Pesca algarvia preocupada com escalada dos preços dos combustíveis

  • Print Icon

Subsectores da Pesca do arrasto, cerco e artesanal podem mesmo vir a parar, alerta Miguel Cardoso da Olhãopesca.

As cerca de 163 embarcações associadas da Olhãopesca já estão a sentir dificuldades nas contas e podem mesmo vir a ficar em terra, caso a «escalada» do preço do gasóleo verde continue a atingir preços recorde. «Este problema começou a verificar-se no final de 2021.

O movimento associativo nacional apresentou propostas ao Ministério do Mar e até foi implementada uma medida a curto prazo. Agora rebenta a guerra na Ucrânia e os preços dos combustíveis voltam a disparar», lamenta o dirigente associativo Miguel Cardoso, que não esconde a preocupação.

A verdade é que há um ano, o litro de gasóleo agrícola custava cerca de 50 cêntimos e atualmente custa perto de um euro.

«Cada vez que há um aumento há uma imediata quebra no rendimento dos armadores e pescadores. A pesca está numa situação mais débil em comparação com outros sectores, porque o peixe é comercializado num sistema de primeira venda em leilão, na lota, sempre, decrescente. A venda decorre da lei da procura e da oferta, de forma natural. Os produtores não conseguem controlar isto», e portanto não têm qualquer forma de aumentar o preço para compensar os custos da atividade, explica ao barlavento.

Miguel Cardoso adianta que «estão previstas medidas de apoio ao nível europeu, ao exemplo do que aconteceu durante a crise do gasóleo de 2008 e da recente crise pandémica, mas aguardamos» a sua implementação.

Por outro lado, foi pedida ao Ministério do Mar «uma redução da taxa de vendagem ao produtor, tal como aconteceu no final do ano passado, e a disponibilização do fundo de compensação salarial» da Pesca.

No entanto, «todas estas medidas só auxiliam até determinado ponto. Se isto continuar, a atividade será inviabilizada», a começar pelo arrasto, cerco e pesca artesanal. «Todos padecem do mesmo problema».

Para já, «não há qualquer interesse por parte do sector em parar. Queremos continuar a trabalhar de uma forma sustentável e viável», sublinha.

«Felizmente, o pescado tem mantido o valor em lota. Temos sido abençoados por uma valorização do peixe. O que nos parece é que desde o início da pandemia que existe uma maior procura. As pessoas preocupam-se mais com a alimentação. E há uma maior apetência para o consumo em fresco. A oferta é idêntica, embora, através do nosso plano de produção e comercialização de 2021, notamos que houve um ligeiro aumento das capturas, e de colocação em lota», refere. Agora, «se isto continuar e o governo não intervir, a atividade será inviabilizada», conclui.

Cogestão do Polvo é «difícil mas possível»

Ouvido pelo barlavento, Miguel Cardoso, dirigente da Olhãpesca, considera que a cogestão do polvo que está em cima da mesa, «é um bom modelo de gestão, que pode ser aplicado em pequenas comunidades piscatórias ou em pequenos nichos de pesca. Não quer dizer que não possa servir toda a região, mas é mais difícil. São mais de 200 barcos a trabalhar numa costa grande, há vários grupos de armadores e associações, o que torna a cogestão mais difícil de implementar pela via do consenso. Somos muitos a trabalhar em zonas diferentes, com especificidades diferentes. Um exemplo. Na costa ocidental, contestaram a paragem ao fim de semana, porque como aquela zona está mais sujeita a intempéries, se calhar, dá-lhes jeito poder aproveitar esses dias se estiver mar calmo. Mas creio que estamos no bom caminho para a aplicação de algumas medidas» deste processo participativo.