Jovens algarvios voluntários ajudam quem mais precisa

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Fazer compras, pagar serviços ao Estado, distribuir almoços e ir à farmácia. São algumas das tarefas que os voluntários realizam em Tavira e São Brás de Alportel, à população de risco, que devido à pandemia da COVID-19 não deve sair de casa.

Luís Santos, de 27 anos, chefe do Agrupamento de escuteiros 100 – Tavira, é um dos voluntários que presta serviço à comunidade nos dias difíceis que correm.

«Temos esta responsabilidade na sociedade, de agir perante as situações. Não faz sentido ver que está a acontecer um problema coletivo e estarmos parados em casa. O mínimo que podemos fazer é pôr-nos à disposição para o que possa ser necessário fazer», começa por explicar ao barlavento.

Segundo relata, foi o Agrupamento que tomou a iniciativa de contactar a União das Freguesias de Tavira.

«Dissemos que estávamos disponíveis para qualquer colaboração. Mais tarde, contaram-nos que estavam a desenvolver duas redes de voluntariado e pediram-nos para assegurarmos os almoços de algumas pessoas». Na maioria idosos, sinalizados pelo serviço de ação social da Câmara Municipal de Tavira, que devido a serem população de risco, não devem circular na rua, nem estar em contacto com outras pessoas.

«A informação foi transmitida à Junta e nós agora asseguramos a distribuição. De segunda a domingo recolhemos as refeições no refeitório da Cruz Vermelha e entregamo-las na casa de quem delas precisa. Neste momento, ajudamos quatro idosos, mas temos vindo a receber pedidos de mais», contabiliza.

Uma tarefa que tem a duração de apenas 40 minutos, mas que faz a diferença na comunidade. «São pessoas que vivem sozinhas. Nota-se que estão isoladas e que têm necessidade de falar» refere o dirigente.

«Da nossa parte, os escuteiros do Agrupamento, com idades compreendidas entre os 18 e os 56 anos, estão disponíveis para ajudar no que for preciso. Hoje é a distribuição de comida, amanhã pode ser outro tipo de serviço. Queremos é estar presentes e apoiar a comunidade», finaliza.

Em São Brás, um telefonema faz a diferença

No município de São Brás de Alportel, a ideia de fazer recados a idosos começou antes ainda de ser decretado o estado de Emergência em Portugal. Luís Gago, um estudante de hotelaria de 22 anos, desafiou a amiga Isa Vicente, uma jornalista de 28 anos e rapidamente criaram um cartaz para publicar nas redes sociais. «Teve centenas de partilhas, mas como sabemos que há população na Serra que não tem acesso a essa informação, contactámos um cidadão que lá vive, de forma a transmitir a mensagem aos vizinhos. Mais tarde, a Câmara entrou em contacto connosco e criou-se uma ligação. Eles estão a criar várias redes de voluntariado. Há muita coisa a ser feita na vila e muito bem feita» relata a jornalista ao barlavento.

Já com duas semanas de trabalho, como é o dia a dia dos jovens residentes no concelho? Isa Vicente responde: «para não nos expormos tanto, reservámos três dias da semana para o fazermos. Criamos a lista de compras e da farmácia, vamos aos supermercados, fazemos pagamentos ao Estado, já fui apenas entregar o jornal e até já levei um cão ao veterinário. No total, ajudamos cerca de oito pessoas. Sei que são coisas pequenas as que fazemos, mas quando entrei neste projeto sabia que se ajudasse apenas uma pessoa, já valia a pena», explica.

Isa Vicente.

Mas na opinião da jornalista, o número de pessoas parece ter aumentado nos últimos dias. Talvez pela confirmação do primeiro caso no concelho, no domingo, 29 de março. «Tive contacto de mais duas pessoas num dia. Acho que foi preciso acontecer aqui para as pessoas se resguardarem mais e perceberem que é real. Por isso, acho que vamos ter mais pedidos de ajuda».

