Mar de agosto, na baía de Lagos, frente à barra de Alvor. Mar adormecido, fundindo-se com um céu ainda escuro mas já raiado pela luz que vai dissipando a madrugada. A lua é um ténue rumor que se vai desvanecendo.
O homem, em pé, pernas abertas para se equilibrar no bote, meneando as ancas ao sabor da ondulação calma de verão, vai alando fios e anzóis, de boia em boia, recolhendo o peixe, olhando, de quando em vez, o calão final, calculando as braças que ainda faltam, num ritmo comandado por braços longos desnudados que se revezam com mãos calosas.
De súbito, a sua atenção fixa-se numa puxada branca em torno do calão distante. O olhar aguça-se e perscruta o feroz remoinho que se gerou em volta do calão. Conduz o bote ao rumo das linhas, o olhar trespassando a distância na busca de compreender o sucedido.
Ao aproximar-se, o sobressalto da água, estranho e desusado, revela um vulto escuro que emerge, mergulha e rodopia, criando o turbilhão que envolve a boia.
O pescador reconhece a fêmea presa entre os nós asfixiantes, devido às repetidas tentativas de libertação.
O companheiro, macho, se a envergadura definir o género, rodopia, impotente, a sua ansiedade à volta da fêmea.
Num relance, o pescador compreendeu: os seios terão tolhido a fêmea imprudente e curiosa, os volteios que, depois, a cingiram, o desespero das piruetas, a briga desesperada e, por fim, a rendição.
A prisioneira já quase não se debate, mas o olhar do animal parece iluminar-se quando se cruza com o olhar do homem. A súplica e a esperança faiscam na mensagem dos olhares trocados.
– Sossega, menina! Sossega, menina! – A voz de Macário acaricia o torturado dorso. Lesta, a navalha, e ágil, o punho que a manobra, não para consumar a morte – como habitualmente – mas, desta vez, para abrir a liberdade e devolver ao mar quem ao mar pertence. Exausta, a fêmea hesita. O companheiro empurra-a com o focinho. O apelo da vida e do mar acaba por triunfar.
O pescador regressa à faina. Recolhidos os apetrechos, é tempo de regressar a terra, que ainda dista uma boa meia hora.
A viagem corria na placidez de quem navega em manhã de verão, sem perturbação marítima, quando um torvelinho de mar se agitou em torno do bote. Curvando-se sobre a água, Macário, estupefacto, não queria acreditar.
Dois golfinhos salpicavam a embarcação com estridente e alegre melodia, mergulhando e saltando, acompanhando o pescador, até à barra, no seu regresso a casa.
Ainda hoje, Macário recorda, num misto de espanto e alegria, o episódio dos golfinhos agradecidos.
Com frequência, parece que já vimos tudo, já sabemos tudo, já vivemos tudo. Mas, em certos momentos, somos desarmados pelo espanto.
Não resisto, por isso, a citar o poeta Tolentino Mendonça: Felizes aqueles que se alimentam do espanto interminável, porque esses sentem os momentos de promessa com que a vida os surpreende.
Manuel da Luz – Cidadão algarvio






