Camilo Lourenço em Loulé previu «desgraça a prazo» na economia nacional

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Jornalista financeiro moderou a Conferência da Ageas Seguros, na quinta-feira, dia 23 de maio, no NERA, em Loulé. Em entrevista ao «barlavento», à margem do evento, mostrou-se pessimista em relação ao rumo do país.

barlavento: De alguma forma, o seu trabalho tem influenciado a relação dos portugueses com o dinheiro?

Camilo Lourenço: Há quatro anos estava convencido que sim. Agora, não sei. Na altura da crise fazia muitos comentários na televisão. Agora que já não há crise, pedem-me menos comentários. Noto que, neste momento, os portugueses voltaram outra vez a abrir os cordões à bolsa, a endividarem-se mais e a adotarem comportamentos de risco que eu não via há quatro anos. A resposta tem duas partes. Em determinada altura, pensei que sim. Hoje, não tenho bem a certeza e estou muito preocupado com isso.

Podemos estar na eminência de um ciclo negativo?

O endividamento privado e o crescimento do crédito ao consumo são um bom exemplo. E há outro, que tem a ver com aumento do crédito à habitação. A economia é muito fácil de se perceber e é muito parecida com aquilo que fazemos no nosso dia a dia. A economia de um país depende de um denominador fundamental que são as contas externas, a relação com o que vendemos, o entrar e sair de dinheiro e aquilo que compramos. Este desequilíbrio provocou as três intervenções externas que tivemos até hoje. Em 1978, em 1983 e em 2011. Ora, como a troika nos obrigou a apertar o cinto, o consumo caiu muito. E portanto, conseguimos equilibrar as contas. Ao mesmo tempo, começámos a vender muito mais ao exterior. Antes da crise, as exportações pesavam 24 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) e quando terminou pesavam 41 por cento. Isto significa que aumentámos muito a nossa exportação. Isso ajudou a equilibrar a economia nestes últimos cinco anos. Em 2017 e em 2018 as coisas já estavam a dar para o torto. Em 2018 tivemos mesmo, outra vez, um défice da massa corrente. Isto não é preocupante, para já. Mas se olharmos para o primeiro trimestre deste ano, o défice já atinge 2,5 por cento do PIB. Eu quero recordar que, das três vezes que tivemos intervenção externa, este défice ficou nos 10 por cento do PIB. Durante vários anos foi isso que motivou a desconfiança do exterior em relação a Portugal. Que estamos agora muito longe disso, estamos. Mas o problema é que se começam a criar hábitos e nunca se sabe onde vamos parar. Estamos a cometer alguns erros que cometemos anteriormente e parece que não estamos a ver. Porquê? Eu sei que há gente que vai dizer que é do investimento, porque estamos a importar mais bens e equipamento para investir. Se assim fosse, ficava descansado, porque normalmente há um delay entre o que importamos de bens de investimento e o resultado na economia. Não é o caso. Os salários estão a crescer acima da inflação há três anos. Estou a falar dos salários de contratação coletiva que são a esmagadora maioria dos salários em Portugal. Salários a crescer acima da produtividade é a desgraça a prazo.

Isso não é um diagnóstico (muito) pessimista?

Pois, o problema é esse. É que o português tem tendência a confundir pessimismo com realismo e isso é um drama. Mais vale prevenir. Em 2011 não prevenimos, fizemos o contrário, em 1978 e 1983 fizemos a mesma coisa. É bom que percebamos que agora já não temos os instrumentos que tínhamos naquela altura como se viu em 2011 e por isso é que o aperto foi brutal.

Mas previa-se uma retoma como a dos últimos quatro anos?

Não. Porque tudo quanto era astro do firmamento, alinhou-se em nosso favor. Deus sabe porquê e isso é que denunciou a grande bonança que tivemos nos últimos anos.

Não é expectável que esse alinhamento celestial volte a abençoar-nos?

