, mas pouco fazemos para mudar.

A nossa democracia precisa de mudança, de mais participação cívica e menos má-língua, de novos políticos e cidadãos maduros e independentes.

A corrupção e a crise financeira têm-nos feito compreender as raízes de muitos males, tais como perceber que a especulação, os grandes negócios e o crescimento económico nem sempre correspondem a um aumento do bem-estar social, mas sim ao fazer fortunas de alguns e no acentuar de desequilíbrios sociais internos, não corrigindo a desigualdade entre pobres e ricos e agravando a vida da classe média.

Devemos igualmente perceber que na bajulice somos todos potencialmente corruptos, a corrupção começa na tradicional e familiar troca de favores entre amigos e acaba quando se tem dinheiro e poder nos casos mediáticos que conhecemos.

Que portugueses somos quando criticamos os políticos corruptos, mas no fundo invejamos o dinheiro que sacaram do erário público? De que nos falam os nossos governantes quando nos falam de milhões… Esse universo surreal e tão orçamentado é linguagem esotérica para quem vive as dificuldades do dinheiro mal chegar ao fim do mês.

Será que só nos resta o patriotismo folclórico do futebol, das bandeirinhas nos carros e nas varandas?… A exaltação do desfecho do campeonato?…

É bom que haja crise, que a crise leve à mudança e a mudança se traduza também nos atos eleitorais que nos esperam em 2019. Sim, votar não é tudo, mas ainda contribui de algum modo para definir o poder. Apesar de a democracia andar tão errática por esse mundo fora.

A esses de dentro de Portugal, honestos e trabalhadores, que ganham a vida com a sua inteligência e com as suas mãos, a essas mulheres e a esses homens com os rostos sulcados pela idade e pelo trabalho ao sol e ao vento, aos jovens irrequietos e urbanos que com novas atitudes procuram respostas concretas aos seus problemas e não doutrinas, aos que não se vendem e olham o rosto limpo ao espelho pela manhã, aos que acreditam numa sociedade multicultural, aos meus antepassados e ao seu exemplo de vida, a Salgueiro Maia, a Humberto Delgado e a Luís de Camões, deles reclamo a coragem e a mais alta espiritualidade, a todos esses que acredito existirem, insatisfeitos mas exigentes, a esses que podemos ser nós reclamo a mudança.

Sim, nós podemos.

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Faro, cidade «gostosa» mas não assim tão «formosa» https://barlavento.sapo.pt/opiniao/faro-cidade-gostosa-mas-nao-assim-tao-formosa Sun, 24 Sep 2017 09:19:23 +0000 http://barlavento.pt/?p=142291 Faro está melhor. Todos parecem concordar nesta opinião. Mal seria se continuasse na mesma. A iniciativa empresarial trouxe novos espaços e negócios, a baixa comercial conheceu novo fôlego. O turismo puxou a economia como nunca se viu, Portugal está na moda e o número de turistas por cá também nos beneficiou. Há que reconhecer também […]

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Faro está melhor. Todos parecem concordar nesta opinião. Mal seria se continuasse na mesma. A iniciativa empresarial trouxe novos espaços e negócios, a baixa comercial conheceu novo fôlego. O turismo puxou a economia como nunca se viu, Portugal está na moda e o número de turistas por cá também nos beneficiou. Há que reconhecer também que o atual executivo municipal soube dinamizar uma série de eventos (Baixa Street Fest, Alameda Beer Fest, Festival F, etc).

A cidade ganhou animação, esteve mais festiva e alegre. A requalificação urbana também conheceu alguns desenvolvimentos significativos. Contudo, dar-nos por satisfeitos seria contentar-nos com pouco.

Jardins (dignos desse nome) continuamos a ter apenas o da Alameda (séc. XIX). Seria bom termos mais zonas verdes, na malha urbana, além da mata do Liceu e do jardim da Alameda. Escasseiam transportes públicos entre a cidade e as freguesias rurais. Há uma deficiente cobertura da rede de transportes escolares. É enorme a desproporção entre os gastos em festas e o investimento necessário na habitação social. Nem todos têm dinheiro para a festa: o povo não só precisa de circo mas também de pão.

