Nova direção da Associação EXISTIR reinventa a instituição

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Cláudia Gonçalves está à frente da Existir, uma das maiores Instituições particulares de solidariedade social (IPSS) de Loulé, desde dezembro. O projeto maior é uma nova sede com um lar residencial para a deficiência.

barlavento: Como tem corrido a liderança neste contexto difícil?
Cláudia Gonçalves: A Existir existe há 26 anos. Esta nova direção começou as suas funções em dezembro. Encontrámos uma instituição um pouco fechada àquilo que é a realidade de hoje em dia. O nosso principal foco tem sido um aproximar à sociedade. Temos, neste momento, cerca de 150 utentes em formação, 50 funcionários e damos apoio alimentar a quase 400 pessoas. Temos uma Unidade de Reabilitação Profissional (URPE) e um Centro de Atividades Ocupacionais (CAO). A nossa área de intervenção é a deficiência e a ajuda a pessoas em dificuldades. A média etária dos utentes ronda os 40 a 50 anos. As famílias que os acompanham também já estão a chegar a uma idade mais avançada.

A deficiência é uma área com muitas carências no Algarve…
Exatamente. Temos uma lista de espera enorme. O atual edifício está adaptado mas começa a ficar muito apertado. Acusa desgaste e necessita de ser intervencionado. A nossa prioridade será a construção de um novo até porque precisamos de fazer um acolhimento residencial para os nossos utentes. A nova sede terá de ser construída de raiz porque queremos um edifício que seja 100 por cento acessível a pessoas em cadeiras de rodas, a pessoas invisuais, para que consigam mover-se com facilidade, inclusive pelo futuro acolhimento residencial, que queremos fazer junto. Além disso, terá que ser eco-friendly e eficiente do ponto de vista energético.

Quantas vagas terá no cenário ideal?
Estamos a pensar em 50 vagas, mas a necessidade é muito maior. Estamos também a considerar um segundo CAO.

Tiveram casos de COVID-19?
Sim, foi detetado um caso positivo numa funcionária e tivemos de tomar todas as medidas e fechar durante algum tempo. Conseguimos acautelar a situação salvaguardando os nossos utentes, que nunca ficaram sem o apoio da instituição.

Como é que surge o apoio alimentar?
Temos uma valência que é o banco solidário que articula com o Banco Alimentar e hipermercados do concelho para a recolha de alimentos. Recebemos muita roupa e outros bens de donativos e estamos sempre em articulação com a Câmara Municipal de Loulé para responder a situações de carência. Temos em todo o Algarve utentes e famílias que ajudamos. Há uma atualização quase permanente da lista de beneficiários e somos nós que fazemos a gestão e entrega às famílias dos nossos utentes. Não lhes pode faltar nada, esse é o nosso foco.

Quais as vossas principais necessidades?
A nossa frota automóvel está envelhecida. Transportamos todos os dias os utentes em carrinhas que deveriam ter melhores condições de segurança. Esse é um dos grandes problemas que também queremos resolver. Temos uma carrinha afeta ao nosso banco solidário, mas que não tem arca frigorífica e os alimentos ficam sempre em risco de se degradarem. É mesmo necessário uma refrigerada.

Além de Loulé, têm apoio de outros municípios?
Deveríamos ter, mas contamos sobretudo com o apoio da Câmara de Loulé. Já enviámos um ofício a algumas autarquias, mas ainda não responderam. Loulé tem sido incansável. O presidente Vítor Aleixo é muito sensível a esta causa e tem uma grande preocupação para connosco. Nas reuniões, o executivo mostra–se sempre disponível para nos ajudar. Não dizem coisas que não podem cumprir, mas percebem todas as nossas lacunas, mesmo na questão do edifício.

Trabalham em rede com outras instituições?
Quando comecei a perceber como estava a Existir perante as congéneres, tentei abrir o leque e dizer que estamos cá para todos juntos nos conseguirmos ajudar. Notei que a Existir estava um pouco isolada em si própria, no seu quintal, e as outras nos seus quintais. Não concordo com isso. Aprendi isto com o Dr. Villas-Boas [do Refúgio Aboim Ascensão] que uma instituição tem de se abrir e mostrar o trabalho que faz. Só assim ganha a confiança da sociedade.

No entanto, apesar da pandemia, há uma novidade na Existir, certo?
Sim é a nossa loja social. A Junta de Freguesia de São Clemente, na pessoa do presidente Carlos Filipe, cedeu- -nos um espaço. Vai abrir três dias por semana. Teremos roupa, calçado, mobiliário e brinquedos. As famílias carenciadas que estão sinalizadas não pagam. O público paga aquilo que achar justo pelo que quiser adquirir. Será entregue um recibo de donativo válido para IRS. Assim poderemos ajudar mais pessoas e colmatar as necessidades imediatas da população.

Os problemas sociais estão a aumentar no Algarve?
Temos notado isso. Trabalho na área social há muito tempo. Neste momento, temos muita da chamada pobreza envergonhada. A solução é burocracia mínima e incluir o maior número de pessoas possível na ajuda alimentar, onde temos referenciadas famílias de classe média ou média alta. Não sai ninguém da Existir sem comida, essa será sempre a minha prioridade. O Algarve ainda estava a recuperar de uma crise e agora mergulhou numa outra bem maior. O desemprego é assustador e as obrigações das famílias mantêm-se, ficando assim uma situação quase insustentável que piora dia para dia.

Também aderiram ao «Sopa para Todos»?
É um programa nacional, em que qualquer instituição pode aderir. É muito simples. Imagine que vem buscar, em take-away, uma sopa para si e deixa outra paga para alguém que precise. Nas redes sociais deixamos o nosso NIB e há pessoas que pagam, por exemplo, 20 sopas (cada sopa custa um euro). São contempladas quando a nossa cozinheira faz as refeições para dar às famílias carenciadas. Tem funcionado e muito bem.

Que outras valências?
No que toca ao refeitório social, temos uma ementa semanal. Servimos cerca de 30 refeições em média, mais que alguns restaurantes locais. As pessoas estão a aderir muito, gostam da comida e tem aumentado graças ao passa a palavra. Antes da pandemia fazíamos casamentos, festas e eventos. Também temos a lavandaria que é mais uma fonte de receita.

Reafirmar a Existir como «referência» nacional

Cláudia Gonçalves, presidente da direção da Associação Existir é socióloga na Câmara Municipal de Loulé. Trabalha na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) e esta ligada ao grupo de voluntários «Juntos somos melhores» que formou quando começou a pandemia de COVID-19. Faz parte da iniciativa «Abraçar a Missão de São Tomé e Príncipe» a convite do Padre Nuno Rodrigues, que neste momento tem em mãos o projeto de construção de uma escola em São Tomé. Pretende motivar os funcionários, estar perto de quem precisa, e lutar por uma Existir mais reconhecida enquanto referência nacional. Quer ainda firmar parcerias institucionais com os empresários de várias áreas para que os sócios tenham descontos nos serviços que presta. Os padrinhos da Existir são o músico André Sardet e os Anjos.