Albufeira vai ter produção fotovoltaica suficiente para abastecer o concelho

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Central Fotovoltaica de Paderne já está a funcionar e em breve serão instaladas mais duas. O suficiente para alimentar Albufeira.

Já se ouve o zumbido constante e característico dos eletrões a entrarem na rede, mas foram precisos quatro anos para licenciar, desenvolver e construir a Central Fotovoltaica de Paderne, inaugurada na sexta-feira, dia 9 de setembro.

O parque solar é composto por 39.564 painéis, tem uma potência instalada de 17,4 MWp e ocupa uma área de 28 hectares junto ao nó da Via do Infante (A22), num terreno onde foram depositados os inertes da construção da Marina de Albufeira.

O projeto, desenvolvido pela NextEnergy Capital, empresa de gestão de fundos de investimento e ativos no sector das energias renováveis e pela Frequent Summer, empresa que se foca no desenvolvimento de projetos fotovoltaicos, tem uma capacidade de produção anual de 29,6 GWh de energia elétrica.

O suficiente para abastecer mais de oito mil habitações e evitar a emissão de 9.620 toneladas de CO2 por ano.

Segundo Rogério da Ponte, representante da Frequent Summer, estão na calha mais projetos para o Escarpão.

«Um dos principais benefícios tem a ver com a autossustentabilidade energética do município de Albufeira. Esta central dá para abastecer 25 por cento dos lares do concelho, em caso de necessidade extrema, com produção local, algo que nos dias de hoje é muito importante. A sul vai nascer um outro projeto de 27 MWp e a norte, um de 14 MWp. O investidor, em ambos os casos, será a Iberdrola», revelou.

Rogério da Ponte.

No futuro, em conjunto, as três centrais «vão permitir ao município ser totalmente autónomo, no período diurno, caso seja necessário, para 100 por cento das necessidades de energia».

Estão no prelo também duas novas centrais, de 10 MWp, nos concelhos de Olhão e de Portimão. O investidor será a Tag Energy.

Rogério da Ponte apontou que hoje, além do fecho das centrais a carvão, «há outra realidade que infelizmente está a acontecer no nosso país, que é a falta da água. A maior fonte de produção energética renovável, a hídrica, hoje está muito mais reduzida. A continuar assim, vamos ter sérios problemas a partir desta fonte que é bastante importante em termos de produção nacional e local».

Por sua vez, Filinto Martins, diretor geral do NextPower III (NextEnergy Capital) revelou que este fundo já tem ativos em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) como os EUA, Chile, Espanha, Polónia, Índia e Portugal.

Filinto Martins.

«O que fazemos é o investimento, a gestão da construção e a operação a longo prazo. A vida útil desta central ronda os 30 a 35 anos. Mas pode ser quase ilimitada com a requalificação dos equipamentos. Portanto, este pode ser classificado como um projeto geracional. Haverá sempre a possibilidade de reutilização do terreno, das estruturas e do ponto de ligação à rede» no futuro.

Em relação ao presente, «não era necessário estarmos num cenário de guerra energética, que também é disso que se trata, para acordarmos para a necessidade deste tipo de projetos. Quando era apenas uma questão de alterações climáticas, bem, a próxima geração que trate disso. Mas agora que nos toca no bolso, já todos falam em hidrogénio, solar e eólico. Bem, tivemos tempo para fazer. Mas houve sempre pressões: então e o impacto visual? E as expropriações? E o ambiente?», ironizou.

«Apesar de não ser propriamente uma coisa verde, temos de aprender a viver com isto no nosso landscape. Não é possível fazer transição energética sem haver algum impacto, nem que seja visual. Penso que parte do licenciamento tem de começar a levar em linha de conta estes aspetos. E temos de melhorar a celeridade dos processos. O país precisa, os consumidores precisam e a fatura da eletricidade, também». Em termos ambientais, «esta central vai fazer monitorização da biodiversidade. Este fundo gasta, por megawatt instalado, verbas avultadas para ir além daquilo que as entidades competentes pedem para licenciar o projeto», garantiu.

No que toca aos custos para o erário público, o gestor desconstruiu preconceitos. «Passámos décadas a falar sobre mudanças climáticas. As energias renováveis foram sempre vistas como algo Nice to have [é bom ter]. Nunca se perceberam as mensagens: que era importante estimular, mesmo quando o investimento não era compensado pelas receitas. Hoje, não existe nenhum projeto de renováveis em Portugal, seja de que tecnologia for, que necessite de subsídio à produção, à operação ou fiscal. O projeto da Central Fotovoltaica de Paderne não teve qualquer incentivo à receita, ao financiamento, nem no custo de edificação. Custou 20 milhões de euros, com tudo incluído, investimento privado. Portanto, a ideia de que as renováveis penalizam o Orçamento de Estado» não é válida. «Pelo menos, esta não. E ficamos muito contentes que contribua para a neutralidade carbónica do município de Albufeira. Quando chegar à subestação, a energia será faturada a preço de mercado», explicou, que está inflacionado e sujeito a um mercado «praticamente não regulado».

Também neste aspeto, Filinto Martins explicou que «a central é rentável com preços de mercado pré-COVID. Não estamos presos a qualquer tipo de necessidade de venda aos preços de hoje».

O NextEnergy Group, com atividade em Portugal desde 2020, tem outros dois projetos em curso, uma central fotovoltaica de 41 MWp em Palmela e uma outra em Santarém, de 210MW. O conjunto vai permitir à empresa atingir uma capacidade instalada na ordem dos 300 MW.

No âmbito da unidade de Paderne, enquanto prova de responsabilidade social, foi oferecida uma central de autoconsumo aos Bombeiros Voluntários de Albufeira.

Também presente na inauguração, o autarca José Carlos Rolo elogiou os promotores e manifestou-se disponível para continuar a apoiar o investimento no concelho. Mas não escondeu alguma preocupação com a atualidade.

«Vamos ter um outono e inverno com alguma instabilidade e as consequências podem ser gravosas para as pessoas mais carenciadas. Associado ao aumento dos custos da energia, temos a subida das taxas de juro e da inflação. Estão criadas condições quase que para uma bomba atómica» social.

José Carlos Rolo.

Albufeira com frota de transportes urbanos 100 por cento elétrica

Em dezembro devem começar a circular, no concelho de Albufeira, novos autocarros de transporte coletivo de passageiros, 100 por centos elétricos. A novidade foi avançada pelo autarca José Carlos Rolo.

«Penso que é um passo de gigante para que se possa falar daquilo que é a descarbonização com alguma objetividade e não apenas de forma teórica». Segundo o autarca, resulta «de uma concessão no âmbito de um concurso público lançado há cerca de quatro anos. Entretanto, não teve concorrentes e foi reformulado. O Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMTT) teve de emitir novo parecer e o regulamento foi submetido ao Tribunal de Contas. Foi dado o visto e agora o concessionário está a operacionalizar a operação. Até final deste ano deverá estar tudo no terreno», anteviu.