Toda e qualquer política deve contribuir para a diminuição das desigualdades sociais. Faro não é apenas a Baixa, toda a cidade merece mais.

Por outro lado, a cidade exige um maior cuidado ambiental: na manutenção do espaço público e na limpeza e recolha de lixos. Não houve uma postura reivindicativa a exigir a tão necessária ligação ferroviária (metro de superfície) à Universidade e ao Aeroporto. E falta planeamento e ordenamento urbano: continuamos assistir à destruição de edifícios que seriam de preservar e reabilitar e a permitir novas construções que não têm em consideração o contexto de inserção. Enfim, a cidade está mais gostosa mas não assim tão formosa.

Faro merece mais:
– Definição rigorosa de novas zonas de expansão urbana, dotando as mesmas de todo o tipo de estruturas de apoio (espaços verdes, estacionamento) e não as definindo apenas a reboque dos interesses da especulação imobiliária;
– Fim da destruição e descaracterização do património  urbano e artístico não classificado, mas igualmente precioso para a valorização da história arquitetónica da cidade;
– Definição e planeamento de uma política cultural que entenda a cidade como um todo, afirmando novos pólos de animação citadinos através de uma programação regular e atrativa. Faro não é apenas a baixa, toda a cidade merece mais.
– Criação de um Centro de Arte Contemporânea;
– Arborização e ajardinamento de espaços devolutos e ao abandono na malha urbana da cidade.
Há que alimentar novas esperanças e abrir o horizonte político à construção de novas oportunidades, pensando a cidade como um todo e aliando o social ao cultural, o económico ao ambiente, a identidade ao exercício de imaginação de um futuro melhor e mais feliz na cidade que todos queremos habitar.

Pelo atrás enunciado, eu que nunca estive ligado a nenhum partido e sempre fui ativo e interveniente de modo independente, decidi apoiar a candidatura de António Eusébio à Câmara Municipal de Faro. Todos merecemos mais.

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Eu habito, tu habitas… o outro habita https://barlavento.sapo.pt/opiniao/eu-habito-tu-habitas-o-outro-habita Tue, 23 May 2017 16:28:57 +0000 http://barlavento.pt/?p=138931 Este admirável novo mundo urbano e humano, frente ao qual é difícil ser neutro, coloca novas e pertinentes interrogações. Em primeiro lugar, a cidade passou a ser um dos problemas centrais, convertendo-se no espaço que melhor articula todas as variantes culturais, sociais e antropológicas. Assim, há urgência em repensar a cidade e o modo como […]

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Este admirável novo mundo urbano e humano, frente ao qual é difícil ser neutro, coloca novas e pertinentes interrogações. Em primeiro lugar, a cidade passou a ser um dos problemas centrais, convertendo-se no espaço que melhor articula todas as variantes culturais, sociais e antropológicas. Assim, há urgência em repensar a cidade e o modo como a habitamos.

Por outro lado, com a progressiva desterritorialização do político, do ideológico melhor dizendo, a cidade passa a ser um lugar mais real. A abstração crescente que afecta os sistemas de representação política, inscritos na tendência cada vez mais forte da globalização, faz com que a defesa do local adquira uma dimensão nova e mais significativa na definição do que somos e do que identifica o nosso viver em sociedade.

O espaço coincidente com o território do local chama-se cidade, comunidade urbana, área metropolitana, região, etc. Porém, de todas estas variantes, é a cidade a que melhor define a particularidade das formas de habitar. Daí a importância de Faro se definir como cidade rosto e exemplo sério de toda a região. O que infelizmente não tem acontecido, apesar de ser a cidade do Algarve com mais património edificado classificado e com áreas urbanas históricas bem definidas e estudadas.

Na cidade projecta-se, constrói-se o espaço social e cruzam-se todos aqueles sistemas de símbolos e signos que a partir da apropriação individual tornam possível uma identidade cultural. Ao mesmo tempo, a cidade, essa magnífica (e também horrível) organização humana desde a antiguidade aos nossos dias; esse gigantesco coração humano, todo ele alegrias e tristezas, esplendores e misérias, é espaço de representação por excelência de novas tensões sociais, culturais e políticas do mundo contemporâneo.

