Nelson Fantasia, guardião dos mais raros postais do Algarve

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Natural e residente em Estoi, Nelson Fantasia, eletricista de profissão, é um dos mais importantes colecionadores de postais ilustrados antigos da região e do país.

Estima ter algumas dezenas de milhar. Além disso, soma muitas outras raridades, como cromos da bola e do ciclismo, garrafas de refrigerantes e latas de conserva, tudo com o cunho do Algarve.

A paixão vem de tenra idade. «Comecei aos 6 anos. Vivia no campo e fazia quilómetros a pé só para ir comprar os cromos da bola do campeonato português. «Este impulso de colecionar nasceu comigo. Não me perguntem porquê, não tenho explicação», diz, a brincar Nelson Fantasia, já com 50 anos de idade.

Mais tarde, adolescente, «os cromos ficaram um pouco de lado e dediquei-me aos selos. Juntava- me ao domingo de manhã, em Faro, n’ O seu Café com outros filatelistas. Recordo-me de um colecionador que costumava ir a Lisboa e que trazia selos e postais.

Houve quem começasse a interessar-se. Na altura, eu também os comprava a um senhor do Porto que um dia me enviou alguns postais do Algarve para eu vender» aos amigos da tertúlia domingueira. «Acontece que gostei dos postais de Faro. Guardei-os e apenas vendi os outros. Passado algum tempo, já tinha muitos e não aparecia nada de novo. Aborreci-me. E pronto, comecei a colecionar postais de todo o Algarve. A partir daí, levei isto mais a sério, tinha pouco mais do que 20 anos. Desde então, nunca mais parou», conta, e começou a hierarquizar as várias temáticas.

Juntar, acumular, organizar coleções subordinadas a um tema, encontrar outros postais ilustrados que não se sabia existirem, reorganizar tudo de novo de acordo com os novos interesses, é o quotidiano de Nelson Fantasia, que ocupa todos os seus momentos livres na busca por algo inédito. Hoje, a coleção de postais ilustrados de vilas, cidades, aldeolas e lugarejos do Algarve é uma das principais, entre os milhares que guarda com cuidado. A esta juntam-se diversos postais de terras do Alentejo, Fátima e outra sobre a cortiça».

O critério de seleção, contudo, não é apenas geográfico. Um exemplo prático tem a ver com o autor ou o editor do postal, a época em que foi publicado ou então, a partir dos finais do século XIX, com advento da fotografia, a autoria do fotógrafo que registou as imagens.

O colecionador de Estoi estima ter hoje dezenas de milhares de postais ilustrados. «Como tenho várias coleções temáticas, preciso de ter vários postais iguais. Muitos não têm qualquer interesse. São lotes que compro. Escolho os que interessam e os restantes são guardados». Não estão esquecidos, mas à espera. «Talvez um dia me interessem para uma nova temática qualquer que esteja a organizar», diz.

A vida de colecionador, quando levada a sério, é um pouco obsessiva, reconhece. «Há objetos que eu sei que existem. Não os tenho mas quero muito tê-los. Às vezes, quando os encontro, pago um pouco mais por eles do que realmente valem. Invisto naquilo quero muito ter. É um prazer. Não é uma questão de eu ter mais que os outros. Considero- me um colecionador que não mostra muito do que guarda, embora eu goste de mostrar coisas às pessoas que dão o devido valor aos objetos e às coleções», sublinha.

Por outro lado, «gosto de viajar pelo Algarve e pelo país», numa espécie de máquina do tempo, «através dos meus postais ilustrados. Sei que sou uma pessoa com mais cultura só por causa de cada um deles. Vejo as imagens e estudo a geografia e a história de cada uma das localidades. Acabo por encontrar informação que me ajuda a descobrir e compreender o contexto», afirma Nelson Fantasia.

Mesmo para quem se interessa por aquilo que hoje, no imediatismo da era digital, é praticamente um item em vias de extinção, Fantasia dá graças às plataformas online que servem os mais ávidos colecionadores.

Está sempre atento quer a sites de anúncios classificados, quer a outros mais especializados (como o delcampe.net) e aos vários grupos dedicados nas redes sociais. Conhece comerciantes de todo o país e, ainda assim, não deixa de marcar presença nas feiras de velharias da região, sobretudo na Fuseta e em Estoi.

Os grupos de aficionados e entusiastas que se encontravam em tertúlias e encontros informais de outrora, esses já se extinguiram.

«O Algarve é muito pequeno. A maioria das pessoas gosta de ver mas não valoriza nada disto. Não se importam de gastar centenas de euros por mês em tabaco ou em bebida, mas considera uma maluquice pagar dezenas de euros por um postal antigo e raro. Eu não passo fome mas entre um bom jantar ou um bom postal, sem dúvida que escolho comprar um postal», admite.

Já no final da conversa com o barlavento, Nelson Fantasia lança um inesperado desafio aos leitores.

«Alguém sabe qual das temáticas é mais difícil de colecionar? Os cemitérios. São postais raríssimos. Do Algarve apenas existe um de Olhão e talvez mais um ou dois. Alguém, por muito bonita que fosse a fachada, iria enviar tal imagem a um amigo ou familiar? Claro que não!», brinca.

Questionado sobre o destino a dar, no futuro, a tão vasto espólio, Nelson Fantasia manifesta-se, de novo, seletivo nas opções. «Gostava muito de publicar um livro sobre os postais ilustrados do Algarve. Sei que existe obra feita, mas é magrinha, pois não mostra mais de meia dúzia de cada terra. Por isso, estamos a falar em algo muito incompleto, porque existem postais que não estão nesses livros publicados e que são os mais raros, os mais valiosos e os mais interessantes», conclui.

