Refúgio Aboim Ascensão é «fortaleza cor-de-rosa» para as crianças

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Portões estão fechados, ninguém sai e do exterior apenas o pessoal entra no Refúgio Aboim Ascensão, em Faro. Ainda assim, o plano de contingência adotado é visto com inocência e imaginação pelas crianças da instituição que têm saudades de «andar de autocarro».

Por norma, o Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, está de portas abertas à comunidade, e muitas são as pessoas que entregam brinquedos, roupas, e tudo o que possa ser útil à crianças. Desta vez, contudo, é diferente.

«O nosso sistema de Emergência Infantil está pensado já com uma base de segurança que permite adaptar-se a outras situações que possam surgir. Temos uma unidade estruturada física e tecnicamente, que se ocorrer alguma dificuldade, desde logo procuraremos resolvê-la, com a Direção-Geral da Saúde (DGS) e a Segurança Social (CDSS – Faro). Nesta altura continuamos sem ter qualquer infeção declarada ou suspeitada. Temos um plano de contingência e as novas medidas foram adotadas consoante o ritmo do trabalho», conta ao barlavento, Luís Villas Boas, diretor do Refúgio Aboim Ascensão, que por sua própria decisão, fechou os acessos, no dia 12 de março, antes mesmo de ser decretado estado de Emergência nacional.

As visitas de pais e outros familiares foram suspensas e apenas as técnicas que diariamente trabalham com as crianças têm permissão para entrar e sair da instituição.

«Estamos numa fortaleza cor-de-rosa que apenas se abre para as técnicas. As crianças estão numa situação de proteção dupla, não saem e não têm visitas de ninguém», frisa.

Quanto a material de proteção individual, segundo o diretor, «temos o básico. A reserva de máscaras é pouca, mas temos todos os produtos de desinfeção. Trabalhamos com base técnica, além da confiança e da verificação. Estamos calmos e confiantes. Este período funciona como um intervalo para os pais e para as crianças. Para nós é que não».

Isto porque os mais novos continuam com o dia a dia, quase sem ter sofrido alterações.

«Continuam com as educadoras de infância, terapeutas, técnicas sociais e psicólogas. A vida do Refúgio, para uma criança de dois, ou três anos, é igual ao que era há três meses. Brincam, dormem, e ocupam-se como sempre, de acordo com as idades. Fazem desenhos, ouvem música, veem filmes e são-lhes lidas histórias pelas educadoras de infância e fazem terapias de acordo com o que já faziam antes. Não há nenhuma alteração funcional dentro do Refúgio», garante Villas Boas.

Em acolhimento, o Refúgio tem, neste momento, 68 crianças, na maioria com idade inferior a seis anos, sendo que metade são bebés com meses de vida. Os mais velhos (dos três aos seis anos), de acordo com o diretor, perguntam quando vão voltar a passear de autocarro.

«Têm saudades, mas dizemos-lhes que está avariado. A responsabilidade que temos é muito grande e temos noção disso. Para nós adultos, as crianças estão agora, mais que nunca, numa temporária fortaleza cor-de-rosa».

E se houver necessidade de acolher uma nova criança, o Refúgio está preparado para a colocar de quarentena? Villas Boas responde que é uma hipótese que «não está prevista e que não vai acontecer porque uma criança que aqui entre, já terá que ter a sua situação clínica devidamente rastreada».

Já quanto aos processos de adoção, «essa é uma responsabilidade da Segurança Social que, naturalmente, terá controlados os passos a dar após o surto epidémico», explica.

Por fim, o diretor da instituição chama a atenção para que, acima de tudo, o «nosso objetivo não se alterou. Desde 1985 que existimos como Emergência Infantil. Somos uma espécie de porta-aviões que há muito navega em águas turbulentas, mas que agora tudo faz e fará para enfrentar esta e outras perigosas e difíceis tempestades», garante.

«O nosso objetivo é proteger as crianças a todos os níveis que formos capazes, até que possam voltar para o colo dos pais, ou para outro colo que os Tribunais determinem. Estamos confiantes na nossa vigilância e que a sorte também protegerá estas e todas as crianças», conclui.