Bacalhau sensibilizou governo e cientistas do IPCC para a seca no Algarve

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O autarca de Faro aproveitou a presença do ministro do Mar para pedir ao governo «a constituição de um grupo técnico multidisciplinar» capaz de resolver o problema da falta de água no Algarve. Rogério Bacalhau lembrou ainda ao governante «o grave problema de uma ferrovia arcaica».

A cerimónia de abertura dos trabalhos da reunião do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que decorreu na manhã de hoje no Grande Auditório da Universidade do Algarve, no campus de Gambelas, contou também com a presença do autarca da cidade anfitriã.

«A Câmara Municipal de Faro não podia ficar indiferente. Dou as boas-vindas aos 260 especialistas, oriundos de 60 países, que compõem este grupo de trabalho do painel intergovernamental das alterações climáticas da ONU e que hoje começam os seus trabalhos na nossa cidade», saudou Rogério Bacalhau, que considerou a missão «de vital importância».

«É muito paradigmático que este grupo de trabalho tenha escolhido a nossa região para aqui reunir e se debruçar sobre os impactos das alterações climáticas nos ecossistemas e nas sociedades estabelecidas.

A verdade é que se há região que já está mudar por efeito das alterações climáticas, essa é o Algarve», sublinhou o autarca, que aproveitou a presença do ministro do Mar.

«A erosão costeira e a subida do nível médio das águas do mar são tão evidentes que ameaçam o território e põem em risco a subsistência do nosso modo de vida. Por outro lado, os poderes públicos já estão a sentir dificuldades para manter os abastecimentos de água a toda a população», alertou Rogério Bacalhau.

Adelino Canário (CCMAR), Rogério Bacalhau e o Reitor da Universidade do Algarve Paulo Águas.

Perante uma plateia que além dos cientistas do IPCC, tinha presentes vários dirigentes de instituições do Estado, o autarca de Faro fez um ponto de situação e lembrou que «o nível das nossas reservas não é suficiente para o consumo humano de um ano apenas. No nordeste da região há populações a serem abastecidas com autotanques. Na agricultura, as árvores secam e o gado tem cada vez menos alimento. Se os invernos secos continuarem, em breve a região revelará um cenário de pobreza, deserto e desolação».

«Não é uma constatação científica. É um facto à vista de todos», alertou.

Em português, Rogério Bacalhau manteve o tom e lembrou que «em Portugal quase todos adoptaram o discurso do controlo do aquecimento global; de que é preciso descarbonizar e de que há metas ambiciosas a cumprir».

«Mas o facto de enumerarmos vezes sem conta essa preocupação não pode levar as pessoas a pensarem que estamos efetivamente a combater as alterações climáticas ou a prepararmo-nos para elas. Porque não estamos, e os algarvios já o sentem na pele», referiu.

O presidente da Câmara Municipal de Faro também se mostrou cético perante algumas das propostas que têm sido avançadas no espaço mediático para resolver o problema da seca no Algarve, com a construção da barragem da Foupana, ou uma nova central de dessalinização.

«As soluções de que se fala para o problema da água são muitas e diversificadas e todas têm óbices: ou são caras, ou são ambientalmente incorretas», disse.

«Na nossa perspetiva, o governo deve determinar com urgência a constituição de um grupo técnico multidisciplinar que se debruce sobre a questão e formule uma solução num espaço de tempo curto», ou seja, seis meses no máximo, sugeriu.

«O problema é sério? Sim, é seríssimo. Mas há soluções… e que se pronuncie sobre elas quem tem o conhecimento para o fazer, que se tomem decisões e nós, autarcas, cá estaremos para as ajudar a implementar», garantiu.

Rogério Bacalhau enumerou alguns passos que o município tomou, como a adesão do Pacto dos Autarcas em 2011, e a elaboração do Plano de Adaptação às Alterações Climáticas, em 2016.

«Em 2019 procedemos à assinatura dos Princípios da Mobilidade Partilhada, fomos a primeira cidade ibérica a fazê-lo. Entretanto, começámos a tornar as nossas infraestruturas mais amigas dos modos de transporte suaves, com a implementação de faixas cicláveis, ciclovias e zonas 30, de forma progressiva. Em 2018, aprovámos o nosso Plano de Mobilidade e Transportes, que formulávamos ao mesmo tempo em que revíamos o nosso PDM, tentando plasmar esses preceitos no planeamento do território», enumerou.

«Não bastam esses esforços. É preciso também ter mais e melhores transportes públicos… e menos poluentes. É preciso resolver o grave problema de uma ferrovia arcaica, se é que ainda há solução para ele», concluiu.