Baleia que arrojou no Sotavento é caso inédito no país

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Animal encontrado em Vila Real de Santo António surpreendeu os biólogos, pois não existe registo de algum cetáceo de tal envergadura ter dado à costa em Portugal continental.

Foi talvez o mais «desafiante e trabalhoso» evento com que a Rede de Arrojamentos do Algarve (RAAlg), projeto de investigação da Universidade do Algarve (UAlg) dedicado à recolha de informação de cecetáceos e tartarugas marinhas que dão à costa, se deparou desde a sua fundação há cerca de um ano.

Na terça e quarta-feira, dias 20 e 21 de abril, respetivamente, a RAAlg deu um apoio essencial na resposta aos trabalhos de remoção e transporte de uma baleia-comum (Balaenoptera physalus), fêmea adulta, com mais de 19 metros e um peso estimado de 25 toneladas.

Segundo o biólogo João Pontes explicou ao barlavento, o animal arrojou morto junto da Praia de Santo António e só depois de mais de 24 horas de trabalhos se concluiu todo o processo de remoção.

«Bateu-se um recorde, pois não existe registo de algum cetáceo de tal envergadura arrojado em Portugal continental. A logística para proceder aos trabalhos de remoção de um animal destes é como se deve perceber de uma ordem grandiosa, e nem sempre as entidades estão preparadas para tal aparato», referiu.

A função inicial da RAAlg foi de contribuir na articulação entre as entidades que se disponibilizaram a colaborar.

O animal acabou por ser enterrado em local determinado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) numa zona contígua, porque dada a sua dimensão, não havia capacidade de transporte em segurança até o Aterro Sanitário do Sotavento, a 71 quilómetros de distância.

Ainda segundo o biólogo que realizou a necrópsia, os resultados foram inconclusivos. Não obstante, «a boa condição física que aparentava e a presença de abundante conteúdo do trato gastrointestinal indiciam que seria um animal saudável e que a sua morte foi possivelmente traumática. As causas de morte mais frequentes para grandes rorquais como esta baleia, estão muitas vezes relacionadas com colisões acidentais com embarcações de grandes dimensões (por exemplo, porta-contentores), durante as rotas de tráfego marítimo que se sobrepõem com áreas de distribuição destes animais.

Por outro lado, de acordo com a bióloga Ana Marçalo, esta é a única forma de lidar com este tipo de casos.

«Um animal destas dimensões, se deixado em alto mar,  é um perigo à navegação. O mais frequente é trazê-lo para terra e encontrar os meios de o poder enterrar. Poucos são os trabalhos que tentaram afundar uma carcaça de baleia para estudar o processo da sua decomposição e a bomba biológica que cria. São muito caros e não estaríamos preparados nem teríamos meios para o fazer», explica.

O alerta foi dado cerca das das 9 da manhã de terça-feira da passada semana, segundo disse ao barlavento Rui Vasconcelos Duarte, Capitão de Porto de Vila Real de Santo António.

A operação envolveu cerca de 20 pessoas, entre meios da Capitania, da Polícia Marítima, dos Bombeiros Voluntários, do Serviço Municipal de Proteção Civil de Vila Real de Santo António, da autoridade portuária (Docapesca) e também do ICNF.

A baleia-comum é uma espécie classificada como «Em Perigo de extinção» pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (2005). A população de baleia-comum registou um declínio de, pelo menos 50 por cento, nos últimos 60 a 75 anos.

A nível mundial, o seu estatuto foi revisto em 2018 e melhorou de «Em Perigo» para «Vulnerável».

Em Portugal, a baleia-comum é uma espécie visitante e é frequentemente avistada ao largo da costa de Portugal Continental durante todo o ano.