De qualquer forma, parece que a comunidade que escolheu pedir auxílio dos jovens, está satisfeita com a prestação dos mesmos. «Os idosos estão assustados porque ligam a televisão e as notícias são sempre sobre o novo Coronavírus. Quando nos veem querem abraçar-nos, mas eu até já lhes ensinei um cumprimento apenas com os pés. Há pessoas a quem telefono todos os dias só para saber se está tudo bem. Só de me ouvirem ficam logo contentes. Custa-me muito não receber um abraço, mas não dá».

Autarquia de Tavira orgulha-se da iniciativa dos jovens

Na União das Freguesias de Tavira – Santa Maria e Santiago as ações para ajudar a comunidade senior começaram a ser tomadas pela própria autarquia, que se encarregava de transportar as compras à população do barrocal. O contacto por parte de um grupo de jovens, contudo, fez toda a diferença. «Vieram ter comigo a disponibilizar-se para o que precisássemos. Conseguimos assim alargar o nosso campo de ação. O que fazíamos no campo, fazemos agora também na cidade com a ajuda destes jovens», conta ao barlavento José Mateus Costa, presidente daquela União das Freguesias.

Segundo o responsável, foi disponibilizada uma verba de 200 euros de fundo maneio e a lista de contactos aos voluntários. «Eles fazem as compras e depois entregam às pessoas. As coisas estão a funcionar bem e temos tido muitos pedidos».
Por parte do Agrupamento de escuteiros, que também contactou a Junta de Freguesia de Tavira, mesmo antes de lhe ser solicitado ajuda, «trabalham com o protocolo entre a Cruz Vermelha e a Câmara Municipal de Tavira. Todos os dias, vão buscar as refeições quentes, por volta do meio dia, e entregam-nas. Neste caso, temos já uma lista com o pedido de 12 pessoas», explica Costa.

Por fim, questionado sobre a atitude dos voluntários da sua comunidade, o presidente diz não ter ficado surpreendido. «Reconheço neles uma enorme capacidade de solidariedade e de entreajuda. Vejo-os com qualidades incríveis e esta atitude veio mostrar isso mesmo. Se precisarmos de mais jovens, temos já uma lista com nomes, que a qualquer momento lhes posso pedir ajuda porque estão disponíveis. É uma atitude fantástica e um orgulho para a autarquia».

São Brás já produziu e entregou 100 viseiras a lares

No concelho de São Brás de Alportel, o número de pessoas a voluntariar-se e a oferecer ajuda a quem mais precisa, tem vindo a aumentar, segundo confirma ao barlavento Marlene Guerreio, vice-presidente da Câmara Municipal. «A primeira fase que tivemos foi a de acolher as iniciativas, organizar e coordenar. Começámos a receber, e isso é de louvar, muitas pessoas a quererem colaborar com iniciativas muito interessantes, nomeadamente de jovens a quererem ajudar os vizinhos», refere.

A destacar-se, Guerreiro fala do clube de robótica do Agrupamento de Escolas José Belchior Viegas, a cargo do professor Vítor Gonçalves.

Marlene Guerreiro, Vice-presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel.

«Estávamos atentos às iniciativas nacionais e, quando desafiámos o clube, percebemos que já se encontravam a fazer viseiras e que até já integravam uma rede de makers nacional. Mais tarde, tivemos conhecimento de outro jovem, que também possuía uma impressora 3D e que por sua conta, também já estava a fazer aqueles equipamentos. Pusemos os dois a trabalhar e damos-lhe toda a ajuda possível. Neste momento, já lançámos um apelo solidário e estão já encomendadas cerca de meia dúzia de impressoras 3D que irão melhorar e aumentar a produção». Com apenas alguns dias de trabalho, foram já produzidas cerca de uma centena de viseiras, que foram oferecidas aos cuidadores dos dois lares de terceira idade. «Os pedidos são muitos e de todo o lado», revela Marlene Guerreiro.

A autarca realça também o apoio a ser dado ao lar da Santa Casa da Misericórdia. «Já tinham duas linhas de trabalho e acharam por bem criar uma terceira. Lançámos esse apelo e em poucas horas foi possível reunir o primeiro grupo, que já teve ações de formação. Até temos um profissional de saúde que se associou. Em relação à comunidade, a representante da autarquia diz que é «extraordinária, de louvar e que está de parabéns pelas iniciativas e pela forma como responde aos apelos».