Sobre o Coronamedo: desangustiar é preciso

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1) Eminentes historiadores acreditaram que a expansão da ciência e do pensamento racional, aliada ao declínio do paradigma da magia, desde o século XVIII, levaria à redução proporcional do medo. Esta convicção refletia uma sensação de otimismo que caracterizou o século XX.

Com demasiada sobranceria, muitos contemporâneos pensaram que o mundo estava sob controlo e, portanto, o medo tinha sido conquistado devido aos avanços tecnológicos e científicos.

Mas, infelizmente, no século XXI, essa convicção manifestou-se desajustada.

Afinal, estamos obcecados pelo medo, pois os espaços de segurança têm-se revelado profundamente perigosos: a superbactéria Staphylococus aureus surge nos corredores dos hospitais.

Somos atacados de todos os lados por inimigos invisíveis e desconhecidos.

A radiação «vaza» silenciosamente para o meio ambiente.

Quando nos sentamos para tomar o pequeno-almoço, os nossos cereais podem conter quantidades perigosas do pesticida EDB (Brometo de Etileno), a bactéria Clostridium botulinum pode estar no nosso iogurte de morango, a salmonela pode estar nos nossos ovos.

O nosso café pode causar cancro no pâncreas.

O medo do crime é galopante.

As Alterações Climáticas não só mudam insidiosamente o nosso mundo como ameaçam a sobrevivência dos nossos filhos e netos.

Muitas pessoas sentem que já não conseguem calcular a seriedade das ameaças provocadas pela energia nuclear, a poluição ambiental ou o terrorismo.

E, agora, o Coronavírus, com uma dimensão dramática nunca vista nem prevista. O perigo parece estar em todo o lado. A arrogância do ser humano torna-se ridícula.

2) Mas a coisa é mais antiga, sem irmos à Idade Média.

Em Outubro de 1871, em Los Angeles, um boato posto a circular velozmente indicava que a comunidade chinesa da Calle de los Negros, uma viela pobre e miserável, estaria a assassinar «brancos» em massa.

Seguiu-se um dos mais brutais linchamentos da história americana.

Outras causas pesaram neste desfecho.

As populações brancas e mestiças sentiam-se ameaçadas com a presença de estrangeiros: constituiam uma força de trabalho fiável e de baixissimos custos, o que ajudou a provocar o decréscimo na oferta de emprego e a desvalorização dos salários.

Começa, por esta altura, o crescente sentimento sinófobo nos EUA.

Políticos conservadores, mas também organizações sindicais e a Associação Médica Americana defendiam que os imigrantes chineses eram portadores de germes que acabariam por liquidar as comunidades brancas. Foi o «perigo amarelo».

«The Russians are coming» tornou-se expressão popularizada enquanto forma de paródia sobre o medo soviético que tomou conta da sociedade norte-americana e europeia durante a Guerra Fria.

Foi o «perigo vermelho».

Se nos EUA o comunismo se apresentava como ameaça fundamental ao «modo de vida» americano e à civilização ocidental, em várias capitais europeias esse vento não soprava apenas do leste, vinha também da descolonização asiática e do temor da ascensão do nacionalismo africano.

O caso da revolta Mau-Mau no Quénia, nos anos 1950, ou o da libertação da Argélia, foram vistos pelo Ocidente como a projecção de uma ideia de luta entre a «civilização» e a «barbárie».

Pouca gente quis saber das razões profundas por detrás destes eventos: desigualdades sociais e económicas organizadas em torno da diferença étnica e cultural. Foi o perigo da «radicalização dos negros».

Em todos estes casos, funcionou o medo: a descrição do adversário como essencialmente fanático, imbuído do espírito de jihad, reduziu o ressentimento a uma «essência muçulmana» ou ao papão comunista e autorizou respostas violentas.

3) Os estudos historiográficos das emoções consagram a ideia de que o medo, o ódio, a alegria e o amor estão no centro da experiência humana, são inerentes à condição humana.

Mas, hoje, os nossos medos voltaram-se para dentro.

Foram convertidos em ansiedade e em angústia.

No caso do novo Coronavírus, começou a instalar-se a percepção de vários perigos: a infecção/saúde, a economia/emprego/desemprego, a segurança dos nossos familiares.

Entretanto, chega-se à conclusão de que, face à nossa história relativa ao modo com que lidámos com os medos, em vez de nos educar e tranquilizar, a revolução comunicacional das últimas décadas tornou-nos mais ansiosos.

Mas também é verdade que os media não podem ser culpados sozinhos.

O medo é manipulável por poderosos grupos de interesses que apostam em manter-nos amedrontados.

Por isso a luta contra o medo, no contexto desta pandemia, está também na ordem do dia.

Temos de ter consciência de que a situação é grave, mas sem cairmos no desânimo.

E penso que as Igrejas e os movimentos religiosos têm aqui uma palavra pedagógica indispensável: com fé e esperança, é preciso que cada um faça a sua parte, não pondo em risco a sua vida nem a do próximo.

Manuel da Luz | Cidadão algarvio