UAlg estuda a viabilidade da cultura de pitaia no Algarve

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Objetivo é perceber se a cultura da pitaia é resiliente às condições do Algarve, qual o seu potencial produtivo e como é que o mercado reage a um fruto exótico de elevado valor económico.

Em Cacela Velha, no concelho de Vila Real de Santo António, mesmo de frente para o mar, encontra-se um campo de ensaio, numa área com cerca de dois hectares, onde desde 2019 estão plantadas cerca de mil pitaias.

A responsável por monitorizar toda a cultura, retirar os dados agronómicos e analisar física e quimicamente a posteriori cada fruta em laboratório é Ana Trindade. Tem 24 anos, é natural de São Brás de Alportel, licenciada em Agronomia, e encontra-se a frequentar o mestrado em Hortofruticultura da UAlg. Foi contratada como bolseira de investigação em 2018 e é orientada pelo docente Amílcar Duarte.

«O meu papel é perceber qual o potencial produtivo da planta, porque se trata de uma cultura de que não se sabe muito, principalmente nas condições do Algarve. Queremos perceber quais as necessidades da pitaia, os problemas da cultura nesta região, as necessidades hídricas, e como se adapta», começa por explicar Ana Trindade ao barlavento.

Ana Trindade.

Trata-se de uma investigação cofinanciada por fundos europeus e inserida no Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020), o principal instrumento de apoio ao desenvolvimento de projetos agrícolas.

O estudo está a ser conduzido pelo Grupo Operacional «Fruta Dragão», outro nome pelo qual é conhecida a pitaia, fruta originária das Américas Central e do Sul. A jovem justifica a escolha.

«Nos últimos anos tem-se notado uma necessidade de diversificar a fruticultura algarvia. Além disso, temos a problemática da escassez de água, com a qual teremos sempre de lidar no futuro. A pitaia é capaz de atender a estes dois fatores porque é uma cultura frutícola que faz o uso mais eficiente dos recursos hídricos e contribui para a dinamização do que é produzido no Algarve».

Como se trata de um cato, o seu mecanismo CAM, permite a abertura dos estomas durante a noite e fecho durante o dia. Assim, a planta não perde água nas horas de sol, uma vez que não transpira, permitindo-lhe acumular a água no seu caule, o cladódio.

Em termos de comparação, no período do verão, quando a escassez de água é mais acentuada e as culturas precisam de ser regadas, «a pitaia precisará de menos de metade da água do que um abacateiro», afirma a investigadora, «uma diferença bastante significativa», acrescenta.

Assim, mesmo no verão, as pitaias podem ser regadas apenas uma vez por dia, ou de dois em dois dias, durante 20 minutos, dependente das condições. Outra das vantagens desta cultura é o facto de ainda não ter pragas associadas, uma vez que é, nas palavras da estudante, «relativamente nova na região».

Ainda assim, «há caracóis e formigas que se alimentam da fruta e dos cladódios mais tenros, que tratamos com granulados indicados para a agricultura biológica. A nível de doenças, há alguns fungos associados à humidade, à chuva e ao frio. Nesses casos, o tratamento é com fungicidas ou calda bordalesa, consoante a necessidade», explica.

O principal inimigo, sobretudo nas produções ao ar livre, é a geada, que se acumula na superfície da planta. E o maior inconveniente, de acordo com a jovem investigadora, é o facto de ser uma produção que exige muita mão de obra, mesmo sendo um cato.

No entanto, é uma cultura que pode ser praticada «facilmente» em modo de produção biológico, ou com reduzido impacto ambiental, onde cada pomar tem, em média, uma vida útil que pode alcançar os 15 anos. Durante esse período, de acordo com a sambrasense, «os cladódios que produziram muito ao longo do ano podem ser removidos para voltarem a crescer novos e o potencial da planta é, assim, restaurado».

