Nuno Bicho prepara nova investigação à alvorada da Humanidade

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Em entrevista ao barlavento, Nuno Bicho revela a sua experiência anterior em Moçambique e o que se propõe a estudar.

Investigador do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da Universidade do Algarve (UAlg) prepara-se para investigar, ao longo dos próximos cinco anos, a dinâmica das primeiras migrações do Homo sapiens, em África.

barlavento: Como se prepara uma expedição científica em África?
Nuno Bicho: Felizmente já tenho experiência anterior, adquirida noutros projetos que tiveram o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Esta bolsa vai ter um pouco mais de flexibilidade em termos administrativos, mas ainda assim há vários elementos que são complicados, sobretudo no que toca aos aspetos logísticos efetivos.

A segurança é uma preocupação?
É uma preocupação diária. Não nos preocupamos que venha um grupo armado atacar-nos, isso não tem existido nem tem havido problemas políticos. No entanto, vamos trabalhar em zonas que estão longe dos centros urbanos. Precisamos de alugar pickups, de arranjar sítios para acampar, ou alojamento onde for possível. Nunca tivemos acidentes, mas há sempre incidentes pois vamos para locais muito remotos. Sempre que possível, levamos as viaturas até ao limite para que não haja uma distância muito grande a percorrer a pé. No terreno, há animais selvagens perigosos. Na última vez recordo-me que houve um encontro com um elefante macho. Estávamos a trabalhar no Parque Nacional do Limpopo. Nesse ano, a direção do parque decidiu que tínhamos de levar um guarda. Era muito experiente. Avisou-nos para parar e protegeu a equipa. Noutras vezes houve pessoas que foram picadas por aranhas que tiveram infeções generalizadas e necroses, além do risco de contrair malária.

Esse não é, de todo, o lado romântico da arqueologia…
Não é nada romântico. Acampamos em zonas próximas ou dentro de vilas para não corrermos riscos. Por norma, ficamos próximos de onde há pessoas. E isso significa ter experiências muito interessantes.

Que tipo de experiências?
Um dos sítios que ficámos, no Niassa, era socialmente matriarcal. Ali não havia um régulo a impor as condições na região, mas uma rainha. Uma senhora velhinha, pequenina, com os seus 60 ou mais anos, que literalmente mandava em 20 mil pessoas da povoação e zona em redor (Maniamba). Tinha um olhar absolutamente impressionante. Nem precisava de falar. Nós, tudo o que fizemos no campo, foi porque tivemos a sua aceitação. Mas para isso tivemos de participar num conjunto de rituais mágico-religiosos…

Rituais mágico-religiosos?
Sim, mas repito, tudo muito pouco romântico. Numa outra zona (Lichinga), cuja ordem social era patriarcal, tivemos de ir ao sítio onde estava enterrado o antepassado mais antigo conhecido do grupo. Fomos de carro durante alguns quilómetros e depois abriram caminho com uma catana pelo meio da floresta. Muitos de nós usam protetores para as mordidas de cobra por cima das botas. Eu não uso e já vou explicar porquê. A determinada altura da caminhada, disseram-nos que estávamos a chegar à zona sagrada. Pediram-nos para tirar os sapatos. E lá fomos descalços pela floresta fora. Quer dizer, se tenho de andar descalço, porque é que me vou preocupar com as cobras? Uma vez no local, houve um conjunto de rezas e deixámos dinheiro, que naturalmente foi recolhido por quem tem o contacto com os antepassados. E no final, houve uma festa na aldeia…

Como é que um homem de ciência vê e participa em tudo isso?
Com perfeita normalidade. É, sem dúvida, a forma social e cultural de cada um dos grupos. Temos de ter a ideia que cada um de nós tem a sua cultura e as suas crenças. Não sou religioso, não tenho esse lado místico, mas tenho outros: acredito na humanidade. Se vou trabalhar nas zonas dessas comunidades, tenho de respeitar a sua forma de pensar, de sentir, de agir. Faz parte desta profissão. E mais. As bolsas do European Research Council têm uma secção dedicada à ética relacionada com os países em desenvolvimento. Como é que nós, do ponto de vista ético, lidamos com estes contextos. Tive de explicar qual o impacto positivo e negativo que a minha equipa terá e como os minoramos e contrabalançamos, por exemplo, do ponto de vista do ensino superior e da formação.

E há impactos negativos?
Sim, sem dúvida. Quando chegamos ao campo, vamos tirar fotografias, levamos equipamentos e tecnologias completamente diferentes. Claro que vamos ter um impacto negativo naquilo que é a estrutura social tradicional. Podemos considerar no nosso egocentrismo que vamos possibilitar a estas pessoas terem um conhecimento mais avançado, mas isso é uma perspetiva muito egocêntrica. O lado positivo é a riqueza cultural com que ficamos. Nem falo do ponto de vista arqueológico. Isto dá-nos uma grande bagagem sobre as diferenças culturais, pessoais, sobre aquilo que é importante para uma comunidade. Nessas cerimónias temos de financiar a festa. Na casa da Rainha comprámos o jantar. Estava quase toda a sua família presente e convidados, talvez 60 pessoas. Deve ter custado 20 ou 30 euros. Estamos a falar de carapaus, arroz e vinho tinto. Na outra vez, a festa foi no meio de uma vila. Vieram novos e velhos, toda a população. E o que fizeram? Um pote imenso de arroz doce. Pronto, lá está, um daqueles momentos difíceis. Havia pratos e canecas que alguém mergulhava no pote e depois eram passados de boca em boca.

