COVID-19: Vítor Guerreiro lamenta «dupla injustiça»

  • Print Icon

São Brás de Alportel foi a primeira zona do Algarve na lista de municípios de risco elevado de contágio. Vítor Guerreiro, autarca são-brasense voltou hoje a considerar que se trata da «aplicação de uma fórmula matemática cega» que está a ter um forte impacto negativo na restauração e na economia local.

Pese embora todas as diligências realizadas pelo município, São Brás de Alportel continua incluído no mapa de concelhos considerados de elevado risco de contágio, não tendo sido aceite a sugestão de exclusão dos casos relativos a surtos circunscritos em lares de terceira idade, para a contagem dos novos casos, aos quais é aplicado este critério.

Ao dia de hoje, o concelho apresenta apenas 30 casos positivos na globalidade, 22 dos quais dizem respeito ao surto do Lar de Terceira Idade da Santa Casa da Misericórdia, «aliás no seio do qual, fruto de um excelente trabalho de acompanhamento e monitorização, regista-se um abrandamento no contágio e um contínuo crescimento de casos recuperados».

É «um grande sentimento de injustiça pelo esforço que toda a comunidade tem feito desde o início de março. Fomos um dos concelhos do Algarve na primeira linha a tomar medidas para conter a propagação do vírus e salvaguardar a segurança da população», sublinha Vítor Guerreiro, presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, ao barlavento.

Na altura, «o nosso comércio local envolveu-se e aceitou, de imediato, as indicações que o município fez no âmbito do plano de contingência para encerrar alguns estabelecimentos e para a diminuir o número de pessoas no seu interior. Houve uma grande colaboração e espírito de interajuda», lembra.

Segundo o autarca são-brasense, o foco no lar de terceira idade da Santa Casa da Misericórdia, que justifica a inscrição do concelho algarvio na lista, «está e continuará a estar apenas num piso, onde residem pessoas com demência que não podem estar contidas porque acabam por perder a sua rotina e descompensam. E é muito difícil que compreendam porque têm de usar máscara. Não se pode contar com isso», diz, e deixa uma palavra de apreço aos funcionários que lidam diariamente com esta situação.

«O surto no lar está devidamente contido e controlado, mas, infelizmente, conta para entrarmos no mapa de risco. Mas a verdade é que nunca passámos os 24 casos na comunidade», aponta. Com uma população que rondará os 10500 habitantes, «mais uma vez, a grande questão é não sermos considerados um território de baixa densidade. Se assim fosse, o surto no lar não contaria para nos colocar na lista de concelhos de alto risco.

São Brás tem 75 por cento do território em plena serra do Caldeirão e uma população envelhecida.

«Não temos os benefícios nem as receitas próprias que os municípios do litoral têm, e também não temos os apoios aos territórios de baixa densidade. Nos fundos comunitários temos sido altamente prejudicados. Sempre. Tudo por causa de uma questão específica do ordenamento administrativo, pois temos apenas uma freguesia que coincide com a área urbana de todo o concelho. Desde 2015 que alerto para esta situação», justifica.

«O que é que acontece? Com as medidas que agora foram difundidas, existe um efeito psicológico extremamente negativo. As pessoas têm medo de vir a São Brás porque pensam que não podem entrar ou que não podem circular. A restauração tem sido um sector extremamente prejudicado. Esta semana, já sentiram a diminuição dos clientes. Isso é frustrante, é injusto, e não faz sentido», sublinha.

«Estas medidas deviam ser tomadas, tendo em conta um parecer das autoridades locais de saúde. A delegada de saúde regional devia de pronunciar-se sobre esta situação. Não o fizeram porque não foram chamados a isso», lamenta.

«Temos oito casos ativos fora do lar. Não representam qualquer risco. São Brás de Alportel não está pior que outros concelhos do Algarve, antes pelo contrário. Não podemos prejudicar a economia, sem qualquer sentido, sem qualquer argumento prático», sublinha o autarca, que deixa um apelo aos algarvios.

«A nossa restauração precisa, mais do que nunca, de colaboração. Se tivermos oportunidade de ir aos restaurantes, não vamos ter receio, porque todos têm feito um trabalho extraordinário para se adaptarem às novas regras de higiene e segurança. A nossa população é respeitadora e tem seguido todas» as indicações das autoridades de saúde.

Vítor Guerreiro diz que tem recebido centenas de mensagens de email. «Muitas de solidariedade, muitas de preocupação, muitas para tirar dúvidas. Já fiz chegar esta preocupação ao primeiro- -ministro António Costa e aos órgãos regionais como a AMAL e a CCDR, e também ao secretário de Estado Jorge Botelho».

O município de São Brás de Alportel continua a entender que a aplicação cega deste critério que define de elevada incidência a existência de 240 casos por cada 100 mil habitantes nos últimos 14 dias, «sem ponderação da especificidade dos territórios e da real situação epidemiológica do concelho, conduz à aplicação de medidas desajustadas e ineficazes, com graves prejuízos para a economia local e as comunidades, já tão fustigadas por esta pandemia e pela crise que trouxe consigo».

Para já não está prevista nenhuma ação extraordinária, até porque «quando a situação do país se estava a complicar, tínhamos já decidido colocar de novo a rotatividade de horários na autarquia e algumas horas de teletrabalho para os colaboradores», frisa.

«Manifestamos toda a nossa solidariedade para com os sectores da economia local, fustigados por estas medidas e reafirmamos que estamos a desenvolver todos os esforços para apoiar a nossa população, conscientes da dura situação que vivemos», conclui.