Quatro discos de 2019 que mostram a qualidade da música algarvia

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2019 está prestes a terminar e hoje, dia 31 de dezembro, é o momento certo para alguns balanços e fechos de contas.

A produção musical algarvia que ficou imortalizada através da edição de discos é, seguramente, um indicador adequado para avaliar o estado da criatividade cultural da região.

A redação do barlavento escolhe quatro CDs absolutamente incontornáveis para relembrar o que melhor se fez na música.

É verdade que o número de discos de raiz algarvia editado neste ano não é muito numeroso, mas em contrapartida destaca-se pela sua qualidade, criatividade e diversidade.

João Frade

João Frade, o jovem acordeonista que é hoje uma referência nacional, é também aquele músico multifacetado que acompanhou Mariza na sua longa digressão mundial e, simultaneamente, esteve envolvido em projetos musicais regionais como, por exemplo, Moda Vestra, Forró do Xerém e Marenostrum.

João Frade - CD homónimo
João Frade – CD homónimo

Em 2019, João Frade, natural de Albufeira, editou um CD homónimo que tem sido escutado e elogiado mundo fora.

Sobre o mesmo escreveu Paulo Pires, programador do Cine-Teatro Louletano: «o novo disco de João Frade reafirma e reforça, com vincada maturidade, tendências estéticas já enraizadas na identidade e percurso do inspirado(r) músico algarvio e, por outro lado, pisca o olho a alguns novos caminhos sonoros no sentido da adoção de uma linguagem ainda mais eclética e cosmopolita. Se a matriz etno jazz é incontornável neste álbum, a aproximação a um universo mais pop e a registos e esquemas minimalistas e repetitivos está igualmente presente nesta viagem exploratória por diversos imaginários e cores musicais em busca como que de uma pureza melódica».

António Branco, na Jazz.pt, escreveu que «este é um disco de horizontes largos e que confirma, se necessário fosse, a importância de acompanhar atentamente o percurso do acordeonista. Não é possível antecipar quais serão os seus próximos destinos e isso só pode ser bom».

Em 2018 João Frade tinha editado «Solilóquio» e em 2019 lançou igualmente «Morphosis», num dueto com o trompetista (também algarvio) Hugo Alves.

Na sua quase imparável atividade, João Frade estará no próximo dia 4 de janeiro de 2020 no Clube Farense, a tocar com Leonardo Tomich e Adriano Alves, num tributo a Toninho Horta.

E depois, no dia 30 de janeiro, estará em Loulé, no Auditório do Solar da Música Nova, nas Conversas à Quinta. Não faltarão, por isso, oportunidades para reencontrar João Frade no Algarve, ou até para o conhecer ainda um pouco melhor!

Marenostrum

A banda de Santa Luzia, Tavira, renasceu em 2019 com a edição do espantoso «Rua do Peixe Frito».

Depois de 10 anos sem qualquer disco, este é sem margem para dúvidas o mais interessante registo dos Marenostrum, sucedendo a «Arraia Miúda» (2009), «Almadrava» (2005) e «Estoy em Santa» (2001).

Rua do Peixe Frito - Marenostrum
Rua do Peixe Frito – Marenostrum

João Afonso Almeida, no blog da tradisom.com, afirmou ser este «um trabalho de grande fôlego que nos propõe uma lauta refeição musical, verdadeiramente gourmet, constituída por nada menos de onze lautos e opíparos pratos musicais, confeccionados com muito saber, amor e experiência».

«Rua do Peixe Frito» é um retrato musical repleto de sentido de humor e sentimentos, onde um Algarve popular vai desfilando para o total contentamento dos nossos ouvidos. Pena é que sejam poucas as oportunidades de ver os Marenostrum atuar ao vivo. Mas, em contrapartida, fica aqui um disco para ouvir, ouvir e ouvir…

Nelson Conceição

«Descobrindo-me» de Nelson Conceição, é outro disco de raiz algarvia lançado em 2019 e é indispensável escutá-lo. O músico natural da Bordeira, Faro, acordeonista de excelência e reputado professor, é talvez o melhor herdeiro da rica tradição bordeirense, vila que se assume como o berço do acordeão algarvio.

Descobrindo-me, de Nelson Conceição
Descobrindo-me – Nelson Conceição

O álbum, onde Nelson Conceição toca acompanhado por músicos como Paulo Machado, Ricardo Martins, João Pedro Cunha, Cláudio Sousa, Ivo Martins e Luís Henrique, e onde Cristina Paulo canta a inesquecível Charolesca, viaja por temas originais e temas recriados pelo acordeonista algarvio, que tem em João Barra Bexiga uma permanente referência musical e, especialmente, intelectual e filosófico.

São 11 temas, todos eles justificados pelo músico no próprio CD, com dedicatórias à avó, ao pai e ao filho, a professores e alunos. Nelson Conceição afirma: “fui à descoberta de mim próprio musicalmente, recolhendo as minhas próprias composições, fazendo uma análise ao meu percurso e tentando perceber aquilo que mais me toca e inspira quer na música quer na vida”.

E quem, nestes dias, quiser encontrar Nelson Conceição, basta ir até à Bordeira e às suas Charolas!

Moçoilas

Inês Rosa, Margarida Guerreiro e Teresa Silva são três belas moçoilas algarvias, por demais conhecidas pelos seus cantares que já soam há 25 anos e nunca deixaram ninguém indiferente.

O CD lançado em 2019, enriquecido por uma generosa tournée de muitos espetáculos dentro e fora das fronteiras portuguesas, foi a mais justa comemoração desse quarto de século e, também, da nomeação como Artista Figuras 2019 pelo Teatro das Figuras, em Faro.

MOÇOILAS - Atão porque não?
MOÇOILAS – Atão porque não?

Na justificação para a nomeação como Artista Figuras 2019, o Teatro das Figuras justificou que «surgidas em 1994 nunca deixaram de cantar e fazer sentir o Sul, com um vínculo especial com as gentes da serra do Caldeirão, dando voz a uma região que não se conhecia cantada, com um trabalho onde sempre conviveram rigor etnográfico, tradição, descontração, mas também modernidade e um subtil toque de originalidade».

O disco, que apresenta 14 temas, embora seja o último a ser apresentado nesta seleção de edições discográficas algarvias imperdíveis, em nada fica a dever aos três restantes. Vocal, polifónico, de canto a capella, cruza letras de requintada escrita com uma espiritualidade quase religiosa, uma revisitação da alma serrenha algarvia.

É um trabalho, afirmaram as Moçoilas, inspirado nos «cheiros da esteva e do rosmaninho, do poejo, dos ensopados e dos sabores das iguarias; os sons dos sítios, das vozes, das conversas, das canções» do Algarve interior transparecem neste álbum magnífico que, como os anteriores, se escuta e escuta vezes sem conta, sem nunca entediar.

Antes de «Atão porque não?» as Moçoilas já tinham editado «Qu é que tens a ver com isso?» (2006) e «Já cá vai roubado» (2001).