E também teve de participar?
Eu fui o primeiro a comer, felizmente. Estávamos ali talvez uma centena de pessoas. Os pratos foram colocados no chão, junto aos cães, galinhas, crianças, tudo e todos a fazer as suas necessidades. Imagine, um prato cai no chão, abana-se e mergulha-se no arroz. Como é evidente, é muito frequente nas primeiras saídas de campo muitos de nós ficarmos doentes. Pura e simplesmente não temos defesas. O núcleo duro da equipa hoje já tem uma descontração diferente, mas mesmo assim…

Para quando a primeira viagem?
O projeto está aprovado mas ainda não iniciou. Espero que seja em janeiro de 2023. Irei a Moçambique para começar a preparar toda a logística.

E desta vez, onde vai trabalhar?
Tenho uma zona grande entre o Limpopo, onde já fizemos muita prospeção, e o Rio Save. Ainda terei de especificar as áreas. Tenho sítios arqueológicos importantes que já foram sondados e que agora precisam de ser explorados. E irei também para zonas novas.

Porquê o interesse em Moçambique?
O interesse, neste caso, alarga-se, do ponto de vista teórico e histórico. Como é que a nossa espécie chegou até cá? Basta olhar para mapas feitos por colegas meus para ver que há uma zona muito importante, sobretudo na África do Sul, com evidências muito antigas da nossa espécie, e desenvolvimentos culturais e tecnológicos que são muito relevantes. Essa mesma situação aparece na África Oriental, na Etiópia e na Eritreia. Portanto, teve de haver um contacto entre as duas zonas. E esse contacto é Moçambique, onde não há praticamente estudos sobre a Idade da Pedra. Recentemente começou a surgir informação do ponto de vista genético. Os dados apontam para que, há cerca de 100 a 70 mil anos, tenha havido um movimento migratório da África do Sul para a África Oriental. E que esse grupo sai depois para a península arábica e é a base para aquilo que nós somos hoje espalhados pelo mundo. Moçambique é a zona chave para se perceber se essa teoria está correta ou não.

Ou seja, está à procura das origens da humanidade?
Não. Nós já sabemos que há origens na África do Sul e na África Oriental. Agora, se de facto há um conjunto de pessoas que sai e se movimenta para dar origem aquilo que somos hoje, então, tiveram de passar por Moçambique. O problema é que os dados da arqueologia não dizem a mesma coisa que os dados da genética…

Como assim?
Neste momento, os dados arqueológicos não confirmam essa ideia. Talvez pelo contrário. Alguns dos dados arqueológicos que conhecemos parecem indicar o contrário. Por volta dessa altura, o que terá acontecido é uma movimentação de nordeste para sul. É isso que eu vou ver. Se de facto, os dados arqueológicos que existem, e que não são suficientes, se infirmam ou confirmam a teoria genética.

E como é que isso se verifica?
Através de um conjunto alargado de processos. Olhamos para os artefactos e vemos se há inovação, onde é que acontece e onde começam a surgir cópias. Conforme a distância aumenta, o tempo também aumenta e conseguimos ver a dispersão. Vamos também tentar encontrar evidências ao nível da antropologia física. Pode ser através de esqueletos ou de elementos genéticos nos sedimentos. Ou através do ADN ou das proteínas, podemos identificar as espécies. Aquilo que temos é uma bateria muito alargada de técnicas que nos vão permitir reconstruir (o passado). Temos recursos humanos, há meios técnicos e dinheiro. Mas não vai ser fácil. O projeto reúne um conjunto alargado de investigadores internacionais, a que se juntam oito novos elementos, quatro investigadores doutorados e quatro alunos de doutoramento.

Última pergunta. Esta investigação também é uma mais-valia para Moçambique?
Claro. Trabalhamos de muito perto quer com a Universidade Eduardo Mondlane, quer com Direção Nacional do Património Cultural que é a entidade que emite as licenças. Não só os relatórios dos nossos trabalhos acabam por ingressar nas bases de dados nacionais, como também vamos ter um impacto muito grande ao nível da formação. Em Moçambique há apenas três doutorados em arqueologia no país, sendo que um deles foi formado por nós. Em breve, o ICArEHB vai abrir bolsas de estudo internacionais para mestrados. Temos esperança que concorram jovens moçambicanos. Por outro lado, em Moçambique, há hoje uma preocupação com a preservação do património arqueológico e antropológico. Cada vez que há uma obra grande, e são frequentes e contínuas, há uma intervenção. Estamos a falar de uma economia pobre, que não faz investigação mas realiza os acompanhamentos de forma séria.

