A forma de ser professor em mudança?…

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No passado mês de janeiro, o Rotary Clube da Praia da Rocha homenageou um professor de Portimão, num jantar bem concorrido. Independentemente do que se queira dizer quando se diz «professor», ficou bem claro que se tratava, ao fim e ao cabo, de reconhecer publicamente a figura do Professor como ator central no processo educativo, em interação com a escola e os alunos. Em tempo de desvalorização contínua da classe docente, sobretudo desde os tempos da troika, esta homenagem constituiu uma iniciativa cívica, pedagógica e corajosa. O poder político local, por seu lado, brilhou pela ausência, evidenciando, assim, o que pensa sobre a figura do Professor.

O papel das escolas e dos professores está a mudar. O trabalho de um bom professor já não é a distribuição de informações. Os estudantes das comunidades bem interligadas já têm ao alcance da mão os conhecimentos do mundo. Fazer o upload para os seus cérebros já de pouco serve como vantagem social. Hoje, a função dos professores é a de os ajudar a obterem essas informações, criticarem-nas, combiná-las e acrescentá-las, por meio do uso das suas pesquisas e da sua opinião.

Visto em perspetiva, o coro global de informações e de ideias, com os seus aspetos positivos e negativos, está a tornar-se num novo Renascimento. A impressão tipográfica, nos finais do século XV, deu origem ao romance, ao ensaio e ao panfleto; a digitalização, no século XXI, deu lugar aos blogues, aos canais do Snapchat, aos feeds de notícias, aos tweets e aos quadros do Pinterest e a uma variedade infinita de mercadorias digitais como as apps e os e-books. Na sua primeira década, a utilidade da Internet era, principalmente, a de disseminar informações, com rapidez e sem custos. Agora, com as suas possibilidades aumentadas pela generalização da banda larga e dos telemóveis, convida os utilizadores a colaborarem nos seus conteúdos (como o Quora para factos, o GitHub para codificação de software ou o Thingiverse para projetos de impressão em 3D), nos portais de notícias e opinião (como o The Huffington Post ou o Medium) ou em projetos científicos como o Open Tree of Life. Todas estas novas formas partilham uma característica comum: implicam uma mudança, pois somos desafiados a passar de assistentes a participantes, e de consumidores a produtores e distribuidores de conteúdos.

Estamos também a construir uma nova compreensão do que é um grupo. Podemos reunir-nos, sentir, falar e agir como grupo com maior facilidade, com maior poder e maior velocidade. Podemos ajudar-nos mutuamente a encontrar crianças perdidas ou, em tempo curto, obter ajuda numa situação crítica. Podemos saber mais sobre o que os nossos concidadãos estão a pensar e a sentir. Se o WhatsApp fosse uma nação, seria uma das de maior população da Terra, com mais de 2 mil milhões de utilizadores ativos todos os meses. No Facebook, mesmo que não nos conheçamos, um amigo do seu amigo conhece um amigo do meu amigo. Esta nova inteligência de grupo tem sido fundamental em muitos dos acontecimentos de maior relevo do século XXI: a Primavera Árabe, o movimento Occupy, a ajuda humanitária de iniciativa pública depois do furacão Sandy, o Acordo de Paris sobre as Alterações Climáticas e o êxito das campanhas políticas populistas nos EUA e na Europa. O vasto alcance destas atividades demonstra como o novo meio de comunicação digital pode inspirar desfechos positivos e negativos.

Neste contexto, ou apesar dele, como situar o professor? Faz sentido relembrar um bom exemplo. O escritor e prémio Nobel da literatura Albert Camus sempre soube reconhecer a imensa dívida e gratidão ao seu professor primário que lhe abriu horizontes dando-lhe a conhecer outra realidade, que intercedeu por ele junto da família pobre para que o deixassem continuar a estudar, conseguindo-lhe uma bolsa e lançando-o no mundo, permitindo, assim, que se revelasse um magnífico pensador e escritor. O professor – chamava-se Louis Germain – alimentava nas crianças a fome da descoberta, e sobre ele escreveu Camus no livro O Primeiro Homem: «Nas outras aulas ensinavam-lhes sem dúvida muitas coisas, mas um pouco como se engordam os gansos: apresentavam-lhes um alimento já confecionado e pediam-lhes que o tragassem. Na aula do Sr. Germain, sentiam pela primeira vez que eram alvo da mais alta consideração: consideravam-nos dignos de descobrir o mundo». Como se vê, o professor está do lado da criatividade e dos afetos. Ainda que haja saturação e dificuldade em lidar com o comportamento das novas gerações.