E a cidade é cada vez mais um cenário de derivas e fluxos, encontros e fugas, produzidos no território que articula sujeitos que a percorrem, a habitam, com suas formas de vida, suas necessidades e ansiedades. E nas cidades do Algarve, em toda a região, há um mundo cada vez mais plural e intercultural, no qual se cruzam diferentes destinos: do jovem paquistanês ou da mulher marroquina, migrantes da necessidade e quase sempre mal pagos e explorados nas estufas onde trabalham, aos franceses que fogem do medo e investem numa casa a sua reforma dourada; dos chineses das lojas fechados no seu universo comercial e na barreira da língua, aos algarvios naturais que somos diferentes do que fomos.

Enfim, desenha-se um novo cenário humano, uma nova complexidade de relações, olhares, tolerâncias e também discriminações, reconhecimentos que confrontam e colocam novos desafios urbanos ao entendimento das diferentes formas de habitar e projetar a cidade.

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Um Tempo Suspenso https://barlavento.sapo.pt/opiniao/um-tempo-suspenso Sun, 22 Jan 2017 16:47:18 +0000 http://barlavento.pt/?p=132425 Assistimos à difusão generalizada da ideia de que os tempos hoje são de fragmentação e divisão, de desunião europeia e afirmação de derivas populistas e nacionalistas encabeçadas por perigosos demagogos. Um tempo suspenso sobre o abismo do amanhã. E é verdade. Apesar de no nosso doce e meigo Algarve esse mundo nos parecer tão distante. […]

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Assistimos à difusão generalizada da ideia de que os tempos hoje são de fragmentação e divisão, de desunião europeia e afirmação de derivas populistas e nacionalistas encabeçadas por perigosos demagogos. Um tempo suspenso sobre o abismo do amanhã. E é verdade. Apesar de no nosso doce e meigo Algarve esse mundo nos parecer tão distante.

Vivemos no limbo de uma transição onde não percepcionamos muito bem para onde estamos a ser conduzidos. Espécie de territórios do efémero, mundo de violências onde triunfa o mais forte e fanático. Aqui somos um distante sul de uma Europa refém de uma ameaça real e cada vez mais ameaçadora. Mas o sol brilha para todos e temos as tréguas da praia e das esplanadas à beira mar ou da ria.

É como se tudo nos passasse ao lado na miscelânea informativa, entre o manter à tona da vida a morte de Mário Soares, as imagens da destruição de Alepo, mais um triunfo de Cristiano Ronaldo, o drama dos refugiados, a eterna dívida e os bancos endividados, o crime de última hora, mais uma mulher assassinada e a pequena política comentada como um jogo de futebol, entre o está ou não está fora de jogo (como evitar o inevitável Marques Mendes…). E nós fora de campo. Parecemos perdidos na imensidão do espaço digital e no excesso de informação, servida e fugazmente digerida na televisão à hora do jantar ou rapidamente visionada no telemóvel ou no computador numa pausa do trabalho.

Mas que fazer?… Como mudar esta maquinação do presente, este mundo cada vez mais povoado de mostrengos e aventesmas?…

Ah, sim?… Nós por cá todos bem.

Quem sabe, podemos vir a ter um amanhã redentor, melhor e mais grato do que este mal-agradecido tempo em que vivemos.

Entretanto, homens e mulheres não param, as vidas produzem. As coisas fazem-se. O banal e o vulgar é irmão de sangue do grande e do belo. Essencial é aprofundar o que está acontecer.
A História é, nela tudo acontece, não vale a pena chorar.

Algum pensamento contemporâneo, apressado, certa História, revendo-se nas glórias do passado, alguma comunicação social, perdida na espuma frenética dos dias, enfim toda uma ideologia dominante e não assumida tem vindo a trabalhar e a modelar a informação limitando-se a fazer leituras do que é mais visível, da muita agitação à superfície. A realidade é dada, acomodada.

Se é certo que essas interpretações vêm ao encontro de uma espécie de pensamento de massa, do homem número, validado a likes no facebook; e, assim, legitimado apenas na multiplicação e não na fundamentação. Por outro lado, é um pensamento extremamente redutor, que se deleita com facilidades.

Não generalizemos!

