Francisco Oliveira, fotógrafo de Portimão, morreu aos 101 anos

  • Print Icon

Centenário faleceu na madrugada do dia 7 de setembro. O funeral realiza-se no dia 9, às 15h00, no cemitério de Portimão.

Num depoimento recolhido por ocasião de uma Exposição na Casa Manuel Teixeira Gomes, em setembro de 2010, Oliveira escreveu: fotografei três gerações. Ainda hoje acontece passar por pessoas que vão acompanhadas pelos seus netos, dizendo “Olha, foi este senhor que me tirou o retrato quando eu tinha a tua idade, o que me orgulha. No estúdio, em retrato, fotografei todas as camadas sociais, proprietários, advogados, médicos, industriais, comerciantes e militares. Acompanhei a vida de cidade e da região. Fotografei cerimónias e casamentos, nas igrejas dos concelhos de Portimão, Monchique, Lagoa, Silves e Lagos. Sempre a convite dos noivos ou familiares, e não foram poucos, quase um milhar em todas as camadas sociais. No campo económico e social procurei sempre cumprir com os compromissos e deveres, sendo amigo do amigo. Este é o meu retrato de corpo inteiro. Como homem e cidadão quem sou eu para me julgar?».

Francisco Oliveira testemunhou e eternizou os momentos mais felizes das vidas dos outros, comoveu-se com o crescimento da sua cidade nos seus altos e baixos, deambulou pelos cais de azáfama e desalento, perscrutou os mistérios das rochas, abraçou o casario ao longe e soube como poucos guardar na sua alma de câmara clara os positivos de uma vida imensa.

De acordo com o registo de nascimento, Francisco d’Oliveira nasceu às 11h00 do dia 25 do mês julho de 1918, em Estômbar.

Seu pai, António Simplício, tinha 39 anos era natural de Palmela, concelho de Setúbal e trabalhava como limpador de máquinas, nos Caminhos de Ferro.

A mãe chamava-se Maria das Dores, doméstica, natural de Estômbar, tinha 20 anos.

O casal vivia numa casa da antiga rua por detrás da Igreja Matriz de Estômbar, atual rua Coronel Manuel Gregório Rocha.

Terá sido ali que Francisco Oliveira nasceu e morou até aos quatro anos.

Na sequência da violenta epidemia de gripe espanhola ou pneumónica, o pai falece quando Francisco tem apenas um ano de idade.

Em 1922, sua mãe casa de novo com Joaquim de Lagos um trabalhador da Conserveira Bivar & Companhia.

A nova família vive precariamente junto à fábrica e, pouco tempo depois, muda-se para uma casa na Rua de S. Pedro (antiga estrada de Lagos), ao pé da passagem de nível da CP em Vila Nova de Portimão.

Completados os primeiros estudos era tempo de escolher um ofício que garantisse o seu futuro e contribuísse no presente para ajudar a suprir as carências do lar. Assim, o jovem Francisco Oliveira torna-se ajudante de Vitorino Fonseca Dias (1874-1959).

De seguida, o jovem Oliveira passa a trabalhar na rua Miguel Bombarda, n.º 119, atualmente Rua Dr. João Vitorino Mealha, na Fotografia Santos, propriedade da família Santos e na Rua 5 de Outubro n.º 29 (antiga rua da Guarda), no estúdio de fotografia «Foto-Cinema F. Santos», propriedade de Francisco Santos, cunhado de Luís Urbano dos Santos.

Até se estabelecer por conta própria em 1940, Francisco Oliveira fez grande parte da sua aprendizagem como empregado dos Santos e com eles compreendeu as técnicas de iluminação, revelação e impressão de retratos.

Após a experiência de cerca de sete anos como empregado, Francisco Oliveira estabeleceu-se por conta própria com apenas 22 anos, na rua da Igreja, n.º 23, 1.º andar, em 1940.

Era um estúdio bem situado, por detrás da Igreja Matriz de Portimão e tinha boas condições para o sucesso do negócio.

O estúdio com laboratório próprio era amplo, apesar de não possuir a iluminação ideal. Oliveira ali desenvolveu o seu negócio durante nove anos a fazer retratos de estúdio. Nesta fase de arranque, Oliveira conseguia cumprir com os seus clientes sem a colaboração de nenhum empregado.

Na Rua 5 de Outubro, n.º 18 em Portimão, Francisco Oliveira vai estabelecer-se em 1949, exercendo a profissão durante cerca de 50 anos, embora tenha deixado de realizar trabalhos fotográficos a partir de 2003, após um assalto que lhe causou enormes prejuízos materiais e sobretudo morais.

Foi neste seu novo estúdio que Francisco Oliveira passou a ser o mestre Oliveira.

Por ali passaram milhares de clientes, ali se revelaram e imprimiram milhares de negativos.

Neste estúdio, vendiam-se máquinas fotográficas, variados acessórios, postais, molduras e filmes; fazia-se serviço de laboratório a cores e preto e branco.

O seu imenso trabalho na realização de reportagens de casamentos, batismos, comunhões, publicidade, inaugurações, etc., para além dos retratos de pose e tipo-passe, garantiu-lhe uma vida sem dificuldades económicas, ocupando os seus tempos livres em passeios pelo país e pelo estrangeiro, dedicando-se também à pesca desportiva, frequentando o Cine-Teatro e Cine-Esplanada e sempre presente nos convívios que os principais clubes recreativos da cidade organizavam, nomeadamente o Boa Esperança, a Sociedade Vencedora, dos quais era sócio ou ainda do Clube Fraternidade.