Conselhos da praxe para colecionadores

Desafiado pelo barlavento a partilhar um pouco da sua experiência na arte de bem colecionar, o mestre de Estoi deixa três dicas fundamentais a quem está a iniciar- se ou já soma algum material. Primeiro: vale a pena tomar nota que os postais ilustrados mais interessantes são, em geral, os anteriores às décadas de 1970 ou 1980, a preto-e-branco (ou monocromáticos). E é de evitar um erro habitual: comprar muitos postais, muito baratos, e não adquirir apenas um ou dois devido ao preço elevado.

«Por exemplo, alguém que compra 20 postais a 1 euro cada, mas não compra 1 postal por 20 euros. Daqui por dez anos, os 20 postais não se valorizam, enquanto que o tal postal caro valorizou-se e pode valer 50 euros ou mais. Ou seja, um colecionador principiante tem a tendência para comprar em quantidade e não em qualidade. O que devia fazer é exatamente o contrário: preocupar-se com a qualidade, porque a quantidade virá com o tempo!». E também é importante ser um comprador discreto. «Ou seja, tentar não evidenciar grande interesse público por um determinado tema, para que os preços não aumentem. Há que escolher um tema para colecionar e ser persistente, ao longo de anos, em vez de variar os interesses e, se cair nessa tentação, nunca conseguirá ter uma coleção temática significativa. «As boas coleções não se fazem, vão-se fazendo e, se calhar, nunca estão completas!», conclui Nelson Fantasia.

José Castella de Sousa, um mistério por desvendar

Na coleção de Nelson Fantasia há uma série de postais que destaca pela invulgaridade. Não por ser visualmente bonita ou exuberante, mas pelas particularidades que os vários postais têm em comum.

São assinados por José Castella de Sousa, editor que se apresenta com um endereço postal de Lagos no verso de cada postal. É uma das mais recentes descobertas do colecionador de Estoi. Em poucas palavras, são postais monocromáticos, com fotografias de enquadramentos muito simples, por vezes até rudimentares, de ruas e casas de pequenas localidades a sul do Tejo.

Um aspeto interessante é que os seus postais apresentam quatro fotografias, associadas ao nome da localidade onde foram captadas, e em muitas das quais é visível um pequeno FIAT 126.

A julgar pela matrícula, com as iniciais FV, série emitida entre 1976 e 1981, este fotógrafo deveria ter estado ativo durante esses anos.

Na coleção de Nelson Fantasia há postais de Algoz, Alportel, Estoi, Estômbar, Messines e Santa Luzia, além de localidades no Alentejo e Ribatejo.

A verdade é que se sabe pouco sobre José Castella de Sousa, que deverá ter sido natural de Lagos ou residente naquela cidade, e por vezes também assinava como José Castela de Sousa.

Ouvido pelo barlavento, Francisco Castelo, fotógrafo e gestor da Fototeca Municipal de Lagos, afirma que «terá vivido no estrangeiro e quando regressou ao Algarve iniciou-se na edição de postais, tendo confiado a alguns amigos ter ganho muito dinheiro com essa atividade».

Fantasia, por sua vez, especula. «Ele teria percorrido o sul do país para fotografar as povoações pequenas, das quais não havia postais e onde as colocava à venda. Por vezes, eram publicadas em nome próprio, outras vezes em nome de estabelecimentos comerciais locais ou até de particulares. Além das séries mais antigas, monocromáticas, e que aparecem tanto a sépia como a azul e vermelho, há alguns postais mais recentes, já a cores, que devem datar da década de 1980».

Outro pormenor curioso é que José Castella de Sousa, manteve-se fiel ao estilo, mas não ao carro, pois noutras edições coloca no enquadramento um Austin Mini e por vezes um VW Carocha, quem sabe, de alguma ligação amorosa, desta vez, especulamos nós…

Episódios da vida romântica

Em décadas que já lá vão, as mais prestigiadas casas comerciais ou até os mais distintos particulares mandavam editar postais ilustrados, de tiragens reduzidas, que retratavam aspetos das suas terras. Alguns destinar-se-iam a serem vendidos nos próprios estabelecimentos, outros serviam para trocas de correspondência com clientes e amigos, outros para expressar votos de boas festas. O pequeno número de exemplares impressos, as ilustrações ou fotografias, a distribuição em circuito reduzido, os selos e carimbos, e até as mensagens manuscritas são motivos de enorme interesse para os colecionadores.

(Acima) Exemplo de um postal de uma casa comercial que deveria ter sido usado como cartão e para correspondência. Tem imensa informação, desde as marcas que a casa comercial Cabeçadas & Santos, Lda representava, quer as diversas filiais que mantinha no Algarve, as respetivas moradas, números de telefone e de telégrafo.

(Acima) Postal ilustrado que deverá ter sido comercializado num carnet, de onde os vários postais se destacavam pelo picotado. Foi editado pela Havaneza Republicana, de Lagos, que mantinha atividade comercial variada. A fotografia deverá ser de 1913, data visível na fachada, associada à publicidade do Almanach Bertrand. É um postal valioso não apenas pela sua raridade mas também pela vida quotidiana que ilustra.

(Acima) Postal de Boas Festas da Empresa Mercantil de Pesca, de Olhão, com uma tiragem por certo pequena, em papel fotográfico ADOX. Além das oito pequenas fotografias de Olhão, que eram a preto e branco, das sardinhas «Charleston» era impressa à parte, recortada e colada sobre o postal. imagem editores algarvios.

Nota da direção: O barlavento agradece ao Grupo Pestana o acesso à Pousada de Estoi para a realização das fotografias que ilustram este trabalho.