É imensa a diversidade do sentir e do pensar. No fundo de nós maré cheia se espraia, derrama clara e procura outra praia. Façamos por cruzar apaixonadamente as nossas pequenas histórias individuais numa História maior plena de nobres sentimentos e devotas entregas criativas. A luta por um planeta saudável. Por existências profundas. Podemos, também, basta desejar com muita força, como fazíamos em crianças, criar alguns deuses: da lucidez e da lentidão. Por que as pressas prejudicam, tornam as coisas feias (pessoas e paisagens) e a lucidez é a luz a coalhar os seres, a transparência de nos sentirmos humanos. Crescemos sempre. Amadurecemos em todas as épocas.

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Desenvolvimento e Cultura https://barlavento.sapo.pt/opiniao/desenvolvimento-e-cultura Sun, 18 Dec 2016 19:24:11 +0000 http://barlavento.pt/?p=131838 A criação humana A criação e a expressão artísticas estão presentes desde os primórdios da humanidade, das pinturas rupestres das grutas de Altamira e Lascaux às exposições de arte contemporânea que podemos ver em Serralves ou na Gulbenkian; de uma dança tribal Sioux à Sagração da Primavera de Stravinsky; das máscaras africanas aos rostos de […]

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A criação humana
A criação e a expressão artísticas estão presentes desde os primórdios da humanidade, das pinturas rupestres das grutas de Altamira e Lascaux às exposições de arte contemporânea que podemos ver em Serralves ou na Gulbenkian; de uma dança tribal Sioux à Sagração da Primavera de Stravinsky; das máscaras africanas aos rostos de Modigliani. A arte ou as artes em geral deviam ocupar um belo e espaçoso lugar na vida de todos nós. Precisamos desse conforto do espírito, desse alimento da alma, tão essencial quanto o pão que comemos. Sim, sabemos que sem comida não sobrevivemos. Mas será que estamos na vida apenas para comer e nos reproduzirmos como os animais? Então também não seria importante saber ler e escrever…

Ler um livro, escrever um poema, ver um filme ou uma exposição, assistir a um espetáculo de teatro ou de dança, não nos tornam perfeitos ou melhores, mas são atividades que alargam a dimensão da condição humana e a compreensão do que somos.

A realidade
Contudo, esta realidade/não realidade cultural dificilmente corresponde à vida quotidiana e à ocupação do tempo da grande maioria das pessoas. A fruição de atividades designadas como artísticas e culturais são, infelizmente, hábitos de uma minoria. Basta atentarmos nos últimos dados estatísticos referentes aos hábitos culturais dos europeus, que são especialmente devastadores no que se refere ao nosso país. Situamo-nos em último lugar no que diz respeito à leitura, idas ao teatro e dança; estamos em penúltimo na frequência de cinemas, monumentos e museus e antepenúltimo nas bibliotecas. Apenas uma escassa minoria frequenta museus, tem hábitos de leitura, vão ao cinema ou ao teatro.

Apenas a história das técnicas e a tecnologia parecem registar evoluções imparáveis. O acesso generalizado e economicamente mais acessível a toda uma nova gama de equipamentos e meios que vão constituindo este nosso admirável mundo novo digital são bem-vindos, mas não devem ser exclusivo único da ocupação das nossas horas de ócio. É certo que há grandes músicos, filmes maravilhosos, bons livros para ler e teatro para ver. E tudo se liga: criações científicas, técnicas e culturais. Mas feitas as contas, e falando do que é enganadoramente dominante, parece que a materialidade e a aquisição voraz de bens materiais domina os objetivos de vida e forma a mentalidade no mundo rico e desenvolvido. O problema não é novo. Vem de trás.

Desenvolvimento e cultura
Todo e qualquer modelo de desenvolvimento e de política económica e social estão dependentes, assumidamente ou não, de uma perspectiva cultural ou de uma visão do mundo. Partindo deste princípio, essa visão ou entendimento deverá ser o mais abrangente possível e sedimentar a ideia de que a história da cultura e das artes, assim como a formulação no presente de novas políticas culturais, não deve ser entendida de modo separado da vida económica de uma sociedade.

Aliás, a palavra cultura, só por si, soa para a grande maioria das pessoas como mundo à parte e privilégio de uns poucos. Quase não a devíamos pronunciar se queremos fazer passar a mensagem a muitos mais.

