E agora, Algarve?

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Maior simbologia, porventura, não poderia haver, qual retrato dum outro Algarve, que não o publicitado em revistas de turismo e apresentado como possuindo campos de golfe ou resorts ganhadores dos mais variados prémios e menções honrosas: uma tenda para rastreio dos suspeitos de contaminação com o vírus que decidiu atacar-nos, ao lado desse «elefante branco» (ou quase), designado, pomposamente, «Estádio Algarve»!

Ou seja, onde se devia ter construído um hospital servindo, condignamente, o Algarve, construiu-se, à laia de «novo-riquismo», um estádio de futebol, servindo de há muito de pouso às moscas (ou quase) e onde, junto do mesmo e em nome da saúde pública, uma simples tenda, agora, foi erguida!

Em janeiro deste ano, nas paginas deste mesmo jornal e sob o título «Algarve, quo vadis?», como que adivinhando o que, infelizmente, aí viria, escrevíamos:

O Algarve criou uma tal de dependência do turismo, que, se por qualquer motivo (…) o mesmo entrasse em crise, só restaria à gente de cá ir para o Alentejo apanhar azeitonas em nome dos espanhóis.

E agora, Algarve?

O que nos têm para dizer, nomeadamente, os seus «líderes», assim como as diversas «personalidades do ano», eleitas, muitas vezes, em caricatos escrutínios e homenageadas em cópias grotescas de «óscares hollyoodescos»?

Onde estão as pescas, as indústrias, os serviços, a agricultura, a pecuária, com escala suficiente para servir, em momentos como este, de um mínimo de contrapeso a uma indústria turística dominante, que não se sabe agora quando, exatamente, poderá vir a levantar cabeça?

O governo inglês, por exemplo, já começou a pedir aos seus cidadãos, dos mais velhos e principais clientes, se não mesmo, os maiores, da indústria hoteleira algarvia, para não fazerem marcações de férias este ano; as próprias autoridades sanitárias portuguesas falam de restrições na ocupação das praias e, como se não bastasse, aqueles que, mesmo assim, poderiam pensar em vir até cá, interrogar-se-ão se, a virem, não se poderão ver, depois, classificados como irresponsáveis propagadores de vírus entre os responsáveis e disciplinados «algarvios», como pela Páscoa algumas «mentes brilhantes» propalaram, sem razão, depois, comprovada.

Onde está a habitação social, capaz de responder às necessidades que se adivinham de quem perder o emprego e deixar de poder pagar rendas que um mercado imobiliário especulativo inflacionou?

Vão, também, para tendas, junto ao Estádio Algarve?

Viu-se-se, apenas, no sol e praia do Algarve uma «galinha de ovos de ouro» para ser explorada ao máximo, com baixos custos e lucros rápidos.

Montar uma qualquer fábrica de raiz, por mais pequena que fosse, era coisa que dava muito trabalho, para a qual não havia incentivos, levando tempo a amortizar e a tirar dela os devidos proveitos.

Mais fácil e de lucro rápido, era pedir-se dinheiro emprestado ao banco e erguer-se uma torre de «apartamentos turísticos» com muita areia e pouco cimento, com qualquer «servente de pedreiro» transformado em «construtor» ou abrir-se um «restaurante» para servir English breakfast, ou seja, feijão enlatado, ovos e salsichas.

Tudo isto, para já não se falar de um tempo (de que ainda se vão observando por aí alguns resquícios) em que o «pobre» do turista nacional se via discriminado em relação ao «rico» estrangeiro, já que era suposto não fazer tanta despesa e ainda dar menos «gorjeta» do que este:

-Tem mesa para um casal?

-Hum… Tá difícil…Pois…Há uma, mas já está reservada…

E agora, Algarve?

Alguém, olhando para uma Vilamoura vazia e silenciosa, tida como um dos «postais» do Algarve turístico, sussurrava, incrédulo:

-Parece Chernobyl

Sem tantas festas para frequentar, como as de uma Passagem de Ano em Albufeira, Carnaval de Loulé ou Festival do Marisco em Olhão, ou, ainda, de na praia sol apanhar, fechado em casa por causa dum microscópico vírus, talvez tal clausura possa ser, ao menos, devidamente aproveitada para uma humilde e honesta reflexão por parte do Algarve sobre o Algarve tido e sobre o Algarve pretendido.

PS – Se a pandemia vivida a todos procura atingir, como já o escrevemos, não é menos verdade que uns podem defender-se melhor do que outros dela e suas sequelas, como as de ordem psicológica.

Há os que podem ficar em casa e aqueles que têm de ir para a rua trabalhar, seja para recolher lixo, conduzir autocarros ou distribuir correio. Há os que se podem refugiar num qualquer idílico «monte alentejano», longe do gentio, potencialmente, contaminador o os que são obrigados a ficar confinados entre quatro paredes numa qualquer torre de pequenos apartamentos.

Luís Ganhão | Jurista