Governo volta a ponderar ligação Portimão – Tanger

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Ponte marítima com o norte de África será discutida na próxima Cimeira entre Portugal e Marrocos, a realizar ainda este ano.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, João Cravinho ,está a trabalhar numa agenda bilateral com Marrocos, segundo revelou aos jornalistas no sábado, dia 28 de maio, durante a inauguração dos Banhos Islâmicos de Loulé.

«Temos ambições no plano cultural para uma carta de estudos luso-marroquinos. Há várias temáticas da atualidade, como a energia e a mobilidade, em que Portugal e Marrocos estão a trabalhar em conjunto e para as quais têm ambições muito significativas. No âmbito da energia, queremos criar uma interligação elétrica entre Marrocos e o Algarve, e com o resto do país, já a pensar no hidrogénio verde e nas energias livres de carbono. São ambições que podem fazer de Portugal e Marrocos uma grande ponte entre África e a Europa, e responder a algumas das necessidades mais prementes do nosso tempo, quer seja no plano da organização das nossas economias, quer seja no plano geopolítico», anunciou.

«A mobilidade é fundamental. Queremos também, finalmente, ter uma uma ligação marítima entre o Algarve e Tanger. Estamos a trabalhar na retificação e já está assinado um acordo para a permanência de marroquinos em Portugal e de portugueses em Marrocos, e que irá facilitar o fluxo de pessoas entre ambos os países, porque em última instância, é isso que conta para a sedimentação das relações entre os nossos povos», acrescentou.

Questionado sobre se esse acordo estará relacionado com os episódios de marroquinos que têm vindo a dar à costa algarvia, o governante respondeu aos jornalistas que «não existe razão para que haja migração ilegal. O que estamos a fazer é criar mecanismos legais e legítimos que permitam a estadia e superar os problemas da ilegalidade. A nossa expetativa é que haja uma intensificação do fluxo».

Em relação aos transportes de mercadorias e passageiros por mar, «estamos a apontar para a realização de uma cimeira entre Portugal e Marrocos ainda este ano, e esse será um dos grandes temas. Há vários fatores a ter em conta. A criação de uma fronteira marítima precisa de ser trabalhada com o Ministério da Administração Interna. Por norma, as ligações são asseguradas por agentes privados que também precisam de ser envolvidos na discussão. Mas estamos de acordo, os governos de Portugal e Marrocos, quanto à desejabilidade» da ligação marítima.

«Pensamos que nos próximos meses teremos capacidade de juntar os vários elementos para tornar esta travessia uma prioridade. É uma prioridade, mas não é a única, porque o nosso relacionamento é rico e variado», sublinhou o ministro.

Quanto à localização, «temos vindo a falar em Portimão, mas há várias possibilidades e quanto a isso, os operadores privados também serão chamados a dar a sua opinião», disse ainda.

Sem discurso preparado, João Cravinho não poupou elogios à recuperação dos Banhos Islâmicos de Loulé. «Este momento vem na senda de um trabalho que tem vindo a ser feito ao longo das últimas décadas de reconhecimento da nossa herança islâmica como parte fundamenta daquilo que somos hoje. É um processo recente. O que aprendi na escola tinha a ver com Visigodos e Suevos. Eram esses os termos repetidos ano após ano. E depois havia os mouros que nós combatíamos e combatemos até os expulsar do território que é nosso. É evidente que hoje soubemos desmontar essa narrativa absolutamente falsa e profundamente empobrecedora daquilo que herdámos da nossa interação com povos árabes anterior ao século XII e XIII», sublinhou.

O ministro lembrou que se aproxima a celebração dos 250 anos do tratado de paz com Marrocos, «que teve a ver com a saída de portugueses de Mazagão», a última praça-forte naquele país. «Vemos ao longo da costa marroquina vestígios importantíssimos da arquitetura militar portuguesa e deste intercâmbio que foi feito ao longo dos séculos», desde a conquista de Ceuta em 1415 até à evacuação da cidadela de Mazagão em 1769 e à assinatura do tratado de paz em 1774.

«O que me interessa é trazer essa realidade para o presente e projetá-la para o futuro. E é isso que tenho procurado fazer ao longo destes dois meses», disse. Em breve, Cravinho irá acolher o homólogo Nasser Bourita, em Lisboa. «Existe a tradição de organizarmos cimeiras que foram interrompida devido à pandemia e que urge retomar dada a riqueza daquilo que é possível fazer entre os nossos dois países», concluiu.

Guerra na Ucrânia: «não é possível ser otimista sobre um fim rápido do conflito»

Aos jornalistas, João Cravinho, ministro dos Negócios Estrangeiros, disse estar a acompanhar os últimos acontecimentos no leste «com profunda perturbação. A invasão ilegal, sem qualquer tipo de justificação, da Ucrânia pela Rússia, vem provocar um distúrbio imenso no relacionamento internacional que passa não só pela existência de guerra no continente europeu, que queremos que termine o mais rápido possível com a reposição da normalidade e legalidade, como também provoca danos tremendos no circuito de bens alimentares».

«A circulação de bens alimentares entre a Europa e África está muito perturbada. Estamos muito preocupados com as consequências para o continente africano, estamos a trabalhar no sentido de ver se é possível constituir corredores humanitários para o escoamento de produtos agrícolas a partir da Ucrânia. Estamos, infelizmente, numa fase em que não é possível ser otimista sobre um fim rápido para a guerra, mas do lado europeu, quero sublinhar um grande sentido de unidade e de compromisso em relação a outras partes do mundo para que sejam o menos perturbadas possível pelas consequências da guerra», referiu.