Dessalinização pode agravar factura ambiental no Algarve

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Uma semana depois de a Câmara de Albufeira ter admitido recorrer a processos de dessalinalização «num futuro próximo», Luís Ribeiro, professor e especialista na área da hidrogeologia, alerta para os custos ambientais a médio e longo prazo que esta tecnologia pode desencadear.

Sustentando-se num estudo avançado pelo magazine Courrier Internacional, o especialista desmistifica a ideia de que a dessalinização é uma tecnologia limpa e teme que o Algarve venha a pagar uma factura energética muito elevada, se optar por essa solução como forma de abastecimento público.

Depois do entusiasmo manifestado por várias unidades hoteleiras da região e pelo deputado social-democrata Mendes Bota, que tem defendido a aplicação da dessalinização no Algarve, o especialista do Instituto Superior Técnico (IST) alerta que serão necessários milhares de quilowatts para abastecer uma única central de tratamento da água do mar e que esses consumos vão ter repercussões nas emissões de CO2, responsáveis pelas alterações climáticas.

Além de comprometer os acordos de Quioto, são ainda imputadas às técnicas de dessanilização impactos negativos nos ecossistemas marinhos, que passarão a ser afectados pela salmoura resultante dos processos de depuração.

A organização ambiental Word Wide Found já veio aliás alertar, há poucas semanas, sobre os riscos que a vizinha Espanha vai correr por se estar a transformar no país ocidental com maior capacidade de dessalinização e já identificou impactos na preservação das águas subterrâneas.

Em declarações ao «barlavento», à margem de uma visita sobre alterações climáticas, organizada pelo Bloco de Esquerda, Luís Ribeiro critica também o facto do o Governo ter anunciado a duplicação de hotéis de cinco estrelas no Algarve, sem ter realizado um estudo prévio que avaliasse as disponibilidades hídricas.

Mesmo tendo em consideração que a construção da barragem de Odelouca vai aumentar as reservas de água, o investigador considera que os cenários resultantes das alterações climáticas apontam para uma redução da precipitação, o que poderá comprometer todo o sistema agora planeado.

«Antes de se avançar para soluções radicais, como dessalinazadoras ou processos que passam por bombardear nuvens, temos de observar quais os recursos disponíveis no Algarve. Se a disponibilidade de água é «x», então nós só licenciamos «y» empreendimentos, sob pena de a região colapsar», assevera.

Defendendo igualmente a necessidade de articular as reservas superficiais (barragens) com as reservas subterrâneas (aquíferos), o professor do IST defende que os Planos de Ordenamento do Território devem passar a incorporar explicitamente uma secção dedicada às questões hídricas, embora aponte soluções a curto prazo.

«Primeiro, é necessário controlar as perdas de água na região, que nalguns concelhos ascendem aos 50 por cento; segundo, é necessário avaliar os reais consumos de água directamente gerados pelo turismo».

«Se tal não for ponderado, e face aos cenários climáticos futuros, o Algarve e o turismo correm o risco de colapsar em determinadas alturas do ano», avisa.