José Maria Neves firmou laços de Cabo Verde com Faro e Loulé

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Presidente da República de Cabo Verde esteve na Universidade do Algarve (UAlg) e foi também recebido pelos autarcas de Faro e Loulé.

José Maria Neves, Presidente da República de Cabo Verde, esteve no Algarve no sábado, dia 30 de julho. O estadista veio acompanhado pela esposa, Débora Carvalho, pelo Ministro das Comunidades, Jorge Santos e pelo embaixador extraordinário em Portugal, Eurico Correia Monteiro, entre outras individualidades.

Durante a manhã, a comitiva cabo-verdiana foi recebida no campus de Gambelas da Universidade do Algarve (UAlg) pelo Reitor Paulo Águas e membros da equipa reitoral, diretores de faculdades e escolas, bem como por docentes e investigadores da academia algarvia.

«Há uma vontade firme de serem criadas parcerias, de se tecer uma rede para apoiar os diferentes pilares da estratégia de Cabo Verde para a política voltada para o mar. Com a UAlg, enquanto espaço de produção de conhecimento e de formação, há enormes potencialidades de trabalho. Por isso, queríamos abrir avenidas no sentido de reforçarmos as relações, ir muito mais longe e também ir muito mais depressa», disse José Maria Neves aos anfitriões.

Por sua vez, Paulo Águas prometeu empenho. «O objetivo é de capacitar este país que sentimos como irmão, com enorme afinidade e contribuirmos para conhecer melhor a riqueza que Cabo Verde tem, através da investigação».

José Maria Neves reuniu-se também com Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro, município membro da Rede Intermunicipal de Cooperação para o Desenvolvimento (RICD). O edil farense referiu-se à Nova Estratégia da Cooperação Portuguesa 2030 (que se encontra em período de consulta pública), a qual espera que venha a reforçar ainda mais os laços com os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Abraço louletano

Em Loulé, José Maria Neves viu, por um lado, o amor das pessoas à sua terra natal, e por outro o apego a uma cidade que os acolheu ao longo dos anos. «Senhor Presidente, Loulé é terra sabi (terra boa em crioulo)», disse Lídia Silva, um dos principais rostos da comunidade cabo-verdiana de Loulé, durante um encontro no Centro Paroquial. Depois de uma sessão protocolar nos Paços do Concelho e de uma visita aos Banhos Islâmicos e Casa Senhorial dos Barreto, a diáspora deu as boas-vindas ao seu governante, de forma entusiástica e emocionada.

Em representação da comunidade, Filomena Varela, expressou essa ligação que todos continuam a ter ao seu país. «A diáspora cabo-verdiana continua a ser Cabo Verde em qualquer parte do mundo. Somos pessoas de muito trabalho, mas a nossa terra está sempre no pensamento e no sangue».

Segundo Vítor Aleixo, autarca de Loulé, que há vários anos acompanha estes cidadãos, foi há mais de meio século que chegaram os primeiros cabo-verdianos, aquando da construção da fábrica de cimento da Cimpor, o que veio «agitar a vida da pacata vila de então. Esse foi o início de uma história com momentos muito felizes», recordou. «Desde então, esta comunidade não parou de aumentar, dando um contributo ativo para o desenvolvimento económico, social e cultural deste território», disse. Um contributo que deu nomes da vida cultural, social e religiosa algarvia como o músico Dino D’Santiago ou o vigário-geral Carlos César Chantre. Mas também «cidadãos anónimos» que laboram nos sectores da restauração, hotelaria ou construção civil, e que são exemplos da «preciosa participação da comunidade cabo-verdiana, da sua inserção e cooperação para o prestígio e reconhecimento nacional e internacional» de Loulé.

Emocionado com o contacto com os compatriotas radicados no Algarve, José Maria Neves elogiou o carinho como os cabo-verdianos são tratados, mas também a preocupação com as questões da preservação do património histórico ou o caminho da sustentabilidade e a preocupação ambiental que encontrou em Loulé, matérias que se perspetivam como eixos de desenvolvimento do seu país.

O Presidente da República de Cabo Verde enalteceu que «somos um país aberto com uma alma do tamanho do mundo», agradecendo o aumento das remessas durante a pandemia. Se em 47 anos de independência, Cabo Verde cresceu muito do ponto de vista político e institucional, «com uma democracia exemplar», a realidade é que a população ainda anseia pelo crescimento socioeconómico. «Temos as nossas dificuldades e os nossos desafios», assumiu o Chefe de Estado, elencando a seca severa, a escassez de água, a desertificação ou os problemas com a atividade turística, «motor da atividade económica», que surgiram com a pandemia, como os principais pontos negativos da atualidade. Neste contexto, José Maria Neves adiantou que estão a ser criados «novos patamares de participação da diáspora no processo de desenvolvimento do país».

Também o relacionamento entre os municípios cabo-verdianos e portugueses, consubstanciado através de acordos de geminação, poderão ser importantes para esse esforço. Nesse sentido, José Maria Neves deixou o apelo para o reforço dessas iniciativas.

Por fim, o estadista recebeu das mãos do autarca de Loulé a «Chave do Humanismo», uma peça concebida pelo Loulé Design Lab e que apenas foi atribuída a José Ramos Horta, atual Presidente da República de Timor Leste e Nobel da Paz em 1996, e ao primeiro-ministro António Costa.

José Maria Neves fez uma visita oficial de cinco dias a Portugal (de 27 e 31 de julho), a primeira, depois de ser eleito em outubro de 20221 e ter tomado posse no mês seguinte, realizada a convite do Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa. De referir que Loulé está geminado com Boa Vista desde 1999.

Consulado muda-se para Loulé

O embaixador de Cabo Verde em Portugal, Eurico Monteiro, anunciou que em breve Loulé terá um Consulado e um Cônsul de Cabo Verde no Algarve, após algumas questões levantadas pela comunidade sobre esta matéria. Este responsável diplomático, que também integrou a comitiva que acompanhou o Presidente da República, disse que o Consulado no Algarve, sediado em Portimão, vai passar em breve a funcionar em Loulé, área onde residem mais cabo-verdianos que, até agora, tinham alguma dificuldade em tratar dos seus assuntos devido à distância do local. No entanto, o embaixador sublinhou que este será um Consulado criado em moldes diferentes, até porque os serviços digitais prestados vieram agilizar os processos. A vertente da diplomacia económica, a ligação com o tecido empresarial e diplomacia política, serão duas componentes importantes do futuro Consulado.

Estudantes queixam-se dos vistos e de falta de alojamento

Antes de terminar a visita à Universidade do Algarve, José Maria Neves e a sua delegação teve um encontro com um grupo de estudantes cabo-verdianos que não esconderam as suas preocupações. A demora em conseguir o visto e a falta de alojamento estudantil, em Faro, foram as principais queixas. Paulo Águas, contudo, adiantou que a academia vai ter em breve, nova oferta para os estudantes.