Nova plataforma digital SupERa do ABC ajuda lares a travar pandemia

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SupERa, a nova plataforma criada pelo ABC – Algarve Biomedical Center ajuda a interpretar a sintomatologia respiratória dos utentes das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) e dos Lares Residenciais, quer estejam ou não infetados com COVID-19.

Chama-se Plataforma de Suporte às Estruturas Residenciais (SupERa) e está disponível desde segunda-feira, dia 5 de julho, para que qualquer ERPI ou Lar Residencial do país, possa fazer o registo de forma gratuita na Internet.

Está a ser preparada há cerca de dois meses e meio na região e trata- -se de uma parceria entre o ABC – Algarve Biomedical Center, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

O objetivo é simples: detetar de forma precoce infeções do foro respiratório nos utentes, através do cruzamento de vários dados num único local para registo e monitorização dos níveis de saturação de oxigénio, temperatura, frequência respiratória e até sintomas que podem ser sinais de infeção por COVID-19.

«Há uma vigilância que pode ser feita e que pode identificar os casos de COVID-19 mais cedo, ajudando desde logo a uma monitorização correta dos mais idosos. O que esta plataforma irá fazer é ajudar os funcionários das instituições a interpretarem corretamente alguns sinais de dificuldade respiratória, de febre, sendo enquadrado na presença ou não de alguma sintomatologia ou das doenças prévias de cada utente, num algoritmo que analisa as variáveis e emite alarmes em três cores», começa por explicar ao barlavento, Nuno Marques, cardiologista e presidente do ABC.

«Se o alerta for verde, está tudo bem com o utente e não há sinal para preocupações. Se for amarelo, implica algum cuidado e atenção. É sinal de que há algo que já não está normal e é preciso cuidado. Já se for vermelho, os parâmetros indicam se deve ser contactada de imediato a linha da Saúde 24, ou em situações mais agudas, o 112», explica o presidente do ABC.

A plataforma requer registo diário, e para facilitar todo o processo a SupERa cria gráficos de monitorização para cada idoso, de maneira a permitir às instituições uma melhor perceção do histórico e da evolução do estado de saúde de cada pessoa a seu cargo.

«Por exemplo, no caso de uma pessoa que tem uma doença crónica, em que a saturação do oxigénio é, por norma, mais reduzida, só deve existir preocupação se o valor baixar. Isso é fácil de ver através dos gráficos e a plataforma está preparada para interpretar casos em que há doenças prévias. Só se houver uma alteração comparativamente a dias anteriores, é que é lançado um alerta. Com isto, estamos a dar uma ajuda prática às instituições, facilitando o processo dos registos contínuos, que ficam gravados e podem ser consultados ao longo do tempo. Isto é muito útil no seguimento das pessoas idosas em instituições», assegura Nuno Marques.

Quanto às vantagens da plataforma, de acordo com o médico, «são várias. Primeiro, tivemos o cuidado de preparar uma plataforma que é fácil de preencher. Os dados dos utentes, por exemplo, são colocados uma única vez. Em vez de se registarem em papel, as medições são colocadas numa única aplicação, o que facilita muito a gestão. Além disso, imaginemos que um dos utentes é internado porque tem uma complicação. Os gráficos podem ser impressos e entregues ao utente para que possa fornecer mais informação da sua situação clínica ao médico. A SupERa está preparada para qualquer dispositivo móvel. Pode ser usada em qualquer local e a qualquer hora, estando protegida com passwords. Por isso, cada instituição só tem acesso aos seus utentes », enumera o cardiologista.

Mesmo para os profissionais de saúde, «que às vezes têm dúvidas sobre se devem agir de imediato, ou não, têm um alerta gerado através do algoritmo da plataforma, que recomenda como devem proceder», detalha.

Por exemplo, a SupERa «está desenhada para que exista uma medição por dia, mas nos alertas amarelos, em que é necessário vigilância, aconselha a que se façam medições mais frequentes ao utente. Quando a temperatura ultrapassa os 37, 5 graus, a plataforma aconselha a que exista uma maior atenção a essa pessoa para ver se evolui para febre [37,8 no caso dos idosos]. É também um auxiliar para os profissionais de saúde. Há aqui uma noção do quadro clínico de todos os idosos porque a informação está toda numa mesma plataforma e apresenta-se de uma maneira muito mais facilitada. Além disso, as instituições podem controlar se foram ou não feitas as medições a todos os utentes. Isso dá uma grande segurança», acrescenta o responsável do ABC.

Ainda segundo Nuno Marques, a SupERa está também preparada para ser utilizada com outras doenças respiratórias que não apenas a COVID-19.

«As outras patologias respiratórias não são diferentes. Se um utente tiver uma pneumonia, os alarmes vão ser os mesmos, assim como os alertas, porque a plataforma está preparada para isso. Se um utente tiver a agudização de uma asma ou de uma bronquite, acontece a mesma coisa. Os algoritmos permitem que a aplicação esteja preparada para identificar situações agudas através de vários parâmetros».

E talvez a maior vantagem deste novo serviço, seja o potencial de futuro.

«Mesmo quando a pandemia de COVID-19 estiver controlada, poderá ser usada para monitorizar outras situações de vigilância respiratória dos utentes ao longo do tempo. Ou seja, tivemos desde logo a preocupação de não desenvolver algo que se esgote com a pandemia. Esperamos uma grande adesão por parte das instituições, até porque é um software útil, voluntário e sem qualquer obrigação», justifica Nuno Marques.