Comparar todas as variáveis

Além do pomar de Cacela Velha, em Estoi, no concelho de Faro, há também 600 plantas em estufa, a cargo do viveiro Mil Plantas, parceiro do projeto. A ideia é comparar as diferenças de uma pitaia plantada ao ar livre e de uma criada em viveiro. Nos dois campos de ensaio, tudo está a ser estudado, desde as texturas do solo, a estrutura de suporte, a distância entre as plantas, algumas variedades da espécie e a polinização.

«Primeiro, queremos perceber o comportamento da planta em diferentes tipos de texturas de solo, nomeadamente em solos mais característicos do Algarve. Por isso temos a areia, o barro, o próprio solo calcário. Depois, em relação às estruturas de suporte, temos de estudar vários sistemas de condução, para perceber quais os que melhor rentabilizam a área que existe. Isto porque, como as pitaias são plantas que no seu habitat são trepadeiras e crescem sobre árvores ou pedras, não são capazes de se suportar sozinhas. Em Cacela Velha temos os postes de madeira individuais, o sistema de condução tradicional, e ainda estruturas inovadoras com tubos de ferro. Tudo isto, com diferentes compassos para conseguirmos obter o maior número de dados por modalidade de teste», refere Ana Trindade.

Outro aspeto muito importante que este projeto estuda é a polinização da planta. «Se é mais vantajoso fazermos nós a polinização manual, ou se poderá ser livre, e nesse caso serão as abelhas responsáveis, visto que são os agentes polinizadores mais presentes», explicita.

Outro dos ensaios a decorrer é o de caracterização de variedades, onde são investigadas algumas das variedades de pitaias: as de polpa branca e as polpa vermelha.
Nas primeiras, a Hylocereus undatus é a variedade mais comum, e a que compõe a maioria da plantação. Na coleção existem maioritariamente variedades de polpa vermelha, como a Hylocereus costaricensis, de polpa cor de rosa, e outra amarela por fora e branca por dentro.

«Depois, comparamos os frutos da estufa com os do ar livre, as diferentes variedades, a polinização manual ou livre, se há diferenças no tamanho das frutas, na qualidade, e tendo em conta também os dias diferentes de maturação», entre outras variáveis, segundo enumera a jovem investigadora.

Após o período de maturação do fruto, que varia entre os 30 e os 35 dias, cada pitaia é levada até ao laboratório da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UAlg, no campus de Gambelas, em Faro, onde são realizadas análises físicas e químicas.

«Faço as medições e analiso os indicadores de qualidade do fruto, como o teor de açúcar e a acidez», descreve. Mais tarde, são ainda feitas provas organalépticas, «que consistem em prepararmos várias amostras de diferentes frutos e darmos a provadores [pessoas aleatórias da universidade não afetas ao projeto]. Provam e na ficha técnica avaliam o nível de doçura, o aspeto e a acidez» de cada amostra.

São, aliás, provas com um objetivo muito concreto. Além de darem a conhecer este fruto incomum, de acordo com Amílcar Duarte, orientador da investigação «queremos ter a ideia de como é que a média dos consumidores reage a este fruto, porque sabemos que há um nicho de pessoas que já o consome, mesmo quando o preço não é muito convidativo. E isso tem-se vindo a verificar em Portugal e um pouco por toda a Europa».

Quando o projeto terminar, o plano é a elaboração de um Manual Técnico sobre a pitaia, com todas as conclusões «para quando existirem potenciais agricultores a quererem investir nesta cultura, terem um guião para seguir», assegura a engenheira agrónoma.

Pitaia parece «adaptar-se bem» ao Algarve

Apesar do fim do projeto estar apenas marcado para meados de 2022, uma vez que foi estendido por mais seis meses, o docente da UAlg já consegue falar em algumas conclusões.

«É uma cultura que está bem adaptada às nossas condições, produz bem no Algarve, e são necessários alguns cuidados por ser muito suscetível à geada e a picos de muito calor. É uma planta rústica em termos de subsistência, mas em termos de produção tem algumas exigências».

