«ALL» Algarve

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Onde estão as «forças vivas», as «elites» ou as «personalidades» do Algarve, como se lhes quiser chamar, capazes, em vez de passarem o tempo com simples «queixinhas» do poder central e de nulos resultados, de, verdadeiramente, «baterem o pé» a esse mesmo poder central, de saírem à rua, se necessário for, exigindo aquilo a que a região há muito tem direito, mas que lhe tem vindo a ser, sistematicamente, negado?

É uma vergonha, entre outras, que uma região tida como «ex-libris» do turismo lusitano, continue a apresentar uma EN125, desta feita entre Olhão e Vila Real de Santo António ou um simples troço entre as Quatro Estradas e Quarteira/Vilamoura, num estado tão calamitoso.

No caso particular do troço Quatro Estradas-Quarteira/Vilamoura, de tráfego rodoviário intensíssimo, o mesmo mais parece um carrossel do que outra coisa, por via das raízes das árvores que ladeiam o mesmo, com peões a caminhar por bermas quase inexistentes e sem a existência, sequer, dum simples aviso tipo «Atenção! Piso em mau estado!». Estar-se-á à espera que ocorra ali um qualquer grave acidente, para, só então, com um «passa culpas» e «especialistas» vários a comentar o ocorrido, se fazer, finalmente, alguma coisa? (1)

E que dizer do comboio, que faz a ligação barlavento-sotavento? Bela montra do Algarve, sem dúvida, mais parecendo um «bairro de lata» ambulante, do que um comboio digno desse nome em pleno século XXI!

Construiu-se, célere, um grande estádio de futebol, a que logo foi dado, pomposamente, o nome de «Estádio Algarve», pois haveria que «glorificar» a região, mas que hoje não passará de um autêntico «elefante branco» (ou quase). Isto, enquanto tarda, cada vez mais, a construção de um hospital que sirva, condignamente, os que cá vivem e os que por cá passam.

Reformados imigrantes endinheirados, ainda por cima livres de impostos, jogando mão a tudo quanto é casa, deixam milhares de alunos sem aulas (2), por os professores que lhes estavam destinados e pagam impostos, não conseguirem, na procura de alojamento, competir com tais reformados. O mesmo se diga, pelas mesmas razões, dos jovens adiando a sua emancipação, mantendo-se na casa dos pais ou de quem, mais genericamente, para o Algarve quer vir trabalhar.

É este outro Algarve (quase, exclusivamente, dependente do turismo) e muito mais, como o trabalho sazonal, não raro mal remunerado, que se esconde por detrás dos publicitados «melhores campos de golfe do mundo» ou «resorts seis estrelas», com a sua gente cada vez mais transformada em meros criados de terceiros, de titulares de «visto gold» possuidores de riqueza, tantas vezes, duvidosa!

Onde estão, pois, as «forças vivas», as «elites» ou as «personalidades» do Algarve, capazes de mobilizar para as verdadeiras causas da região, nomeadamente, os mais de cinquenta por cento de abstencionistas e votantes em branco verificados em sucessivos atos eleitorais?

Olhando para o umbigo ou elogiando-se umas às outras em jantares de casinos, com umas simples «queixinhas» pelo meio quanto ao esquecimento a que será votada a região pelo poder central?

(1) Antigamente, havia a figura do «cantoneiro», que, nomeadamente, tinha a seu cargo a limpeza das bermas das estradas. Hoje, cresce o mato e lixo nelas, a par de uma sinalética destruída, tapada por ramos de arbustos e de árvores, perdida entre publicidades várias ou, simplesmente, caótica. Encontra-se, por exemplo, uma placa a limitar a velocidade a 60 Km/Hora, mas, depois, esqueceu-se de colocar, mais à frente, uma outra a pôr término a esse limite, quando caso disso. À entrada de Faro, junto ao Fórum Algarve, existe uma enorme rotunda que, fruto do fluxo constante de tráfego rodoviário nela registado, requer dos condutores que a ela queiram aceder uma atenção redobrada. Pois bem, alguém teve a «brilhante» ideia de um dia ali colocar um enorme painel eletrónico de notícias/publicidade, certamente por considerar que a atenção a ele devida seria mais importante que a segurança rodoviária. O condutor distrai-se a ler uma qualquer «Boas-Festas» e quando dá por isso está a bater no carro da frente que, entretanto, por qualquer motivo parara, lá se indo, consequentemente umas sonhadas festas boas. A EN125, por sua vez, como é sabido, é uma autêntica «rua», pelo que, em respeito pelo Código da Estrada, não deveríamos ao longo dela ultrapassar os 50 Km/Hora, significando isso que ir-se de Sagres a Vila Real de Santo António, só de auto-caravana, para se poder pernoitar a meio do caminho. A alternativa seria a Via do Infante, mas como, apesar de ter sido construída com fundos comunitários, a sua exploração foi concessionada a privados, com o consequente pagamento de portagens, estamos conversados quanto à «fluidez» de circulação de pessoas e mercadorias no Algarve».

(2) Conforme lido, o Algarve terá das maiores taxas de chumbo e abandono escolar.

Post-scriptum: Face à onda de contestação registada por mais um atentado urbanístico na Praia da Rocha, traduzido na demolição da Vivenda Compostela, o atual executivo camarário, presidido PS, veio, imediatamente, através de comunicado, passar as culpas por tal atentado para o executivo em funções em 2011. Já agora, deverá acrescentar-se que o executivo de então, era, também, presidido pelo PS. É que em política partidária os balanços fazem-se comportando não só o que se terá feito de bom, mas, igualmente, as asneiras cometidas. Entretanto, o noticiado embargo camarário da obra subjacente a tal demolição, tem em vista a reconstrução do demolido ou é para deixar «a chaga» (meia demolição da vivenda) à vista ad aeternum? Neste caso, elevada a «monumento», para lembrar aos vindouros os muitos atentados de que o Algarve foi sendo objeto ao longo dos anos, em nome, entre outras coisas, do «novo-riquismo» e da especulação imobiliária.

Luís Ganhão | Jurista