Há alguns sinais de que a coisa não está já a correr bem e já começa a haver um eclipse. Se falar com os fabricantes de calçado e de têxtil, eles vão dizer que já começam a ter problemas e isso é mau sinal. É melhor prevenir do que remediar.

Um conselho aos leitores?

Poupem! A poupança é o mais importante. Temos a mania que a economia cresce com o consumo, mas isso é uma estupidez. É uma coisa muito socialista achar que a economia cresce com o consumo. A economia cresce muito mais com a poupança porque é a poupança que alimenta o investimento e nós somos um país que precisa de investir. Veja-se o parque automóvel, é uma pancada que temos há muitos anos. Abusamos um bocadinho na compra de carros. Neste momento, por ano, já passámos, outra vez, os 200 mil carros. É uma coisa perigosa, até porque a maior parte é comprada a crédito ou a outras modalidades. Os carros são daquelas componentes que onde a maior parte é componente importada. Há muito pouca coisa ali que é portuguesa. Acelera a degradação das contas externas.

Um conselho geral?

O primeiro é poupem e o segundo é não deixem de estudar e de se formarem, que é um défice grave dos portugueses. Por isso é que há má produtividade.

Não trabalha cá no Algarve, mas conhece a nossa dependência no turismo?

O problema não é aqui, é sempre lá fora. O drama dos portugueses é que olham sempre para o seu umbigo e não percebem que estão integrados num movimento mais global de economias. Há muita gente a ir para norte de África, desde o ano passado. Enquanto não houver mais nenhuma desgraça que não seja um autocarro a explodir no Egipto, mas que envolva mortos, dificilmente aquilo inverte em trazer mais turistas para o Algarve. Isto é uma belíssima bofetada de luva branca, porque ouvi responsáveis do turismo português dizer, nos últimos quatro anos, que a melhoria do turismo em Portugal nada tinha a ver com as desgraças do norte de África.

Um conselho para o Algarve?

Não estragar. Se olharmos para o sul da Europa temos o sul de Espanha estragado, o sul de Itália estragado, uma parte de França horrivelmente estragada, ao contrário do que a maior parte diz e aquilo é uma vergonha. O Algarve é uma das poucas coisas fantásticas que resta, portanto é melhor não estragar mais, não fazendo novas Albufeiras. Vamos chamar as coisas pelos nomes. É melhor não repetir no Sotavento alguns erros que se cometeram no Barlavento, essa é a primeira. A Europa tem 530 milhões de habitantes que trabalham com uma moeda única e uma boa parte dessa população é envelhecida. Onde é que essa população gostava de passar férias e viver o resto da sua vida? Obviamente num clima quente, com sol, com boa comida, bons serviços e sossegados. Se calhar a oportunidade está aí e não só nos turistas no verão.

No início da conversa falou do crédito à habitação que está a aumentar e com preços exagerados, mas que alternativas temos? Como resolvemos este problema do acesso à habitação?

O arrendamento não funciona porque temos socialismo a mais há 45 anos.

Socialismo a mais?

Sim, que já vem do tempo do Salazar. O socialismo na habitação é uma criação do Salazar, que tinha muito de socialista, apesar de ser um ditador. Acha que faz sentido limitar rendas? Cobrar 28 por cento sobre as rendas? Limitar despejos? Alguém não paga e não é despejado? O senhorio está a fazer de Segurança Social? Quem tem de fazer isso é o Estado, não é o senhorio. No dia em que se tiver leis de arrendamento facilitadas, despejos quando as pessoas não pagam, sem ter de se passar anos no tribunal. No dia em que não se tiver 28 por cento cobrado sobre a renda, aí sim, vão haver muitos apartamentos disponíveis no mercado e é isso que faz baixar. Mas depois nós temos o complexo socialista. Se se ouvir o Pedro Nuno Santos, na última entrevista que deu, disse que ia pôr o Estado a competir com os privados na habitação para fazer baixar os preços. Isso é de malucos. Não há outro nome.