Por outro lado, a jovem investigadora, que se encontra no terreno todos os dias, revela que «há prós e contras em relação às estufas e ao ar livre. Por exemplo, em estufa, o período de maturação da fruta é mais curto, uma vez que o conforto térmico é maior», e aborda também a questão da polinização manual.

«Sou da opinião que pode ser um pouco arriscado a produção de pitaias depender única e exclusivamente de uma polinização livre aqui na região. As abelhas fazem-na, mas os frutos poderão ficar mais pequenos, já que o tamanho está relacionado com a quantidade de pólen que se coloca na parte feminina da planta, o estigma. Nós conseguimos colocar muito mais pólen que as abelhas», o que resulta numa pitaia maior. E se for com pólen de outra variedade especifica, «a doçura dos frutos poderá ser ainda mais apelativa».

Sejam quais forem as conclusões finais, para Ana Trindade o foco é apenas um: «conseguir produzir pitaia de qualidade, que diversifique a fruticultura da região e lhe acrescente valor».

O Grupo Operacional «Fruta Dragão» conta com a investigação de vários docentes da academia algarvia, com o apoio das empresas Desafio Tropical, Luís Sabbo Frutas do Algarve e Mil Plantas, com a consultoria da CONSULAI e com Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP) a liderar o projeto.

Pitaia é uma «fruta especial»

«Elas são mesmo especiais». É assim que Ana Trindade, estudante de mestrado em Hortofruticultura da Universidade do Algarve (UAlg) e bolseira da investigação do Grupo Operacional «Fruta Dragão» descreve a pitaia ao barlavento. E além, de ser «uma fruta muito apelativa, devido ao seu aspeto muito atrativo e exótico», tem diversos benefícios para a saúde.

«São ricas em fibras e funcionam muito bem para problemas de trânsito intestinal. Ajudam a prevenir o cancro do cólon, protegem o estômago e são boas para quem tem diabetes, porque reduzem o nível de glucose no sangue. Têm propriedades antioxidantes e são uma boa aliada a dietas de emagrecimento devido ao seu baixo nível calórico».

Produção no Algarve é residual

De acordo com o docente da Universidade do Algarve (UAlg), Amílcar Duarte, e orientador do projeto de investigação «Fruta Dragão», a produção de pitaias na região ainda é residual. «Há duas realidades paralelas. Uma, de colecionadores de plantas, que compram e importam de vários locais e têm muita variedade. Essas são pessoas que têm as plantas por curiosidade e gosto pessoal. É um hobby», explica ao barlavento.

Do ponto de vista de produtores, «já há alguns, mas ainda são poucos. Devem rondar os 20 e os 30, sobretudo na zona do Sotavento. Há pessoas que passaram da coleção à produção com maior quantidade e têm áreas de dois e três hectares só de pitaias. E depois há produtores de outras culturas, em grande parte de framboesa, que estão agora a experimentar. Há quem esteja a produzir ao ar livre, em estufa e até em hidroponia. Há vários modelos de produção, mas estamos a falar de poucos e de pequenos produtores».

Importações da fruta não dignificam a qualidade

Uma das dificuldades que Ana Trindade, bolseira de investigação da Universidade do Algarve (UAlg) do Grupo «Fruta Dragão», identifica no consumo da pitaia, está relacionada com a importação. A maioria do fruto que já se consegue encontrar nos hipermercados é importado de outros países, principalmente o de polpa branca.

«Está tudo contra nós porque as pitaias que existem à venda não são nacionais. Vêm do Vietname, Tailândia e do Brasil. Nesses países, a fruta é colhida assim que muda de cor, muito cedo, para as pitaias suportarem a viagem e chegarem cá em condições visuais mais apelativas para o consumidor provar. As pessoas provam, gastam muito dinheiro porque é uma fruta cara, e ficam desiludidas com a falta de sabor». Ainda segundo a jovem, o preço da pitaia está a rondar os 10 a 12 euros por quilograma.