Oliveira foi sócio destas coletividades e, com 21 anos, fez parte do elenco da revista «Onde Está a Felicidade?».

Teve aulas de violino com o professor Cardoso. Os bailes destes clubes eram afamados e Oliveira foi sempre um conhecido frequentador.

Um dos prazeres de fim de semana do mestre Oliveira foi a pesca desportiva.

Com amigos deslocava-se a Sagres, S. Vicente, a praias no sopé de perigosas arribas, mas de vistas deslumbrantes.

A cana e os apetrechos de pesca substituíam a sua máquina Voightlander.

O pescado era farto e acabava na grelha de uma pequena taberna de Vila do Bispo que dava as brasas e vendia as bebidas e o acompanhamento.

Outro dos prazeres de fim de semana do mestre era o cinema.

Portimão desde cedo tinha um público numeroso que se deslumbrava com as estrelas e os astros americanos e alemães.

Oliveira, no Cine-Teatro, e já com cerca de 50 anos de idade, passa a ter lugar cativo na coxia M n.º 1.

Depois de muitos anos de trabalho e divertimento numa cidade de múltiplas ofertas de convívio nas sociedades recreativas, Oliveira aos 52 anos (1971) casa com Maria Emília da Glória Duarte de Oliveira, empregada na Casa Inglesa, em Portimão, enviuvando em 1983.

Voltou a contrair matrimónio com Joaquina Gonçalves Leitão Oliveira, em 1986.

Esta segunda esposa vem a falecer em 2007.

Depois de 2003, profundamente abalado com o assalto ao estúdio e sem as suas preciosas ferramentas de trabalho, Oliveira passou a aceitar apenas encomendas de impressões de fotografias de paisagem e de Portimão que fizera ao longo dos anos 1950 e 1960.

Oliveira assume-se como o primeiro crítico dos seus trabalhos e entre milhares de negativos e tantas outras provas de contacto escolhe menos de uma centena de fotografias para vender e autorizar a exibição em exposições públicas.

Quando fotografa fora do estúdio, nas suas deambulações pela cidade, não se sente muito atraído pelo elemento humano; liberta-se sobretudo das poses mais formais ou canônicas do retrato de estúdio, dos enquadramentos e composições obrigatórias nos casamentos e nos batizados.

Sente-se longe das suas obrigações, mas não arrisca desfocar a sua reputação, escurecer seu brio profissional. Por isso, evita o confronto dos olhares, a aspereza das mãos e dos rostos sulcados pela força do trabalho das classes desfavorecidas.

Oliveira não procura quadros humanos poéticos onde emirjam metáforas ideológicas de matriz neo-realista à semelhança do seu contemporâneo Júlio Bernardo.

O fotógrafo conhecido de todos, respeitado pela sua ética, admirado pela sua elegância e educação, é sobretudo um testemunho invisível do acontecimento oficial, do enquadramento turístico, da natureza deslumbrante, da composição equilibrada e clássica.

É atraído por aspetos de uma cidade que adivinha grandes transformações urbanísticas que a vão transfigurar irremediavelmente.

Francisco Oliveira fotografou alguns dos edifícios mais emblemáticos da cidade, tais como os Palacetes Sárrea Garfias e Visconde de Bívar, a Igreja Matriz, o Cine-teatro ou a Caixa Geral de Depósitos.

Estes dois últimos foram demolidos e deram lugar a novas estruturas mais funcionais ou com novas valências nem sempre bem aceites, mas que não apagam a memória dos portimonenses mais antigos.

A decadência da indústria conserveira, a massificação do turismo, e todas as transformações sociais, políticas e económicas dos últimos 40 anos modificaram a cidade de Teixeira Gomes de forma irreversível, poucas vezes de forma harmoniosa e do agrado dos seus habitantes ou de quem a visita.

As fotografias de Francisco Oliveira transmitem uma imagem de uma cidade tranquila, pacificada com os seus naturais.

Transmitem a cristalização de um tempo arquitetónico e urbano despojado de ruído, «organizado e limpo».

Ao observar atentamente as fotografias de Oliveira, sentimos que possuem o monocromatismo de uma autenticidade e de uma verdade caleidoscópica.

A cidade que fotografou é silenciosa e o tempo que cristalizou é lento, ao contrário do tempo presente que também se caracteriza pelo ruído e pela velocidade.

Francisco Oliveira, que tivemos o grande privilégio de conhecer, apresentou-se sempre como um homem discreto, encantador e de esmerada educação.

Sabemos que ao longo de 70 anos, os seus sentidos beberam milhares de imagens, habituaram-se às efusões dos químicos, ouviram o rigor dos tempos cronometrados, filtraram a penumbra e as luzes fortes, vibraram com a verdade do preto e branco e a intimidade do estúdio.

Espelhava no olhar sábio uma nostalgia sem molduras dos anos de ouro de um Portimão que se metamorfoseou em estranha borboleta.

Foi o último dos da sua geração o que o levou muitas vezes a sentir-se só e sem amigos.

Podíamos dizer que é como a oliveira longeva que vai resistindo à intempérie dos novos tempos e às rugas da mudança.

Por vezes sentia-se no seu olhar e nos sulcos do seu rosto uma tristeza enorme de indignação contida. Percebia-se um abatimento e uma desilusão com o que foram fazendo à sua cidade.

Perto do seu centenário, continuou rotineiramente ao entardecer a abrir ou contemplar a montra do seu estúdio desarrumado na antiga Rua da Guarda, onde serenamente aguardava pelo crepúsculo dos dias longos, embalado pelas memórias feitas de prata e ouro.