Outra das preocupações que o ABC teve na criação da SupERa foi a validação científica. «Esta ferramenta foi validada por vários colegas de pneumologia que, do ponto de vista respiratório, comprovaram os resultados dos algoritmos. A nossa preocupação foi criar uma ferramenta que dê o máximo de segurança aos utentes, às famílias e às instituições. Como base, seguimos dois estudos muito recentes sobre os cuidados a ter com os idosos. A plataforma está montada consoante as melhores evidências que temos hoje, tendo também em conta a pandemia. Em termos científicos, diria que está a usar o máximo de conhecimento disponível. E pode ser sempre adaptada» e atualizada. Para que nenhuma ERPI ou Lar Residencial deixe de usar a plataforma por falta de oxímetros, aparelho que mede a saturação de oxigénio no sangue, o acordo de colaboração entre o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o ABC e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, prevê a oferta gratuita às instituições que não os possuírem.

«Ficou desde logo definido que não era por falta de oxímetros que se iam deixar de fazer medições. Assim, adquirimos 2400 aparelhos de dedo para entregar às instituições que não os tenham. O nível de oxigénio é muito importante nestas questões respiratórias. Ainda para mais em situações como a da COVID-19, em que muitas vezes a pessoa até aparenta estar bem, mas o nível de oxigénio no sangue já está a diminuir. Do ponto de vista respiratório, esse é um sinal de alarme», explicita o responsável.

Todas as instituições que se quiserem registar na plataforma, basta acederem ao website da aplicação e esperarem a validação por parte da Linha COVID Lares do ABC, sediada no Estádio Algarve, no Parque das Cidades (Loulé/ Faro). Desde outubro de 2020 que a Linha tem vindo a fazer um trabalho «notável» de apoio telefónico às ERPI e os Lares Residências.

«A SupERa é para todas as instituições do país. Sempre que existir alguma dúvida na sua utilização, ou alguma dificuldade, temos a Linha sempre disponível 24 horas [707 20 70 70] por dia para dar apoio e ajudar. Às vezes, o que falta nestas aplicações é o lado humano. Alguém do outro lado que tire as dúvidas que possam existir do ponto de vista prático. Quisemos também colmatar isso», conclui Nuno Marques.

Portugal com uma das mortalidades mais baixa em lares

Na opinião de Nuno Marques, presidente do ABC – Algarve Biomedical Center, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, desde o início da pandemia de COVID-19, tem feito um «trabalho muito bom nos lares, mesmo em comparação a outros países europeus».

O responsável justifica: «somos dos países com a mortalidade mais baixa em lares, a nível europeu. Desde o início da pandemia, até à data de hoje, que o Ministério implementou medidas nas instituições como a testagem preventiva, a formação que foi dada e a criação da linha de apoio. Nós [ABC] também tivemos , e ainda estamos, a fazer cursos no país para preparar melhor as instituições e os funcionários para lidarem com esta situação da pandemia. Todas estas medidas, levaram a uma redução da mortalidade, comparativa com outros países europeus, tornando- nos um dos países com a mortalidade mais baixa».

Ainda segundo o médico, «isso é mérito de todo o acompanhamento e das instituições em si que aderiram muito a estas medidas. Têm tido muito cuidado com os seus idosos. Mas também houve aqui uma política cuidada para não termos um número de mortes tão alto como têm outros países europeus, que até têm sistemas de saúde que à primeira vista podemos dizer que podem ser mais eficientes que o nosso. Acho que houve aqui um grande cuidado e que o Ministério teve muito bem neste âmbito ao longo do tempo».

SupERa pode impulsionar «mudança paradigmática» nos lares

A Plataforma de Suporte às Estruturas Residenciais (SupERa) foi desenhada por Óscar Brito Fernandes, diretor do departamento de planeamento estratégico e políticas de saúde do ABC – Algarve Biomedical Center e coordenador da Linha COVID Lares.

Um trabalho, nas suas palavras, «intenso». «Compreendemos muito bem o contexto deste tipo de estruturas para idosos, que desde o início da pandemia não tinham foco da sociedade. Só nos apercebemos da intensidade com que a pandemia estava a afetá-las quando começaram a sair os números de letalidade.

Desde aí, temos sempre desenvolvido soluções que sejam adequadas às necessidades», explica ao barlavento. Surge assim a SupERa, uma plataforma pioneira em Portugal, a nível técnico, que «desenvolve também a abertura para o digital naquelas estruturas, onde existe alguma resistência devido ao tecido envelhecido dos profissionais das mesmas. Acreditamos que esta plataforma possa intervir nessa cultura e que podemos mudá-la, para que o digital possa ser uma mais-valia nesta altura, e também o início de uma mudança paradigmática » nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI).

Ainda na opinião do doutorando pela Faculdade de Medicina da Universidade de Amesterdão, «acredito que esta plataforma possa ser uma mudança nas ferramentas disponíveis para estas estruturas e que possa ser uma abertura para a sociedade se focar nas necessidades dos lares. Isto obriga-nos a nós, jovens, hoje em dia, a pensar no que queremos que seja a nossa velhice e como é que queremos ser recebidos e cuidados. Acho que é um diálogo que é importante que aconteça já».