Fundamental é ter uma visão estratégica que tenha em conta uma rigorosa noção de planeamento ao serviço dos cidadãos e contra os interesses de grupo. Não fazer para turista ver, pois ao desenvolver para quem cá está proporcionamos também o melhor a quem nos visita. Importa requalificar ruas e praças, reabilitar e renovar casas, cuidar de quem habita.

Para que estas palavras não sejam meramente teóricas e possam entroncar na realidade da região do Algarve, tanto na sua história, no que somos, mas também na procura de um modelo que melhor configure o rosto da nossa modernidade no futuro, avanço alguns exemplos.

Assim, em sintonia com uma oferta cultural abundante, importa que as pessoas vivam em cidades e vilas dotadas de uma boa rede de transportes, beneficiem de horários de funcionamento de espaços públicos que tenham em conta a organização diária do ritmo de vida das pessoas. Por exemplo, de que serve ter uma boa exposição de artes visuais num museu ou galeria municipal que fecha às 5 da tarde e está fechado ao fim de semana?

E se a escola não estiver implicada em parcerias com museus e auditórios será que muitos alunos poderão usufruir ou ser educados com o que aí se passa? Para que servirá ter Serralves em Faro se falta uma pesquisa e análise aprofundada do que é o meio artístico local e da seleção e mostra que se poderia constituir a partir da região?

Será que há assim tanto público para que se programem espetáculos com a mesma natureza artística em cidades tão próximas… Felizmente muita coisa mudou, todos sabemos que a região está melhor e todos beneficiamos com isso. Na cultura a Rede AZul e o Algarve 365 são bons exemplos, assim como no urbanismo os recentemente anunciados programas de reabilitação urbana. Mas muito está por fazer.

Como posso ter mais movimento e vida na baixa da cidade se o coração do seu centro cívico, as suas artérias principais pararam de bater, com tanta casa devoluta e lojas e cafés a fechar às 7 e às 8?…

Faro esboça algumas tentativas de animação da baixa comercial, graças a um esforço nesse sentido, resultante da parceria entre a associação de comerciantes e o município (a baixa street fest foi uma boa iniciativa), mas não é fácil, pois o Forum é quase a grande praça pública da antiga Roma em versão comercial, sem templos e edifícios públicos.

Que dizer de Portimão, que exceptuando o Verão, vê a sua magnífica e ampla zona ribeirinha quase deserta de gentes; porque as famílias e a grande maioria dos portimonenses procuram refúgio nas horas de ócio nos centos comerciais que os autarcas deixaram proliferar pela cidade… O que é hoje o TEMPO, o teatro municipal da cidade, quando o dinheiro se esgotou… Uma sombra de programação comparada com o fulgor inicial; a caixa forte do Fernando Mendes em Agosto.

E Silves, minha bela e leda cidade adormecida, como insuflar-te vida e animação… Todo o imenso legado patrimonial e arqueológico da cidade precisam de uma ambição de futuro e de uma estratégia de afirmação. Para quando a abertura do núcleo museológico da Arrochela? Que solução para o cineteatro? A feira medieval realizada no pico do Verão é, sem dúvida, uma grande iniciativa e uma imensa fonte de receita; sei que vai crescer e é bom para o negócio, para o comércio. Mas a cidade não pode ficar culturalmente refém do grande evento, precisa de novos projectos e mais ousadia política.

Temos muitos vícios de novo-riquismo, passámos muito rapidamente do estado pré-moderno e saloio para uma ficção megalómana de ter não sei quantos pavilhões multiusos, não sei quantos auditórios (muitos sem funcionários e programação), marinas e mais marinas (será razoável construir mais uma marina na foz do Arade, em Ferragudo…)

Enfim, o desenvolvimento da região será tão devedor da nossa iniciativa e intervenção como cidadãos, quer individualmente quer em associação, tanto quanto da realização política e institucional do Governo e das autarquias. Desejável é a aliança das múltiplas iniciativas, num espírito de colaboração, deitando por terra a estreita visão local e os chicos-espertos, em nome de uma perspectiva de desenvolvimento regional, moderna e verdadeiramente cosmopolita.

Opinião de Paulo Penisga | Professor de História e Ativista do presente

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