Escondidinho, o restaurante com o alvará mais antigo de Portimão

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Um dos episódios históricos no restaurante Escondidinho, em Portimão, é o almoço de Mário Soares, em janeiro de 1975, aquando da assinatura do Acordo de Alvor, que definiu as condições para a independência de Angola.

No passado, digamos, em traços largos, até ao 25 de Abril de 1974, por norma, as pessoas comiam em casa. Não almoçavam nem jantavam em restaurantes, quanto mais tomar o pequeno-almoço em pastelarias. Quem trabalhava perto, ia almoçar a casa e quem labutava longe, levava o farnel numa cesta. Os restaurantes eram poucos e destinavam-se aos caixeiros-viajantes ou outras pessoas que vinham de fora tratar dos seus assuntos.

Restaurante-escondidinho
Mário Soares no Escondidinho

A partir de meados da década de 1970, com o aparecimento de cada vez mais turistas, foram surgindo novos restaurantes, muitos dos quais já fecharam, incluindo alguns que foram famosos.

Os mais antigos, de um modo geral, tinham-se iniciado como tabernas, depois começaram a fazer petiscos para a rapaziada, passaram a casas-de-pasto e, alguns, a restaurantes de terceira, tudo com alvarás passados pelas respetivas Câmaras Municipais.

Assim começou o Escondidinho, entre 1940 e 1942, num beco que dá pelo nome de Rua das Portas de S. João. Num anúncio publicado num jornal local, em setembro de 1951, ainda como taberna, colocaram-no na Rua Diogo Tomé, pois fica no enfiamento da mesma, apenas com a Rua Direita a separá-las.

Restaurante-escondidinho

Conversámos com os atuais sócios, um dos quais é coproprietário desde 1962, mas que já lá estava, como empregado do Malha, havia 12 anos. Estamos a falar de Edmundo Luís, 84 anos, que explica como era nessa época.

«A casa começou com os petiscos da terra. A malta acabava o trabalho, vinha para aqui, havia duas pipas de onde se tirava o vinho a copo, faziam-se caldeiradas, chispe com feijão branco, dobrada, moreia frita, passarinhos fritos e caracóis. Na década de 1960, com o aparecimento do turismo e a construção dos hotéis de luxo, começaram a vir aqui tomar as refeições os técnicos das obras, que eram de Lisboa. A casa era diferente, com três divisões separadas. Mais tarde, fizemos obras e demos-lhe o aspeto atual, com a cozinha a ocupar uma das zonas. Posteriormente, fomos obrigados a fazer remodelações» nos sanitários.

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Armando Rito e Edmundo Luís

Em suma, têm sido feitas alterações para se adaptar às necessidades e à legislação em vigor, e continuar a trabalhar, apostando sempre na clientela local.

O outro sócio, Armando Rito, 74 anos, responsável pela cozinha com o auxílio da esposa Ermelinda, diz-nos estar ligado à casa, desde 1999, primeiro com uma cessão de exploração e, nos últimos oito anos, com o alvará em seu nome.

O empregado de mesa, António, já fez 22 anos de casa, depois de ter trabalhado 10 anos com o Armando no restaurante Porto de Abrigo. Já faz parte da família.

Disseram-nos que houve tempos em que a clientela telefonava de Lisboa e de outras localidades longínquas, encomendando caldeiradas ou outras especialidades, antes de saírem de casa para virem aqui comer.

Entre a clientela, que deixava os louvores num guia do Algarve, em língua inglesa, a funcionar como Livro de Ouro, encontramos Fernando Namora, em 1969, Eduardo Damas e muitos estrangeiros. Mas foi-nos dito que a jornalista Vera Lagoa e os cantores Francisco José e Mariette Pessanha eram clientes assíduos.

«Foi uma época de ouro», recordou-nos Armando Rito. «Cheguei a ir buscar uma caixa de lagostas e ela não durar uma hora aí em cima. Havia centenas de residentes estrangeiros, principalmente ingleses, que frequentavam o nosso restaurante, assiduamente. Mas foram morrendo e esse nicho de mercado caiu».

Hoje, há muitos restaurantes, muita diversidade de comida, os hábitos alimentares mudaram e há cada vez menos restaurantes com cozinha tradicional. Torna-se difícil sobreviver com a clientela local, sobretudo após a pandemia de COVID-19.

«Havia clientes que almoçavam diariamente, durante a semana, como os bancários. Com o confinamento, começaram a trazer a comida de casa, habituaram-se e, agora, deixaram de almoçar nos restaurantes, ou fazem-no com menos frequência. E também têm fechado agências e reduzido o pessoal. Mas, quando podem, vêm. O recente aumento do custo de vida também é problemático, porque os clientes não suportam a subida dos preços e nós somos obrigados a aumentá-los para podermos sobreviver», apontaram.

Um dos episódios na história deste restaurante é o almoço de Mário Soares, em janeiro de 1975, na companhia de outros políticos, aquando da assinatura do Acordo de Alvor, que definiu as condições para a independência de Angola.

Restaurante-escondidinho

O Escondidinho está na linha de outros estabelecimentos dedicados à cozinha tradicional e à clientela local, que vão fechando, quando os proprietários deixam de ter condições físicas para continuar na labuta, porque os filhos têm as suas vidas e não as querem trocar por uma atividade muito trabalhosa, com horários longos e sem um retorno compatível com o sacrifício.

É, portanto, aproveitar, enquanto ainda resiste.

Restaurante Escondidinho
Rua das Portas de S. João, número 22
contacto telefónico: 282 424 278