Uma missanga com 32 mil anos

Vista na palma da mão, à luz da janela de um gabinete da reitoria da Universidade do Algarve, no campus de Gambelas, em Faro, parece um objeto inócuo. Na verdade, é uma missanga com cerca de 32 mil anos, segundo a datação por radiocarbono. A missanga é feita em casca de ovo de avestruz, tem cerca de cinco milímetros de diâmetro e foi descoberta pelo crivo do professor Nuno Bicho, num sítio arqueológico, no Parque Nacional do Limpopo, em Moçambique. Mais precisamente num sítio a que os locais chamam «Txina txina», que em dialeto local significa «o local onde o rio dança» devido à geografia acidentada. «Poderá ter sido usada num colar, numa peça de vestuário, ou em adornos para o cabelo. Do ponto de vista da capacidade motora fina, quem a fez teria muita habilidade», comenta o académico.

UAlg deve continuar a apostar na internacionalização

Nuno Bicho, vice-reitor para a investigação e cultura da Universidade do Algarve (UAlg), considera que o Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB), do qual é investigador e fundador, fez um trabalho pioneiro na internacionalização da academia. «Chegar a este patamar foi sempre a nossa ambição. Formámos este centro de forma diferente de todos os congéneres em Portugal. É completamente internacional. Temos uma ligação institucional, afetiva, científica e profissional a um conjunto de pessoas que não são portugueses mas que trouxemos para trabalhar connosco. Foi uma estratégia» que no seu ponto de vista é para acarinhar. «Na atual equipa reitoral, temos a professora Alexandra Teodósio dedicada à internacionalização e o professor João Rodrigues dedicado à inovação. Passado um período economicamente muito complicado, temos agora alguma estabilidade. Tocar nestas áreas-chave parece-me absolutamente fundamental para o desenvolvimento» da UAlg.

Capacitar para vencer

Nuno Bicho, investigador do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da Universidade do Algarve (UAlg) ganhou uma European Research Council (ERC) Advanced Grant, no valor de 2,5 milhões de euros. É uma bolsa de cinco anos, que visa apoiar investigadores principais de excelência, com reconhecida liderança científica no seu campo de investigação. Neste caso será dinamizado o projeto «Dispersals» que pretender recolher dados arqueológicos, cronológicos e paleoambientais sobre primeiras migrações e dispersões da nossa espécie no continente africano e fora dele, e que resultaram na diáspora humana por todo o planeta nos últimos 100 mil anos.

Na história do ERC, esta é a primeira vez que, no mesmo ano e em qualquer área científica, um centro desta dimensão consegue obter três bolsas, uma em cada tipologia (ERC Starting Grant, ERC Consolidator Grant e ERC Advanced Grant), o que totaliza quase 6,5 milhões de euros, o que é um sinal de grande prestígio para a UAlg.

«Estas são candidaturas complexas que têm cânones muito específicos. Tivemos a ajuda inicial de uma firma com experiência que fez uma introdução ao processo», além de uma pessoa do ICArEHB dedicada a todo o processo. «Seguiu-se uma atividade muito intensa, ao longo um ano, para preparar os vários projetos a candidatar. Há duas fases. A primeira é a submissão das propostas, e apenas um número relativamente reduzido passa para a seguinte. Depois é necessário responder a uma entrevista complexa, de 25 minutos, feita remotamente. O que fizemos foi construir, dentro do centro e com apoio exterior, uma máquina de revisão que nos permitiu uma taxa de sucesso de 100 por cento», revela.
Apesar de as bolsas do ERC não serem recentes, «acontece que nunca tivemos capacidade de criar esta base. Os nossos colegas espanhóis têm muito sucesso porque já têm este tipo estruturas. Claro, que este trabalho-piloto funcionou bem e agora queremos estendê-lo a toda a universidade», revela.

Arqueologia atrativa sobretudo para estrangeiros

A Universidade do Algarve oferece um curso de licenciatura em Património Cultural e Arqueologia. Para Nuno Bicho, vice-reitor e investigador do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB), «ainda suscita interesse. Aquilo que acontece é que os jovens acabam por perceber que aquela perspectiva romântica da arqueologia é falsa. Sem dúvida que vou para zonas exótica. Mas há um risco associado e uma quantidade de trabalho físico e administrativo muito grande. Não é só ir passear e escavar. Se calhar, passamos o dobro ou o triplo do tempo a analisar materiais em laboratório e a escrever relatórios. Os alunos apercebem-se disso». Ainda assim, os cursos de mestrado e doutoramento em Arqueologia têm vindo a crescer. «O curso de doutoramento é internacional e lecionado exclusivamente em inglês. Nos últimos dois anos, pelo menos 75 por cento das candidaturas foram de estrangeiros e metade dessa percentagem são alunos africanos de Moçambique, Zimbabwe, Marrocos e Etiópia. É uma diversidade grande. Mas também temos americanos, espanhóis, franceses».

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